Não é suficiente dizer que a história é a história da luta pelo monopólio da imposição das categorias de percepção e de apreciação legitimas; é a própria luta que faz a história do campo; é pela luta que ele se temporaliza. (Pierre Bourdieu, As regras da arte).
Toni Morrison observa que, nos Estados Unidos, há dois cânones literários: um branco e outro negro. O cânone branco é parte das redes da hegemonia cultural branca, obviamente, sendo favorecido pela crítica e o sistema educacional nacional. No Brasil, por outro lado, ao longo da trajetória da historiografia brasileira, a maioria dos críticos nem reconhece uma literatura negro-brasileira como entidade que vale uma denominação distinta na literatura nacional. Obras que levantam a questão de raça, o mau tratamento do negro e o preconceito racial, como as de Maria Firmina dos Reis e Lima Barreto, apenas foram acatadas e aprovadas pela crítica, recentemente, apontando a emergência de novas atitudes socioculturais e políticas em relação ao negro.
Morrison também repudia o mundo da crítica literária estadunidense, observando que ele construiu-se, ignorando a abordagem a temáticas raciais tomada nas obras canônicas de autores brancos. A autora observa que a crítica também ignorou o discurso feminista e as temáticas da mulher por séculos, até as próprias mulheres encontrarem meios e métodos para escrever romances e desenvolver sua própria linha de crítica. “Silêncio e evasão” (MORRISON, 1993, p.9) são as estratégias que dominaram o discurso literário em relação às temáticas raciais nos Estados Unidos. Segundo Morrison, a crítica contemporânea estadunidense considera o assunto fechado, já resolvido, assim, a autora afirma que muitas percepções interessantes sobre o tema foram perdidas. Mesmo obras de autores canonizados que lidam com temáticas de raça, geralmente, são consideradas fracas ou ruins. As obras maduras de William Faulkner que lidam com os temas de raça e classe foram condenadas pela crítica estadunidense, como “menores, superficiais e marcadas por declínio” (MORRISON, 1993, p.14).
Em relação à avaliação de obras literárias pela crítica e a sua eventual consagração, Zilá Bernd (1983) sugere que, quanto mais revolucionária a mensagem de uma obra literária, quanto mais suas representações desviam da ordem vigente ou a criticam, tanto maior é a probabilidade que tal obra ser apagada ou esquecida. A pesquisadora afirma que a literatura negro-brasileira está dentro da categoria que é excluída pelas instituições e mecanismos de consagração, mesmo que pelo menos 45 % da população brasileira seja negra.
Nos processos de publicação, distribuição, divulgação, canonização ou apagamento de obras literárias, há uma forte avaliação ideológica e temática. Roberto Reis (1992) discute a importância das estruturas de poder no processo da consagração
literária e em sua argumentação; ele desconstrói várias noções de entidades sociais como a linguagem, a cultura e a herança textual de cada país, enfatizando que elas não são categorias naturais, mas construtos humanos incorporados e mediados por sistemas de poder.
Linguagem é o construto mais fundamental e amplo com que ele lida. O autor observa que toda a realidade que nos cerca é mediada pela linguagem. Qualquer referente é transformado em signo que carrega valores simbólicos da cultura em que está inserido. No ato de comunicação, o signo é necessariamente reduzido a um termo generalizado. As representações no dicionário mental de cada pessoa permitem a transmissão, a recepção e o processamento de mensagens, mas os signos envolvidos não são iguais para cada interlocutor, são construções pessoais que permitem a comunicação. Do mesmo modo, Eduardo de Assis Duarte (2005) aponta que nenhum signo é inocente. O autor e professor literário observa que os modos estereotípicos de se referir ao “mulato malandro” e à “mulata sensual” foram construídos ao longo do desenvolvimento da historiografia brasileira e precisam de investigação.
O fato de que nossa realidade é intermediada por sistemas de sentidos culturais indica que nossos pensamentos e condutas são limitados e prescritos por tais sistemas. As mensagens ideológicas são transmitidas e nutridas através do reservatório coletivo de imagens, simbolicamente carregadas e incrustadas em textos orais, visuais e escritos nos meios de informação e comunicação. Desse modo, precisamos lidar com o processo da canonização literária com extremo cuidado, lembrando que as obras que formam o elenco do cânone chegaram a tal posição por meio de forças políticas, sociais e econômicas manipuladas pelas classes dominantes.
Flávio Kothe (1997) observa que o cânone da historiografia brasileira, fundamentado supostamente em critérios estéticos de valor, é extremamente lacunoso. Ele discorre sobre a riqueza da produção literária brasileira e a exclusão de muitas obras por sua forma inadequada, apontando a literatura oral, o cordel e a música como três exemplos dessa exclusão. O crítico aponta a existência de histórias de muitas etnias afastadas dos centros, de histórias de pescadores, de imigrantes no campo – toda essa riqueza vai-se perdendo. Kothe denuncia a invenção de uma identidade nacional luso- índia que exclui muitas outras etnias que também fazem parte da nação brasileira: a alemã, a chinesa, a italiana e, obviamente, a africana, entre muitas outras. Concordamos que a identidade luso-índia foi a mais valorizada por muito tempo, entretanto
argumentamos que, ao centro da literatura brasileira, há uma identidade mestiça ambígua, construída na ideia da união do português, do índio e do negro, que consegue incluir e excluir, valorizando certos comportamentos, costumes e traços somáticos como a cor da pele e a textura do cabelo.
