2 Ecosystem-based ocean management
2.4 Ecosystem-based management in practice
Schatzki (2005) sistematiza a ontologia social, sugerindo que seus fundamentos também podem ser adotados pelos estudiosos ou pesquisadores do campo organizacional. Para o autor, essa alternativa deve ser vista como um produto das reflexões filosóficas de teóricos sociais que procuraram romper com visões ontológicas predominantes nas ciências sociais nos últimos 30 anos.
Em sua obra, Schatzki (2005) começa por situar o pensamento social contrastando dois campos distintos na ontologia social: o individualista e o coletivista que marcam, respectivamente, as teorias que procuram explicar a realidade sob a perspectiva dos indivíduos ou da sociedade. Tal polaridade ontológica será retratada brevemente a partir das reflexões do próprio Schatzki (1996, 2003, 2005), que propõe a ontologia do lugar como uma alternativa para a compreensão da natureza da realidade social e organizacional em particular.
No polo que agrega o conjunto de abordagens individualistas, subjetivistas e microssociológicas encontram-se aquelas que priorizam a análise subjetiva e a conduta intencionalmente mobilizada pelas pessoas no momento da ação e da interação social. Nessa ótica, a vida social e suas instituições são observadas como produtos das ações intencionais de agentes reflexivos e criativos que têm um papel destacado na estruturação do contexto em que atuam.
O outro polo agrega os enfoques macrossociológicos, objetivistas e holistas que centram as suas análises sobre a forma pela qual as macroestruturas sociais impõem injunções coercitivas para modelar a conduta humana. Essas abordagens procuram explicar as especificidades dos diferentes arranjos sociais que operam independente da consciência humana. Elas produzem explicações da natureza da realidade sob o ponto de vista macrossocial ou coletivista.
A ontologia do lugar sistematizada por Schatzki (2005) defende que a vida social está intrinsecamente ligada a um tipo de contexto que guarda em seu bojo entidades e eventos, cujas existências são inerentes ou partes dele. O autor emprega o verbo transpirar para explicar que a vida social seria inerentemente parte de um contexto em que ela se desdobra ou ‘transpira’.
Igualmente, a noção de contexto é central para a análise e explicação dos fenômenos sociais sob a ótica da ontologia do lugar. A relevância do contexto tem sido reconhecida também pelasontologias individualistas e coletivistas que procuram explicar a natureza das múltiplas realidades. No entanto, segundo o autor, elas não tomam o contexto como algo inerente à vida social. Portanto, a ontologia do lugar se difere dessas, por considerar que o contexto e entidade contextualizada constituem um ao outro, ou seja, a natureza da entidade e o contexto são interdependentes.
As ontologias do lugar se distinguem de outras (individualista e coletivista) em suas considerações sobre o contexto envolvido, como também sobre a constituição e a dinâmica dos fenômenos sociais. As formulações dessas ontologias foram inspiradas pela filosofia de Martin Heidegger. Mais especificamente, pela noção de esclarecimento ou abertura que passaram a ser centrais para a produção da explicação do lugar da vida social. Nessa ótica filosófica, o esclarecimento é uma abertura local, um espaço de inteligibilidade dos fundamentos dos acontecimentos. As ontologias do lugar concebem a realidade social como um nexo de práticas coletivas que produzem espaços de inteligibilidade. As práticas são abordadas como sendo um conjunto de ações carregadas de sentidos que perpassam a interação social e a vida das pessoas de forma inteligível. Schatzki (2003) cita o trabalho de Charles Taylor, de 1988, acerca dos espaços semânticos, as reflexões de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, de 1985, sobre a ordem social como constelação de
ações, palavras e objetos significativos e a Análise Crítica de Discurso proposta por Fairclough (2003), como exemplos de abordagens que dialogam com ontologia do lugar do social.
Para Schatzki (2002), o lugar da vida social deve ser observado como um nexo de práticas humanas e arranjos materiais. O autor chama a atenção para a existência de três concepções diferentes sobre a prática social nas teorias sociais contemporâneas:
a) a primeira vertente considera que praticar é o mesmo que aprender ou aperfeiçoar determinada habilidade, por meio da repetição. Um exemplo dessa concepção de prática é aprender a tocar piano;
b) a segunda concepção de prática considera as ações e as declarações verbais como um nexo do espacialmente disperso e temporalmente desenvolvido. O autor cita como exemplos, as práticas de cozinhar, de votar, as práticas industriais,
c) recreativas e correcionais. Ao afirmar que as ações e as declarações verbais (linguagem) formam as práticas constitutivas de nexo ou prática social, Shatzki (2006) esclarece que a ação e a linguagem estão interconectadas por meio de três formas de encadeamento: i) compreensões do que dizer (linguagem) e fazer (prática); ii) regras, prescrições, instruções e princípios explícitos; iii) estruturas
“teleoafetivas” que envolvem finalidades, projetos, tarefas, propósitos, crenças,
emoções e disposições;
d) a terceira noção sobre a prática social diz respeito à realização de ações ou práticas de outras espécies. Nessa concepção, a prática seria sinônima de ação, atividade efetiva ou de energização que envolve o pensar e o fazer. Essa terceira noção de prática parece ser central para a compreensão da realidade e a análise da existência humana (SHATZKI, 2006). Lembramos que, segundo esse autor, a concepção de prática mantém relações ou conexões com a segunda. Em outros termos, linguagem e ação estão fortemente imbricadas, ao ponto de concebermos a própria linguagem como produto e produtora da ação humana. Esse
e) pressuposto nos leva a pensar a linguagem e as práticas sociais e discursivas delas derivadas como ações localizadas no tempo e no espaço.
Schatzki (1996) considera que estas concepções não são excludentes. Ao contrário, existem muitas interfaces entre elas, a exemplo da noção de prática como conjunto articulado de ações que se localizam no tempo e espaço. Nesse sentido, a ontologia do lugar reconhece as interconexões entre as práticas, linguagem e arranjos materiais como elementos constitutivos e constituintes da vida social. (SCHATZKI, 2005). Esse pressuposto ontológico também tem sido objeto de reflexão da abordagem de análise do discurso crítica proposta por Chouliaraki e Fairclough (2010) e Fairclough (2003).