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4. RESEARCH METODOLOGY

4.3 M EASUREMENT

γεγόνασι δὲ Κράτητες δέκα; πρῶτος ὁ τῆς ἀρχαίας κωµωιδίας ποιητής κτλ.

Tradução: Diógenes Laércio, IV 23

  48  Testemunho 12: PSI 144 (CGFP 68)80 20 Κράτητα µ[έντοι τὸν κω- µικὸν ποιη[τὴν γε- γραφότα τὸν[ τον ἐν τῆι ἀ[ρχῆι τῆς ἀν- τεπιρρήσεως[ 25 πλειον[ δε καὶ µ[ Tradução: 20 Crates con[tudo o cô- mico poe[ta, tendo escrito o[ o no i[nício da con- testação[ cheio[ e também m[ Comentário:

Esse testemunho só foi traduzido para mostrar que Crates foi um poeta cômico, pois o resto do fragmento não fornece muitas informações devido a seu estado muito esburacado. A palavra ἀντεπιρρήσεως é usada para indicar a réplica feita à fala do corifeu logo após a parábase (LSJ, 1996, p. 151 ἀντεπιρρέω e ἀντεπίρρηµα; cf. também ἐπίρρησις, LSJ, 1996, p. 654). Ao que parece, sua "contestação" chamou atenção de alguns por motivos impossíveis de se identificar.

Λάµια

O Busíris é um dos dramas satíricos de Eurípides, que está em estado muito fragmentário. A respeito dele, um testemunho sobre a peça Lâmia, de Crates, afirma que tinha uma lâmia como enunciadora do prólogo: "in Busiridis prologo Lamiam loquentem induxit Euripides" - "Eurípides colocou em cena uma lâmia falante no prólogo do Busíris".81 Olson afirma que "muitos fragmentos da comédia grega consistem apenas em uma palavra ou duas citadas fora de contexto, e em muitos       

80 PSI - , CGFP -

poucos casos nós podemos dizer algo de significativo a respeito da trama de uma peça perdida ou até mesmo reconstruir uma cena"82 e, por essa razão, notar-se-á que os fragmentos sobreviventes da Lâmia de Crates são poucos, não fornecem muita informação acerca da peça e não permitem muitas elocubrações. Comentou-se sobre eles o que se pensou ser o mais relevante para este estudo. Os fragmentos também foram motivo para que se apresentasse aos leitores o trabalho deste dramaturgo, hoje pouco conhecido por causa da falta de estudos a seu respeito.

Fragmento 20

σκυτάλην ἔχουσα ἐπέρδετο "a que tinha pau grande peidou"

Comentário:

O fragmento pode ser contemplado a partir de cinco escólios que o apresentam de maneira diferente, mas mantêm o sentido. O escólio a Aristófanes, Ecclesiazousae

77:: ἀρσενικῶς δὲ Λαµίαν (λέγουσι δὲ καὶ θηλυκῶς τὴν Λάµιαν). ὑπὲρ ἧς ὁ Κράτης

λέγει ἐν τῶι ὁµωνύµωι δραµάτι, ὅτι σκυτάλην ἔχουσα ἐπέρδετο – "macho era a Lâmia (dizem que também era fêmea a Lâmia). Sobre a qual, na peça homônima, Crates diz que, portando um porrete, peidou". A palavra σκυτάλην significa pau, borduna, cacete, bengala (LSJ, 1996, p. 1617). Em Aristófanes, Ecclesiazousae, 76 sqq ἔγωγέ τοι τὸ σκύταλον ἐξηνεγκάµην τὸ τοῦ Λαµίου τουτὶ καθεύδοντος λάθραι. :: τοῦτ᾽ ἐστ᾽ ἐκείνων τῶν σκύταλων ὧν πέρδεται. – "eu mesma, claro, o porrete tomei de Lâmio, que estava adormecido, na surdina. :: este é daqueles de porretes que peidam". Já nas

Vespas 1174 sqq. ἐπιστήσει λόγους σεµνοὺς λέγειν ...; :: ἔγωγε ... πρῶτον µὲν ὡς ἡ

