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E XISTING L ITERATURE ON B REAST C ANCER S CREENING

3. BREAST CANCER SCREENING

3.7 E XISTING L ITERATURE ON B REAST C ANCER S CREENING

A sociedade contemporânea ou, segundo Balandier (1999, p. 25), a sociedade da sobre-modernidade, abandonou seus ritos e mitos, “... perdendo a relação com a transcendência, o hábito das Grandes Narrativas, dos mitos e de suas traduções em ideologias diretoras da ação”. Também Lipovetsky (2005, p. XIX), referindo-se à sociedade pós-moderna como uma apoteose hedonista diz que esta já “... não tem mais ídolos ou tabus, já não tem uma imagem gloriosa de si mesma, um projeto histórico mobilizador; hoje em dia é o vazio que nos domina, um vazio sem tragédia e sem apocalipse”. Essa sociedade tem enfraquecido seus mitos e, consequentemente seus ritos, como sua forma de expressão, relacionando-os à categoria de práticas sociais arcaicas, vinculadas ao passado, ao não moderno, ao contra-tecnológico, ao que não é verdadeiro e, portanto, deixando de ser interessante e importante.

De acordo com Postman (2002) novos deuses são forjados, como o da Utilidade Econômica, do Consumo, da Tecnologia e do Separatismo e estes se encontram em nossas escolas e vem exercendo sua força, criando súditos e, consequentemente, criando novos ícones, novas “orações” e também novos ritos. A respeito dessa situação, o junguiano James Holis diz que:

A ansiedade que indivíduos ou culturas sentem nesses momentos é considerável, e rapidamente podem apoderar-se de uma nova imagem, para sentir-se novamente em segurança. Posto que a humanidade consegue tolerar apenas pouca angústia existencial, naturalmente emergem ideologias e modas, modismos e afetações que, momentaneamente, amenizam a ansiedade (1997, p. 8).

A religião, segundo Geertz (2008, p. 67), ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica imaginada, projeta imagens da ordem cósmica no plano da experiência humana e engendra um sistema simbólico que atua para “estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceito de uma ordem de existência geral”.

A geração de um sentido de identidade entre o indivíduo e o transcendente, que é próprio das religiões orientais, não ocorre de forma equivalente entre as religiões ocidentais, pois nessas a necessidade primordial é um relacionamento entre os seres humanos e Deus, que não são a mesma coisa, conforme nos explica Joseph Campbell: “... há uma distinção ontológica e essencial em nossa tradição entre criador e criatura” (CAMPBELL, 2003, p. 35). No entanto, tanto aos orientais como aos ocidentais, a religião parece ser uma condição sine qua non à vida humana, motivo pelo qual “si no

hay, las creamos”. Marshall Sahlins registra essa necessidade humana das crenças espirituais:

Através dos espíritos, os homens representam as forças seculares sob as quais vivem, e nos rituais do culto religioso, onde o poder da sociedade é materializado na coletividade dos crentes, eles afirmam a sua dependência em relação a esse poder, ou seja, afirmam a autoridade da sociedade constituída, disso decorrem várias proposições corolárias encontradas na Antropologia moderna: que as crenças espirituais espelham a estrutura da sociedade; que os deuses, mitos e práticas rituais simbolizam os valores e relações sociais básicos, de que tudo isso funciona para integrar a sociedade, prover coesão, promover solidariedade e manter a continuidade (SAHLINS, 1970, p. 150).

E alinhado aos pensamentos de Postman, Marshal Sahlins já dizia cerca de quarenta anos antes sobre essa necessidade humana de criar novos deuses e que na modernidade ganham contornos peculiares:

Mas Deus é também outro nome para a tecnologia – ou, talvez, para a Economia ou Política. Esta é a segunda das duas principais teses antropológicas sobre religião. Foi esboçada por Malinowski, mas particularmente em referência à magia, processos técnicos e aos habitantes das ilhas Trobriand. Para Malinowski, a magia surgia onde a questão técnica estava além da competência e controle humanos comuns, onde os incertos processos produtivos envolviam sérios riscos para a vida e maneira de viver (SAHLINS, 1970, p. 150).

Portanto, novos deuses, novos mitos e novos ritos são plasmados continuamente como condição necessária para a organização e manutenção da ordem social. No entanto, apesar dessa importância do rito na sociedade, nossos jovens, hoje, passam de forma mais prolongada e gradativa da adolescência para a vida adulta, sem um rito que marque essa passagem. Eles acabam se transformando em adultos como consequência do momento em que assumem novas responsabilidades, começam a trabalhar, engravidam, usam drogas, cometem crimes, envelhecem. Isso porque não há um ritual de ruptura que os retirem do mundo da criança, da adolescência e os insira com solenidade no mundo adulto, de forma que essa nova etapa represente uma conquista, um mérito e não um ônus, um martírio ou uma tragédia.

