Qualquer produto tem de ser fabricado ou tornado efectivo com o intuito de satisfazer as necessidades dos clientes. Esta verdade insofismável do Marketing aponta para dois domínios extremos: o das necessidades do cliente e o do processo de fabrico. O domínio das necessidades do cliente representa, genericamente, todas as formas elaboradas de necessidades que se pretendem suprir, originadas no indivíduo ou na sociedade, por vezes determinadas por via legislativa. A sua identificação é um dos objectivos das áreas do conhecimento, designadas por Marketing. Já o domínio do processo de fabrico representa o conjunto de variáveis intervenientes na concretização do produto, designadas genericamente por tecnologias.
O salto, da necessidade para a concretização, é feito pela concepção do produto, ou Projecto. Determina a concepção, o conjunto de características a que o produto deve obedecer com possibilidade física de produção.
Existem, assim, dois domínios na concepção: o da caracterização do produto, designado no contexto da AP por domínio funcional, e o da concretização física ao nível do projecto, designado por domínio físico. Estes domínios aparecem igualmente nas metodologias anteriormente descritas de Pugh, e de Pahl e na teoria de Hubka.
Existem quatro domínios, que são necessários percorrer, até atingir-se a produção do produto: o do cliente, que incorpora as necessidades do cliente; o funcional, com a caracterização do produto por requisitos funcionais; o físico, com os parâmetros de projecto; e o de processo, com as variáveis para o processo de fabrico. Os vários domínios podem ser esquematizados na figura seguinte [Cap 1, 2.2]:
Figura 2.1. Processo de mapeamento
Nesta figura, são reveladas as relações entre os domínios referidos. Da identificação das necessidades do cliente devem surgir os requisitos funcionais, no processo designado por mapeamento funcional ou Projecto funcional. Dos requisitos funcionais surgem os parâmetros de projecto pelo mapeamento físico ou Projecto. O Projecto é, então, o processo que se desenvolve entre os domínios funcional e físico. Finalmente, as variáveis de processo são obtidas a partir dos parâmetros de projecto pelo mapeamento de processo, também designado por projecto para fabrico ou preparação de obra.
A grande diferença entre a abordagem de Suh e a de outros autores, que utilizaram domínios para mapeamento no projecto, reside no facto de a AP descrever o projecto simultaneamente nos vários domínios simultaneamente. Nas metodologias apresentadas no Capítulo 1, após o total preenchimento do domínio funcional passar-se-ia ao preenchimento do domínio físico. Ao contrário, na AP, a interacção entre os domínios é permanente.
2.3.1 Funções
Os Requisitos Funcionais existentes no domínio funcional têm imagens no domínio físico, designadas por Parâmetros de Projecto. Projectar é escolher os PPs que permitem cumprir os RFs que se desejam concretizar.
O RF k de um nível i, designado por RFi,k, é decomposto em vários requisitos j
independentes, no nível imediatamente inferior, i+1, de modo que:
i 1,j i,k j
RF+ =RF , e i 1,j j
RF+ = ∅ (2.1)
A novidade introduzida pela AP no processo de decomposição de funções reside na identificação de uma relação ontológica entre os RFs e os PPs. A escolha de um PP a um determinado nível de decomposição, influencia os RFs de nível imediatamente inferior. Por exemplo, se a função é “climatizar um espaço”, a escolha entre sistemas de climatização activos ou passivos determinará funções diferentes nos níveis inferiores.
Por outro lado, as novas funções deverão ser executadas por novos PPs contidos nos parâmetros anteriormente escolhidos. Designa-se este processo de ziguezague entre os domínios funcional e físico por mapeamento físico, ou Projecto.
Em qualquer das etapas de decomposição dos RFs, os axiomas referidos no parágrafo 2.2 devem ser satisfeitos. Quanto menor for o número de RFs de elevado nível, mais simples será a realização do projecto. Refere-se, na literatura da AP, que o sucesso do voo do aeroplano dos irmãos Wright em 1903 deveu-se à escolha do menor número de funções que garantissem o voo, em vez de tentarem copiar as funções associadas ao voo das aves.