Λάµι᾽ ἁλοῦσ᾽ ἐπέρδετο, / ἔπειτα δ᾽ ὡς ὁ Καρδοπίων τὴν µητέρα. :: µή µοι γε µύθος, ἀλλὰ τῶν ἀνθρωπίνων κτλ. – "serás capaz de dizer discursos pomposos ...; :: eu sim ... primeiro como a lâmia capturada peidou, / depois como Cardópion a mãe. :: nada de mito para mim, mas coisas humanas etc." (as duas passagens de Aristófanes aqui citadas vão ser trabalhadas com mais profundidade em seguida nas pp. 57-70). Já Hesíquio comenta sobre o comentário de Aristófanes em Hesíquio λ 248 Λάµια: Ἁριστοφάνης φησίν, ὡς τηκούσης ἐν τῆι ἀγορᾶι τινος λαµιώδους γυναικὸς       

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Olson, 2007, p. 1: "Many fragments of Greek comedy consist of only a word or two quoted out of context, and in very few cases can we say anything significant about the plot of a lost play or even reconstruct a scene". Tradução própria.

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ἐνδιατριβούσης. τινὲς δὲ ἐν τῆι ἀγορᾶι περδοµένην γυναῖκα. – "Lâmia: Aristófanes diz assim de uma mulher de dentes de lâmia que passava o tempo escornada na praça pública. E alguns dizem que havia na praça pública uma mulher peidorreira". Já Fócio, que foi Patriarca de Constantinopla, afirmou, em seu léxico: – Fócio p. 205,20 Λάµια: γυνὴ Ἀθήνησιν ἐν ἀγορᾶι διατρίβουσα, σκύταλον ἔχουσα καὶ ἀποψοφοῦσα. ἔστι δὲ καὶ θηρίον. "Lâmia: mulher ateniense que na praça pública passava tempo, portando um porrete e resmungando. É também uma fera", corroborando a descrição fornecida anteriormente tanto por Hesíquio quanto por Aristófanes. Um escólio a

Pausânias I 1,3 καὶ οὕτω µὲν Ἡσύχιος: Ἀριστοφάνης δέ φησιν λαµιώδους γυναικὸς

ἐν τῆι ἀγορᾶι ἑστηκούσης. τινὲς δὲ ἐν τῆι ἀγορᾶι περδοµένην γυναῖκα. – "e também assim Hesíquio: Aristófanes diz assim de uma mulher de dentes de lâmia que ficava na praça pública. E alguns dizem que havia na praça pública uma mulher peidorreira". O adjetivo λαµιώδους, "dentes de lâmia", que aparece no verbete de Hesíquio e depois no escólio a Pausânias, não está registrado no LSJ, mas não é muito difícil de ser reconhecido: parece ser formado a partir de uma combinação dos substantivos λάµια e ὀδούς, e é usado para indicar uma característica peculiar da mulher que ficava sem fazer nada, andando de pau/porrete na mão na Ágora em Atenas. Pode ser interpretada como uma mulher "devoradora", por causa da alusão aos dentes de lâmia (ver infra Aristófanes, pp. 63-64, Galeno, p. 129, e Opiano, pp. 161-162 e Anexos, II: ilustrações, p. 188), o que também poderia remeter à ideia da "vagina dentada" de vários mitos de culturas diferentes, como a hindu, a de tribos sul-americanas, a brasileira.83 O verbo πέρδοµαι não tem outra acepção a não ser "to break wind"       

83

O mito da vagina dentada, vagina dentata, em latim, é antigo e parece estar presente em muitas culturas cuja base é indo-europeia. Na mitologia hindu é representado pelo mito de Adi, filho do asura Andhaka, que tenta vingar a morte do pai pelas mãos de Shiva. Andhaka era filho de Shiva e Parvati, e tenta seduzir Parvati para tomá-la como esposa, mas acaba morto por Shiva. Adi, para vingar o pai, toma a forma de Parvati e tenta enganar Shiva, com o objetivo de matá-lo usando uma vagina dentada. Contudo, Shiva percebe o engano e Adi acaba morto pelas mãos do mesmo assassino de seu pai, seu próprio avô. Os asuras eram divindades ligadas à natureza, que se igualavam em poder aos suras ou devas (os grandes deuses do panteão hindu), e que viviam em guerra com estes últimos. Segundo Wendy O'Flaherty, existe "um grande número de mitos hindus do tipo da vagina dentata, mitos nos quais diz-se explicitamente que o yoni, ou órgão da geração feminino, castra ou mata" - "... a large number of Hindu myths of the vagina dentata type, myths in which the yoni, or female organ of generation, is explicitly said to castrate or to kill", cf. O'Flaherty, 1980, p. 355. Erich Neumann cita as tribos indígenas norte-americanas como detentoras de um folclore rico em citações do mito da vagina