Os rituais na família, na igreja, na escola cumpririam essa função transformadora, principalmente a de “domar” ou “domesticar” a violência, canalizando-a para universos imaginários. No entanto, essas instituições vêm perdendo seu potencial transformador e ritualístico. A escola é onde os jovens passam a maior parte da adolescência e é, portanto, o espaço mais privilegiado para essas práticas simbólicas. Os ritos nos garantem certas formas de memória e consciência e sua perda priva o indivíduo de elementos que

conferem sentido à existência social ou individual. Entretanto, de acordo o pensamento durandiano, os ritos não estão "desaparecendo" com o tempo, mas apenas ressurgindo modificados. Essa característica flexível torna possível a adaptação dos ritos aos sucessivos instantes da vida, o que, de fato, os caracteriza como contemporâneos, de acordo com as ideias de Postman e Hollis.

Eu havia partido do pressuposto que há um declínio dos ritos de passagem na sociedade e que isso teria impactos nos jovens da sociedade contemporânea brasileira, principalmente na potencialização da violência. Porém, pude verificar também que há ainda instituições que mantém vivos esses ritos, como o Colégio Estadual Júlia Kubitscheck, do Rio de Janeiro, relatado por Iduina Mont’Alverne Chaves, a Academia da Polícia Militar da Bahia, objeto de pesquisa de Carlos Linhares de Albuquerque e Eduardo Paes Machado, o Colégio da Polícia Militar do Estado de São Paulo, pesquisado por Denise Rampazzo da Silva e pude constatar que a Escola SENAI “Conde Alexandre Siciliano”, de Jundiaí, interior de São Paulo, também é uma dessas instituições onde os ritos ainda estão presentes e cumprem uma função social importante.

A presença de mitos diretores como o de Prometeu, Hefesto, Apólo e Dionísio, além dos pseudos mitos como o “mito” do Trabalho, o da Educação Profissional Libertadora, entre outros, reforçam os vínculos entre os alunos, professores e demais funcionários da escola, contribuem para a construção e manutenção da identidade escolar, além de fundamentar os ritos presentes na escola.

Os ritos, por serem a expressão das dimensões simbólicas, possuem forte vínculo com os mitos presentes na escola. As “iniciações” nas oficinas, tanto entre os alunos como entre instrutores e alunos possuem uma relação direta com o mito de Prometeu e Hefesto. Os trotes, as “iniciações” nos grupos de alunos, o pagamento de tributos são manifestações da dimensão dionisíaca, assim como os ritos cerimoniais, de enturmação, de acolhimento e de formatura que reforçam a presença de Apolo no ambiente escolar.

Os universos míticos dos alunos, identificados pelos testes AT-9 revelaram predominantemente a presença da estrutura heroica, caracterizada pela luta, tendo como representação uma vitória sobre o destino e sobre a morte, próprio da faixa etária desse grupo. As repostas aos questionários aplicados fortalecem essa análise, pois é possível perceber por suas origens, caraterizadas por famílias de classe média, de pais operários e que a maioria desses pais e outros parentes também passaram pelo SENAI, ou seja, famílias “batalhadoras” que veem na educação e no trabalho o caminho para a emancipação, sucesso profissional e estabilidade social e financeira. Assim também o grande índice de estruturas sintéticas ou dramáticas e mesmo nos casos das estruturas místicas que refletem bem a angústia que muitos jovens passam durante a fase da adolescência, dos “lutos” que têm fazer, do seu corpo de criança, dos recursos que tinham

quando criança e da necessidade da construção de uma nova identidade que eles ainda nem sabem ao certo se é a dos adultos, alguns admirados por eles, e outros eles condenam e rejeitam, e quanto ele ainda deve manter de sua identidade de criança. Os desejos e sonhos refreados pela família e pela sociedade e, conforme surgiram em alguns relatos nos testes AT-9 e nos questionários, o fato de alguns alunos estarem fazendo curso contra sua vontade e por imposição dos pais.

