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Dirigindo-se à comunidade que se reúne em Roma, o apóstolo exorta: “Vós não estais na carne, mas no espírito, se é verdade que o Espírito de Deus habita em vós [...]” (Rm 8,9a). S. João Crisóstomo comenta esse trecho dizendo que “carne” aqui significa aquela arrastada pelas paixões, oprimida pela tirania do pecado148. Uma vez livre, “o homem pode ser chamado espiritual. E o homem espiritual não apenas não vive no pecado, nem na carne vive, mas já se tornou anjo, elevado ao céu, e simplesmente acha-se no corpo”149.

A expressão “já se tornou anjo”, utilizada por S. João Crisóstomo não é de fácil interpretação. Parece-nos que o autor, embora vindo da Escola Antioquena, não pretenda com esse termo aplicar um sentido literal ao termo “anjo”, pois um pouco mais adiante, procura explicar dizendo que “Cristo não só extinguiu a tirania do pecado, mas também tornou a carne mais leve e mais espiritual, não por alterar-lhe a natureza, e sim munindo-a de certo modo, de asas.”150

. O que podemos afirmar seguramente é que S. João Crisóstomo não pretende dizer

que ocorra alguma transmutação na natureza humana a partir da inabitação do Espírito, mas que se realiza uma transformação no interior do homem que, além de deixar “a alma, de certo

143 STO.AGOSTINHO.In Epistolam Johannis ad Parthos tractatus, 1,6 (PL 35, 1422). Apud CATEC.,1863. 144 RP 17.

145 Homilia 14 sobre Romanos 8,26. In: Op. Cit., p. 278. 146 CATEC.,1742.

147 Cf. Ibid.

148 Homilia 13 sobre Romanos 8,9. In: Op. Cit., p. 251. Já trabalhamos sobre essa questão no capítulo precedente.

149 Ibid., p. 251-252. 150 Ibid., p. 252.

modo, alada”, a inabitação do Espírito colabora para que também a carne se torne mais leve e espiritual.

A proposição “carne mais leve e espiritual” sugere a ideia de que a carne uma vez habitada pelo Espírito de Deus, já não é arrastada para as regiões inferiores pelo peso do pecado. “Como o ferro, colocado muito tempo no fogo, torna-se ígneo, apesar de permanecer na própria natureza, explica S. João Crisóstomo, assim também a carne dos fiéis que possui um espírito adquire a eficiência deste, transforma-se em espiritual”151. Nesse sentido, a

“carne” aquecida pelo “fogo do Espírito” vê-se transformada e colabora com o espírito. A carne que antes estava escravizada ao pecado e arrastada pelas paixões, agora habitada pelo Espírito se torna cooperadora, pois está livre para se elevar. S. João Crisóstomo, referindo-se ao apóstolo Paulo diz que ele “de tal modo instruíra bem a carne que [esta] colaborava com o Espírito”152.

A práxis pecaminosa em que estávamos acostumados por força da escravidão do pecado, precisa agora ser transformada em práxis cristã. Será o Espírito Santo, autor da vida nova, quem conduzirá o homem nesse novo caminho. Ele deseja orientar nossa vida, como um comandante governa o navio e um cocheiro a parelha de cavalos153. Livres do pecado pela ação da graça, o homem pode conceder ao Espírito esse governo, entregando-lhe as rédeas não somente do corpo, mas também da alma, sem que com isso venha perder seu arbítrio. Como o pássaro que na imensidão do céu encontra um vento favorável e já não faz questão de bater suas asas, pois é levado pelo vento, assim o homem espiritual encontra no vento (ruah) do Espírito o impulso para ir além. Em sua liberdade, deixa-se conduzir pelo Vento e não se cansa, embora permaneça livre para “retomar as rédeas” sempre que o desejar.

S. João Crisóstomo diz que a inabitação de Cristo, a vivificação dos corpos mortos, a elevação ao céu por uma espécie de asas, e a maior facilidade do caminho da virtude são como prêmios da vida espiritual154. Sobretudo, aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Cristo são “chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade”155.