dentata: "esse motivo da vagina dentata é muito típico da mitologia dos índios norte-americanos. Na

mitologia das tribos indígenas um peixe carnívoro habita a vagina da Mãe Terrível; o herói é o homem que supera a Mãe Terrível, quebra os dentes da sua vagina, e assim faz dela uma mulher ("This motif of the vagina dentata is most distinct in the mythology of the North American Indians. In the mythology of the Indian tribes a meat-eating fish inhabits the vagina of the Terrible Mother; the hero is the man who overcomes the Terrible Mother, breaks the teeth out of her vagina, and so makes her into

(soltar gases), como coloca muito delicadamente o LSJ (1996, p. 1365), que traduziu- se aqui pelo vulgar "peidar" por ter sido considerado o mais adequado para a tradução dos trechos que se referem à comédia de Aristófanes.

Fragmento 21

ἔπη τριπήχη Θετταλικῶς τετµηµένα

"uma palavra de três cúbitos cortada à moda tessália"

Comentário:

Novamente, é através de comentários de outros autores que se conhece esse fragmento. Ateneu, X.418 ὅτι δὲ καὶ πάντες Θετταλοὶ ὡς πολυφάγοι διεβάλλοντο Κράτης φησὶν ἐν Λάµιαι: ἐπεὶ — τετµηµένα. τοῦτο δ᾽ εἶπεν ὡς τῶν Θετταλῶν µεγάλα κρέα τεµνόντων – "Porque Crates diz na Lâmia que todos os tessálios são caluniados como glutões: logo — cortada. Então ele fala como os tessálios eram cortadores de carnes grandes". E Aristófanes também se refere às palavras grandes como essa citada por Crates, de três cúbitos, no seu Rãs, 799. O comentador diz que Aristófanes se refere a palavras de comprimento desmedido, "sesquipedalia verba", que Eurípides diz serem típicas das peças de Ésquilo, na disputa que é arranjada entre eles por Dioniso para saber quem voltará ao mundo dos vivos com ele. Os versos 799-800 são uma fala do escravo sem nome (οἰκητής) que conversa com Xântias, servo de Dioniso: καὶ κανόνας ἐξοίσουσι καὶ πήχεις ἐπῶν / καὶ πλαίσια ξύµπηκτα – "e trenas exibiremos e cúbitos de palavras / e medidas compactas". Πῆχυς é o substantivo que os gregos usavam para nomear o antebraço, e também para indicar a medida que um antebraço tinha, que em português se conhece como côvado, e representa uma coluna de dez centímetros de altura (LSJ, 1996, p. 1402; Houaiss, 2008, p. 883). Ele é determinado pelo substantivo ἔπος, no genitivo plural, e por isso indica palavras grandes, que Eurípides afirma que vai medir, uma por uma, para provar como é pesada a tragédia de Ésquilo. Πλαίσιον é uma fôrma alongada usada para moldar tijolos e também para medir quaisquer outras coisas (LSJ, 1996, p. 1411); por falta de uma definição mais concreta desse instrumento, preferiu-se traduzir a palavra apenas        

a woman"); ele também diz que o lado destrutivo do Princípio Feminino, o lado terrível da Grande Deusa, é visto na forma arquetípica de uma boca cheia de dentes, e que achados arqueológicos encontrados da África (estatuetas mascaradas) até a América Central (representações de uma deusa astecaarmada com facas e dentes afiados), cf. Neumann, 1991, p. 168.

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pelo genérico "medidas", concordando com o adjetivo "compactas" (ξύµπηκτα); mas ela também poderia ter sido vertida em "medidores" (Houaiss, 2008, p. 1878). Κανών é qualquer coisa reta usada para medir, e usamos "trenas" por causa do uso muito disseminado dessa palavra no português do Brasil (Houaiss, 2008, p. 2762).