As literaturas com as quais esses jovens estão envolvidos exerce forte influência sobre seus universos míticos. Os best sellers “Harry Potter”, de J. Rowling, “O ladrão de raios – Percy Jackson”, de R. Riordan e “Anjos e demônios”, de D. Drown ganham formas e contribuem na construção do imaginário do grupo. Assim como os programas que veem na televisão que estão voltados mais ao lazer, como comédias, filmes, desenhos animados, série e novelas, mais um aspecto motivador para o desenvolvimento dos seus universos míticos e pouco interesse por telejornais e documentários, o que é previsível para essa faixa etária do grupo. O mesmo ocorre com relação ao cinema, pois os filmes de aventura e de terror são os preferidos pelos alunos, o que se pode comprovar pelos detalhes dos desenhos e das descrições dos testes AT-9.

Não foi identificado, porém, um agrupamento em função das preferências musicais. Todos declararam que gostam de música e dos tipos mais variados, mas isso não refletiu nenhum tipo de tribalismo por gosto musical.

As crenças, crendices e superstições, essas, sem dúvida exercem uma forte influência no imaginário dos alunos. A luta do bem contra o mal, de Deus contra o Diabo, do mocinho contra o bandido, do galã contra os “feios, sujos e malvados47”, enfim, essa dicotomia que potencializa a angustia humana e conduz o sujeito a enfrentar sua consciência perante seu envelhecimento e sua finitude na morte, que, segundo G. Durand, irá se resolver de forma heroica, mística ou dramática. Essas crenças, sejam elas apoiadas nas tradições familiares ou rompedoras com essas tradições, como ato de rebeldia ou contestação dos modelos familiares, são fortemente latentes e exercem grande influência no imaginário das pessoas.

As informações dos protocolos do teste AT-9 e complementados pelos questionários, pelas entrevistas e pelas observações que fiz, bem como por minhas percepções e memórias como aluno, professor e instrutor dessa escola e atualmente como supervisor de ensino asseguram a legitimidade desses universos míticos dos alunos.

Assim, o declínio dos ritos, percebido em algumas instituições como na família, na igreja e na escola, que já não vêm mais cumprindo com uma função transformadora ou cumprindo de forma deficitária, não acontece na Escola SENAI “Conde Alexandre

Siciliano”. Nela os ritos ainda são presentes e cumprem com essa função, principalmente no que se refere à ritualização da violência. Essa percepção se confirma nas respostas dos alunos aos questionários, nos quais eles comparam o tratamento que é dado no SENAI com o das outras escolas onde cursam o ensino médio. Mas esse reconhecimento não se dá apenas pelo rigor com que a escola trata os atos de violência, mas sim em todos os ritos que mantém. As críticas à rigidez das regras de comportamento, nos procedimentos e nas condutas da escola, que em princípio poderiam repelir os alunos, manifestas em falas como: “– Aqui, às vezes, é pior que o quartel!”, acabam exercendo uma atração e respeito nos alunos, “moldando” seu comportamento:

Eu acho que é mais por ética (Douglas, 4º termo).

Os próprios alunos tem o respeito aqui dentro (Douglas, 4º termo).

É quase como uma indústria aqui no SENAI, então tem a ética profissional (Lucas, 4º termo).

Eu estou aqui pra estudar e trabalhar... (Lucas, 4º termo).

Mesmo o trote, que é condenado por alguns alunos, exerce, na maioria deles, um fascínio e o desejo de estar logo no 4º termo para exercerem seus direitos de “iniciadores”. Essa relação é presente em toda a história da escola, evidenciada no depoimento do Coordenador Pedagógico, porém, de forma controlada, ela vem sendo perpetrada e expressa um desejo latente que ela continue.

Os alunos que participaram de rituais de iniciação e do trote disseram que se sentiam angustiados, com medo e outros nem quiseram declarar seus sentimentos antes e desses de passarem por esses ritos. No entanto, 64% dos alunos declararam que se sentiam “aceitos” após o rito, ou seja, mesmo com o aspecto da violência presente nesses ritos, eles são admitidos na comunidade escolar.

Esse sentimento de ser aceito, de fazer parte de algo maior que você mesmo, de ser legitimado como membro, em outras palavras, ser iniciado. A palavra iniciação, do latim initiare, que quer dizer “início”, “começo”, mas também pode ser traduzida como “ir dentro” ou “ingressar”. Segundo Mircea Eliade (1979, p. 48), “iniciação quer dizer morte e ressurreição do neófito ou, noutros contextos, descida aos Infernos seguida de ascensão ao Céu”, pois é isso mesmo que se percebe nos rituais escolares, principalmente naqueles regulados pelos alunos, uma descida aos infernos ou, pelo menos, até o bueiro para chamar os “tartarugas ninjas”. A iniciação marca a passagem para um novo estado moral e material, passando assim a fazer parte de algo novo, como, por exemplo, ser um aluno da Escola SENAI. Os rituais de iniciação, ou de passagem, representam, uma morte simbólica do iniciando, que marca uma ruptura em relação ao passado (infância,

ignorância), seguida por um período de marginalização, após o qual o iniciando ressurge simbolicamente e é agregado à comunidade com um estatuto superior.

