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leitura em sala de aula nas disciplinas de Língua Portuguesa, História e Química. Todos os excertos analisados neste capítulo são recortes das discussões produzidas durante as sessões reflexivas11.

3.2. Sentidos sobre o Trabalho com leitura : momento Inicial

As discussões nas Sessões Reflexivas entre as professoras participantes revelam sentidos que vêm embasando as atividades com leitura e escrita, principalmente nas áreas de conteúdo como, no caso deste trabalho, História e Química. Essa é uma questão central uma vez que novas orientações, como apontam os quadros acima, pressupõem um novo enfoque nas práticas didáticas.

3.2.1. Aula de Química: leitura visa à compreensão do conteúdo

O foco no conteúdo é, de fato um enfoque que tem lugar em todas as disciplinas. Assim, a leitura tem como objetivo usual compreender o conteúdo e o vocabulário, em práticas dirigidas pelos professores. A análise do conteúdo temático das discussões nas Sessões Reflexivas iniciais revela essa compreensão. O excerto abaixo exemplifica esse enfoque de leitura e a não compreensão do enfoque proposto pelos textos prescritos como apontam os Quadro 3.1. e 3.2. sobre competências e habilidades a serem trabalhadas em todas as disciplinas.

(73) Jacira 1: Quando você parte da leitura de um texto você procura trabalhar

esse texto dentro de um gênero?

(78) Mara 1: (...) não ficou claro porque trabalhar gênero, eu monto os textos

pegando da Internet sem saber qual é a fonte, por exemplo do álcool

eu pego do DETRAN. A Internet não mostra isso (...). Dificilmente eu encontro um texto que tem tudo o que eu quero, então recorto partes

e vou montando.

(97) Jacira 2: Daqui para frente uma sugestão é selecionar vários gêneros

textuais dentro daquilo que você quer trabalhar, livros, jornais,

11 A síntese das sessões reflexivas encontra-se no capítulo 2 e nos anexos III e IV deste

revistas, etc. Quando você mostrar para o aluno que aquele texto tem uma lógica de construção ele também vai se apropriar desse gênero.

(98) Mara 2: Bom, por que essa mistura de textos dá nó em mim e nos alunos, porque eu não conheço.

(158) Lia 1: (...) dá para percebermos a necessidade de conhecermos todos

os gêneros para fazermos um trabalho mais consciente sobre leitura (...)

(163) Jacira 3: (...) o aluno sabendo que cada gênero tem sua própria forma

de organização (...) facilita sua compreensão do texto.

A fala de Mara revela como a leitura é enfocada em sua sala. Tem um enorme trabalho em selecionar textos para o trabalho didático, mas o enfoque é apenas na apreensão do conteúdo que julga importante transmitir. Revela, também, seu desconhecimento da importância de se trabalhar com a organização discursiva do texto. Em suas palavras: essa mistura de textos

nó em mim e nos alunos...porqueeu não conheço.

Como apontam as discussões de Dolz (2004) e Schneuwly (2004) bem como os PCNEM, que competência leitora e escritora tem como base o trabalho com texto em todas as áreas, estabelecendo assim uma relação importante com a disciplina de Língua Portuguesa que segundo a prescrição dos PCNEM (1999) baseia-se em propostas interativas língua/linguagem, consideradas em um processo discursivo em contraposição às concepções tradicionais, deslocadas do uso social.

Questionada sobre o trabalho com texto a partir de um gênero12, a professora Mara indica desconhecimento desse conceito como mostra a presença dos advérbios e da conjunção destacada: “não, isso eu não faço”, “não ficou claro porque trabalhar gênero”, “monto os textos pegando da Internet

sem saber qual é a fonte”, ou seja, a professora não estabelece relação com

seu trabalho em Química.

12 A discussão sobre gênero teve início no curso de formação continuada em horário de

HTPC, dirigido a professores do Ensino Médio (Ensino Médio em Rede) como parte da discussão sobre a capacidade leitora e escritora em todas as áreas curriculares.

Como apontam os PCNEM, sintetizado no quadro 3.1., há, na área das Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias, como orientação geral o desenvolvimento da capacidade de comunicação em relação às habilidades de ler e interpretar textos de interesse científico e tecnológico; interpretar e utilizar diferentes formas de representação (tabelas, gráficos, expressões, ícones etc); exprimir-se oralmente com correção e clareza; produzir textos adequados para relatar experiências, formular dúvidas ou apresentar conclusões, entre outras.

Na área de Ciências Humanas e suas tecnologias, está, também destacado, na perspectiva do exercício da cidadania, o desenvolvimento das competências envolvidas na leitura. A fala de Lia (Profª de História): “dá para percebermos a necessidade de conhecermos todos os gêneros para fazermos um trabalho mais consciente sobre leitura” revela que ela vê a importância do enfoque dos gêneros no trabalho com leitura mas não fica claro se segue ou não as prescrições dos PCNEM.

Na perspectiva discursiva, Dolz (2004) e Schnuewly (2004) salientam que o gênero textual age como uma ferramenta, isto é, um instrumento que medeia o ensino-aprendizagem de leitura e escrita. Dessa forma, o ensino dos diversos gêneros textuais pode embasar a competência lingüística e discursiva dos alunos, além de proporcionar-lhes outras formas de participação social como cidadãos, possibilitando-lhes fazer um uso efetivo da linguagem. Sabemos o quanto isso é necessário, uma vez que os resultados das avaliações externas sobre o domínio da competência leitora pelos alunos do Ensino Médio, já citado na introdução deste trabalho, são altamente insatisfatórios.

A seção que segue, analisa o trabalho com leitura em uma aula de História e nos fornece mais elementos para a compreensão dessa realidade educacional.

3.2.2. Aula de História: os alunos não percebem a ideologia embutida