O chamado à santidade que Deus faz ao homem não se limita em “informá-lo” sobre o caminho que deve seguir para sua felicidade; nem se resume apenas num “convite” a elevar- se ao estado de perfeição. Com o chamado, Deus oferece também as condições para que o

151 Homilia 13 sobre Romanos 8,9. In: Op. Cit., p. 252. 152 Ibid., p. 253.

153 Cf. Homilia 14 sobre Romanos 8,13. In: Op. Cit., p. 264. 154 Cf. Homilia 14 sobre Romanos 8,12. In: Op. Cit., p. 262. 155 LG 40.

homem O responda à altura da vocação. O homem recebe, por isso, o Dom do Espírito, isto é, o Espírito santificador (cf. 1Cor 6,11; 2Ts 2,13).

Consumada a obra que o Pai confiou ao Filho para Ele cumprir na terra (cf. Jo 17,4), foi enviado o Espírito Santo no dia de Pentecostes, para que santificasse continuamente a Igreja e deste modo os fiéis tivessem acesso ao Pai, por Cristo, num só Espírito (cf. Ef 2,18). Ele é o Espírito de vida, ou a fonte de água que jorra para a vida eterna (cf. Jo 4,14; 7,38-39); por quem o Pai vivifica os homens mortos pelo pecado, até que ressuscite em Cristo os seus corpos mortais (cf. Rm 8,10-11). O Espírito habita na Igreja e nos corações dos fiéis, como num templo (cf. 1Cor 3,16; 6,19), e dentro deles ora e dá testemunho da adoção de filhos (cf. Gl 4,6; Rm 8,15-16.26).156

Habitados pelo Espírito e tendo recebido a sua força (cf. At 1,8), o homem é capaz de progredir em santidade. Desse modo, mesmo os “eventos adversos lhe são úteis”, afere S. João Crisóstomo157. A perseguição, as injúrias e os diversos males da vida, como tribulação, angústia, fome, nudez, perigo, espada (cf. Rm 8,35) não podem mais inquietar aquele que está fortalecido pelo Espírito de Deus. Ao contrário, sabem que “em tudo isso são mais que vencedores” (cf. Rm 8,37).

Pela santidade o cristão é atraído para a vida íntima de Deus. A vida nova encontra sentido nessa relação de intimidade de amor entre o homem e Deus, no Espírito. Os tormentos da vida presente, outrora configurados como algozes que nos roubavam a paz, transformam-se agora em aliados no caminho de perfeição. O amor derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado (cf. Rm 5,5) é a força de onde emana essa nova forma de vitória158.

Há uma “nova forma de vitória” para aquele que vive no amor, diz S. João Crisóstomo, referindo-se ao fato de que o amor não pode ser derrotado. E aquele que recebeu o amor de Deus não precisa mais se inquietar, segundo as palavras de S. Paulo:

Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Rm 8,38).

De fato, o “amor é a alma da santidade à qual todos são chamados”159. A caridade é,

pois, o vínculo da perfeição e a plenitude da lei (cf. Cl 3,14; Rm 13,10). Ela é quem dirige todos os meios de santificação, dá-lhes forma e os conduz ao fim. Pela caridade para com Deus e o próximo é que se caracteriza o verdadeiro discípulo de Cristo160.

156 LG 4.

157 Homilia 15 sobre Romanos 8,28. In: Op. Cit., p. 290. 158 Homilia 15 sobre Romanos 8,37. In: Op. Cit., p. 299. 159 CATEC., 826.

2.2.2 A obra do Espírito Santo no mundo a partir do novo homem

Durante o segundo sermão de Pentecostes, proferido por S. Leão Magno enquanto dava as instruções tanto aos neófitos quanto aos espirituais, ele relembra que “não há dúvida de que ao se difundir o Espírito Santo sobre os discípulos do Senhor no dia de Pentecostes, este fato não se constitui o começo de seus dons, mas foi acréscimo da liberalidade”161. Explica

dizendo que “também os patriarcas, os profetas, os sacerdotes e todos os santos dos tempos anteriores foram santificados pelo mesmo Espírito. [...] Sempre a mesma foi a virtude dos carismas, embora não idêntica a medida dos dons.”162 De fato, estava reservado para os

tempos messiânicos a plenitude da graça. Com a vinda de Cristo, o Messias, e após sua glorificação, é chegada a “plenitude dos tempos” (Gl 4,4),

o Espírito virá, nós o conheceremos, Ele estará conosco para sempre, Ele permanecerá conosco; Ele nos ensinará tudo e nos relembrará de tudo o que Cristo nos disse, e dele dará testemunho; conduzir-nos-á à verdade inteira e glorificará a Cristo163.