Esse novo estatuto é fundamental para a construção da identidade dos jovens. O sentimento de pertença é forte na escola. Diferentemente do que ocorre nas demais escolas, os alunos gostam de usar o uniforme com a marca do SENAI e valorizam o fato de ostentar nela também a Bandeira do Brasil, além do fato de cantarem o hino e hastear a bandeira. Sinais de valorização dos símbolos da Pátria dormentes em outras instituições, mas presente, reconhecido e valorizado pelos alunos do SENAI.

São essas as práticas simbólicas da escola, das quais ela se orgulha e que garantem o reconhecimento e o respeito dos alunos, pais, funcionários, empresários e autoridades civis da região, como se reflete na fala do atual Prefeito de Jundiaí, senhor Pedro Bigardi, presente na formatura de 2010, quando então exercia o cargo de Deputado Federal48.

Como nossa sociedade hoje está muito focada nos meios de produção e consumo, há uma forte pressão para que a escola, de forma geral, assuma a missão de formar profissionais para o mercado de trabalho. No caso do SENAI, sendo esse o seu principal objetivo, não podemos deixar de lembrar das palavras de Beatriz Fétizon: que a educação para o trabalho não pode ignorar o caráter mais próprio do trabalho e da técnica que é o seu caráter humano, inovador, violador e superador das situações instaladas, para que a educação para o trabalho no século XXI tenha condições de formar o homem, em sua humanidade, deixando para trás o “defunto mito do trabalho” dos séculos anteriores. (FÉTIZON, 2002).

Assim, entendo que a escola, deve buscar mecanismos para a manutenção de seus mitos e ritos. Um dos caminhos para isso, além das ações já praticadas, haja vista a perenidade desses mitos e ritos ao longo desses anos, é a potencialização de uma educação mais voltada à valorização do imaginário, de uma educação fática, no sentido proposto por Paula Carvalho49, em que haja a estimulação da imaginação, compreendendo que imaginar é se conhecer e se reconhecer. Uma educação que permita aos alunos se reconhecerem como alunos da Escola SENAI, estenderem essa percepção como alunos das outras escolas, como filhos, como funcionários da empresa que os contratou como aprendizes e como membros de uma sociedade que eles ajudam a construir e manter, ou seja, como seres humanos manifestando sua humanidade.

O estimulo de práticas que propiciem o devaneio, tendo em vista o equilíbrio entre razão e imaginação, considerando o caráter racional da educação profissional, pois essas práticas permitem levar o aluno a se conscientizar do poder real do imaginário e de sua linguagem, permitindo-o se exprimir numa poética do cotidiano. Ações como a realização

48 Ver depoimento à página 108.

do “Dia Especial”, que compõe a “Olimpíada Cidadã”50 promovida pela escola, deveriam ser intensificadas, pois reforçam esse vínculo entre os alunos e com a escola, professores e outros funcionários e favorecem o desenvolvimento do imaginário do grupo. Isso se constata na fala das alunas do curso técnico:

Já tivemos, em março, um dia especial. A gente ficou o dia inteiro fazendo atividades de gincana, queimada, atividades de lógica, provas, tudo valendo pontos para a Olimpíada do Conhecimento (Joice, T4C – Técnico de Plásticos). Foi. Foi bem legal (Andressa, T4C – Técnico de Plásticos).

A gente deveria ter mais vezes (Samantha, T4C – Técnico de Plásticos).

Enfim, cabe à escola proporcionar, por meio das práticas escolares, compreendidas como práticas simbólicas, o “... cultivo da sensibilidade e da afetividade como canais de abertura da imaginação em direção ao mundo” (TEIXEIRA, 2006, p. 225) para a construção de um mundo melhor.

50 Semestralmente os responsáveis pela organização, com ajuda dos representantes de classe, elaboram a programação da Olimpíada Cidadã, com apoio da Associação de Alunos, Ex-Alunos, Pais e Mestres – AAPM no que se refere a patrocínio de prêmios. As tarefas (atividades) estão relacionadas a temas: solidariedade, esportes, culturais e conhecimentos gerais, meio ambiente, segurança, tecnologia, criatividade e cidadania em geral (Proposta Pedagógica da Escola SENAI Conde Alexandre Siciliano, 2011, p. 25).