Jean Paul Sartre (1989) observa que os intelectuais e escritores estabelecidos e bem-sucedidos, geralmente, são uma classe parasítica. Do mesmo modo, Roberto Reis (1992) destaca que os escribas das sociedades humanas, desde sempre, ocupam posições de poder ou são cooptados pelo poder. Reis dá o exemplo dos sacerdotes nas épocas em que fatores religiosos ainda dominavam a tomada de decisões importantes em qualquer cultura. Em relação à consagração literária, o autor observa ainda que “o critério para se questionar um texto literário não pode se descurar do fato que, numa dada circunstância histórica, indivíduos dotados de poder atribuíram o estatuto de literário àquele texto (e não a outros), canonizando-o” (REIS, 1992, p.69).
Normalmente, o escritor é cooptado e reforça as ideologias das elites, tanto que a literatura se torna uma ferramenta que sanciona as forças do poder. Assim, torna-se óbvio que há múltiplos fatores no processo da consagração literária que não dependem apenas das qualidades textuais imanentes de uma obra. O tom sociopolítico do livro não deve ofender a elite, em termos de seus projetos nacionais e internacionais, porque esse grupo controla os meios de produzir, divulgar e distribuir produtos culturais. Entretanto, como Sartre aponta, na movimentação social constante da sociedade, novas condições socioeconômicas surgem, trazendo junto novos leitores que exigem ser endereçados.
Em sociedades capitalistas como Brasil e os Estados Unidos, as forças do mercado são muito importantes no jogo da consagração literária. Pierre Bourdieu (2002) observa que cada produto cultural responde à sua fatia do mercado, e dentro da rede mercadológica, há diversos fatores sociais, políticos e econômicos que afetam o destino de cada obra. Há múltiplas facções comerciais que representam diversas classes e entidades que concorrem para instalar seu produto no mercado. Desse modo, há uma luta constante de formas e conteúdos de produtos culturais, entre grupos rivais, batalhando para a consagração de seu produto. O autor identifica o crítico literário – com seu alto teor de prestígio acadêmico e social, rico em bens simbólicos – como ator essencial nesse jogo. O crítico, com sua formação literária, suas referências sociais e acadêmicas e seu papel de intermediário entre escritor, editora, Academia e meios de informação, é essencial no ofício de identificar obras que valem investimento e em
legitimar suas escolhas. Por outro lado, Bourdieu considera o escritor vanguardista, sem contatos no mercado, o mais disposto a romper com os horizontes literários e artísticos, o seu poder encontrando-se em sua originalidade. Ao mesmo tempo, ele batalha para superar os autores já estabelecidos, os quais lhe servem de parâmetro.
Hans Robert Jauss, em sua palestra provocativa, intitulada O que é e com que fim se estuda história da literatura? proferida na Alemanha, em 1967, também se interessa pela emergência de novas ideias sociais, introduzidas pela literatura, e por saber como elas são acatadas na sociedade. Na sua discussão, ele explica que há um horizonte de expectativa literária que se encontra na construção do sistema de referências do leitor em relação ao gênero, à forma e à temática de uma obra e ao seu uso de linguagem. Jauss aponta que o choque de novas formas e elementos literários contra as expectativas do leitor pode indicar o surgimento de novos modos de pensar. Além do mais, o ato de receber o novo e compreendê-lo pode causar uma mudança no horizonte de expectativa do leitor, possivelmente, indicando o aceite de um novo conceito social.
Sartre explica que ideias revolucionárias são apresentadas em momentos históricos conflituosos, em que o escritor vanguardista sente a necessidade de se endereçar ao leitor que emerge das novas condições sócio-históricas e econômicas. Na cena brasileira, o escritor que vai contra a corrente literária dominante, muitas vezes, nasce de uma família não branca ou marginalizada, que incentiva seu desejo de contribuir para a construção de uma nova identidade nacional que inclua as pessoas periféricas. Por outro lado, quando o escritor e seu público pertencem à elite, ou, em períodos quando a sociedade é imersa na ideologia do poder reinante, a literatura produzida se torna introspectiva e, muitas vezes, psicologizante e moralizadora, porque o escritor não busca atender às questões referentes a conflitos sociais, políticos ou econômicos numa escala mais ampla.
O autor comenta que a literatura em países colonizados, geralmente, é do tipo não contestador, já que a massa da população está esmagada pelo poder colonizador. Sartre entende que a arte literária faz novos questionamentos, rompe com o horizonte tradicional, quando o escritor resolve endereçar-se a um novo setor da sociedade. Por outro lado, Jauss considera o aspecto mais importante do estudo da história da literatura como a busca pelos questionamentos que o texto literário responde. Na complementação dessa busca, Sartre sugere que qualquer análise literária deve ser guiada pelas perguntas
a seguir: qual é a situação do escritor em sua época? Qual é o público do autor? Quais são os mitos que guiam seus pensamentos? Sobre o que ele pode, deve e quer escrever? Essas perguntas serão importantes para nosso estudo, quando conduzimos nossas análises literárias no quarto capítulo deste trabalho. Entendemos a brancura e a negrura brasileiras como parte das forças da hegemonia cultural da literatura canonizada, que, na fase romântica, colocava os valores, a cultura e os costumes europeus como expoentes máximos, enquanto o escritor da contraliteratura se esforçava a desconstruir tais esquemas.