No dia de Pentecostes (At 2,1) o Espírito Santo veio para ficar para sempre (cf. Jo 14,16),

tornou pública a manifestação da Igreja diante da multidão, iniciou a difusão do Evangelho no meio dos povos e antecipou, numa grande manifestação, por assim dizer, a união dos povos na universalidade da fé por intermédio da Igreja da Nova Aliança, que fala, compreende e engloba todas as línguas, superando a dispersão de Babel.164

O início da difusão do Evangelho pela Igreja dependia da vinda do Espírito Santo. Os apóstolos deveriam permanecer na cidade até que fossem revestidos da força do Alto (cf. Lc 24,45). Jesus sabia que sem essa força especial do Espírito Santo os Apóstolos não poderiam tornar-se testemunhas (“mártires”) de seu Evangelho. Eles deveriam fazer a experiência interior da presença e força do Espírito; deveriam tornar-se morada e permitir que o Espírito Santo os conduzissem na missão. Como conclui o papa Paulo VI,

realmente, não foi senão depois da vinda do Espírito Santo, no dia do Pentecostes, que os apóstolos partiram para todas as partes do mundo a fim de começarem a grande obra da evangelização da Igreja; e Pedro explica o acontecimento como sendo a realização da profecia de Joel: "Eu efundirei o meu Espírito" (At 2,17); e o mesmo Pedro é cheio do Espírito Santo para falar ao povo acerca de Jesus Filho de Deus (At 4,8). Mais tarde, Paulo, também ele, é cheio do Espírito Santo (At 9,17) antes de se entregar ao seu ministério apostólico, e do mesmo modo Estêvão, quando foi escolhido para

161 S. LEÃO MAGNO. Sermão 76. Segundo sermão de Pentecostes, 3. In: LEÃO MAGNO. Sermões. São Paulo: Paulus, 1996. (Patrística; 6). p. 186.

162 Ibid.

163 CATEC.,729. 164 AG 4.

a diaconia e algum tempo depois para o testemunho do martírio. (At 6,5; 7,55) O Espírito que impele Pedro, Paulo, ou os doze a falarem inspira-lhes as palavras que eles devem proferir e desce também "sobre todos os que ouviam a sua palavra". (At 10,44).165

Na comparação entre as experiências do povo de Deus no Antigo e no Novo Testamento, S. João Crisóstomo diz que a sala do cenáculo significa muito mais que o monte que Moisés subiu para receber as tábuas da Lei. Depois que receberam o Espírito Santo “na sala de cima” onde estavam reunidos, os Apóstolos não desceram dali levando em suas mãos, como Moisés, tábuas de pedra, mas levavam em sua alma o Espírito Santo; e dali saía o tesouro e brotava a fonte de seus ensinamentos, de seus dons e de seus bens. Deste modo, explica S. João Crisóstomo, deram a volta ao mundo; eram como livros vivos e leis vivas pela graça. Eles conquistaram deste modo aqueles três mil ouvintes; assim também os cinco mil; assim, finalmente, a todos os povos da orbe, pois pela boca deles Deus falava a quem quer que deles se aproximasse.166

Esse comentário de S. João Crisóstomo é fundamental para verificar que a ação dos Apóstolos na missão é impulsionada por uma experiência pessoal com o Espírito Santo “na alma”, ou seja, no interior de si mesmo; isso é o que torna cada um deles “livro vivo” e “lei viva”. A transformação que eles irão realizar no mundo por meio da pregação da Palavra nasce antes de uma “transfiguração” que ocorre no interior de cada um deles, mediante a experiência com o Espírito Santo.

Será, pois, a partir do fortalecimento do “homem interior” e na consolidação do “homem espiritual” que se poderá almejar a transformação do mundo, por assim dizer. Na expressão de João Paulo II, “Deus uno e trino, que ‘existe’ em si mesmo como realidade transcendente de Dom interpessoal, ao comunicar-se no Espírito Santo como dom ao homem, transforma o mundo humano, a partir de dentro, a partir do interior dos corações e das consciências”167.