Fragmento 22

ἡµίεκτόν ἐστι χρυσοῦ (µανθάνεις;) ὀκτὼ ὀβολοί "a sexta parte é de ouro (entendes?) oito óbolos"

Comentário:

É o historiador Políbio que fornece esse fragmento: Políbio, IX.62 οἱ µέντοι ὀκτὼ ὀβολοί ἡµίεκτον ἂν ὀνοµάζοιντο, ὡς φησιν ἐν Λάµιαι Κράτης: ἡµίεκτον — ὀβολοί. – "porém os oito óbolos poderiam ser chamados de sexta parte, como diz Crates na Lâmia: sexta parte — óbolos". O vocábulo ἡµίεκτον designa a sexta parte de uma medida de milho, que era chamada µέδιµνος (LSJ, 1996, p. 521 e 1089). O LSJ informa que o µέδιµνος equivaleria a algo em torno de 12 galões, o que fornece alguma ideia de quantidade.

Fragmento 23

καὶ µάλιστ᾽ ἀφροδισίοις ἀθύρµασιν "sobretudo para os brinquedos de Afrodite"

Comentário:

Esse fragmento está num trecho de Fócio, α 3396 ἀφροδίσιον ἄθυρµα. Κράτης Λαµίαι: καὶ — ἀθύρµασιν *** ἡδὺ γὰρ κἀκεῖνο δρᾶν ἐστι, λέγεσθαι δὲ οὐ καλόν – "brinquedo de Afrodite. Crates, Lâmia: e — brinquedos *** pois aquele é doce de fazer, mas não é bom de ser falado". É um fragmento muito pequeno, e está sem contexto algum, aparte esse comentário de Fócio, que diz que as delícias de Afrodite são melhores de serem feitas do que de serem ditas. A palavra ἄθυρµα é um substantivo neutro cujo significado primeiro é "brinquedo", sendo "prazer, encanto" uma das acepções possíveis (LSJ, 1996, pp. 33-34). Já ἀφροδίσιος é um adjetivo triforme que se refere "àquilo que pertence à deusa do amor" (LSJ, 1996, p. 293).

Fragmento 24

ἀνδριστὶ µιµεῖσθαι φωνήν "mimetizar a voz com virilidade"

Comentário:

Mais um pequeno fragmento descontextualizado, o que complica a tradução do infinitivo do verbo µιµέοµαι. Vale aqui comentar o advérbio ἀνδριστὶ, formado à partir da raiz do substantivo ἀνήρ, e que enfatiza o universo masculino: "como um homem", e que seria "com a voz de um homem", nesse caso (LSJ, 1996, p. 128). É na obra de Fócio, mais uma vez, que está citado o fragmento: Fócio, α 1759 ἀνδριστὶ µιµεῖσθαι φωνήν: ὡς ἀνήρ. Κράτης Λαµίαι – " de homem imitar a voz: como homem. Crates, Lâmia" (há um fragmento do historiador Frínico, em sua obra Preparatio

Sophistica 213.1, que também cita esse fragmento de Fócio, com uma numeração

diferente: 127.1 — <ἀνδριστὶ µιµεῖσθαι φωνήν>: ὡς ἀνήρ. Κράτης Λαµίᾳ. Phot. 127, 1. — texto grego consultado no programa Diogenes: de BORRIS, J. (ed.) Phrynici sophistae praeparatio sophistica. Leipzig: Teubner, 1911). E em Aristófanes,

Ecclesiazusae 149 também aparece esse advérbio: ἄγε νῦν ὅπως ἀνδριστὶ καὶ καλῶς

ἐρεῖς – "muito bem! agora como homem e belamente falas".

Fragmento 25

ὁ µύθος ἀπώλετο "o mito foi destruído"

Comentário:

É um escólio ao Filebo de Platão que fornece esse fragmento: escólio Filebo, 14A παροιµία ὁ — ἀπώλετο ... µέµνηται δὲ αὐτῆς καὶ Κρατῖνος ἐν Δραπέτισι καὶ Κράτης Λαµίαι – "o livro com provérbios — destruído ... lembram dele Cratino em Fugitivos e Crates na Lâmia".

Εὐριπίδης - Eurípides