Um menor número de funções facilita o processo de idealização dos PPs e melhora a clareza da definição.
Identificar o, ou os RFs dos níveis mais elevados que consubstanciem a realidade do projecto é uma das actividade mais importantes. Na realidade, a equipa de projecto recebe muitas vezes indicações imprecisas relativamente à qualidade pretendida para o trabalho, onde se misturam RFs e PPs de diversos níveis com indicações de constrangimentos. Identificar os RFs de maior nível com essas indicações é o primeiro, mas mais difícil passo de aplicação da AP.
Dos níveis mais elevados, por decomposição conjunta dos RFs e PPs, desenvolve-se uma estrutura hierárquica, arborescente, nos domínios funcional e físico, até atingir-se em cada ramo uma definição compatível com o projecto pretendido. Os elementos dos diversos níveis inferiores de cada ramo, designados por “folhas”, permitem a realização do projecto.
físicos, processo que é ilustrado na Figura 2.2. Nesta figura, os RFs e os PPs são representados por caixas, em que estão interligados os diversos níveis de decomposição. O processo de passagem do domínio físico para o funcional é representado por uma seta a cheio.
No processo de escolha dos PPs interferem processos psicológicos, éticos e culturais; legislação, normas e códigos; conhecimentos de sistemas, de equipamentos e de mercado. Equipas diferentes farão escolhas de PPs diferentes, consoante os seus conhecimentos e a sua capacidade imaginativa. Por vezes, a definição das características do projecto e dos PPs é apenas uma questão de terminologia, sendo necessário utilizar métodos de descodificação dessa linguagem [2.3].
Figura 2.2. Projecto na AP
Grupos de sistemas com aplicações semelhantes têm funções de nível elevado iguais, pelo menos nos níveis mais elevados da decomposição. Diremos que nestes casos existe repetibilidade funcional, mesmo que os parâmetros físicos sejam substancialmente diferentes.
Esta repetibilidade expressa-se, por exemplo, na decomposição das funções dos sistemas de climatização. Até determinado nível os RFs são iguais, independentemente do sistema utilizado. A este facto não será alheia alguma convergência de normas e códigos da Europa e dos E.U.A. .
2.3.2 Constrangimentos
No contexto da AP, os constrangimentos (CSs) representam os limites de uma solução aceitável. Existem dois tipos de constrangimentos: constrangimentos de especificação e constrangimentos de sistema [Cap 2, 2.1]. Os constrangimentos de especificação são as balizas que enquadram o produto final, normalmente peso, preço, dimensões, etc. Por exemplo, o constrangimento de “dimensão máxima das condutas”, pode eliminar a possibilidade de utilização de alguns tipos de sistemas.
Os constrangimentos de sistema determinam-se pelas interfaces entre sistemas ou entre componentes, sendo relativas a dimensões, à capacidade dos equipamentos ou às leis da natureza: por exemplo, a escolha de um caudal de ar novo determina constrangimentos dimensionais nas unidades de tratamento de ar.
Na teoria da Análise do Valor (AV), os constrangimentos são considerados restrições na escolha de soluções. Estes podem ser determinadas por leis, normas, exigências de mercado, política da organização, recursos, etc. [Glossário, 2.4]. Com expressão equivalente na AP, representam baias no processo de mapeamento entre os domínios funcional e físico.
Por vezes, a diferença entre CSs e RFs é ténue. Um determinado RF pode ser, no contexto de um outro projecto, um CS. Por exemplo, o custo é normalmente um constrangimento de especificação, mas pode ser considerado uma função [2.5]. A diferença formal na AP entre CSs e RFs reside no facto de existirem tolerâncias para os RFs, que têm de ser controladas, e de estes necessitarem de PPs que os concretizem. Um CS é comum a todo o projecto, servindo como critério da sua avaliação final.
Um exemplo dessa alteração ontológica entre CSs e RFs ocorre com a função “controlar a massa de partículas em suspensão no ar” num laboratório. Neste contexto é um RF. Se considerarmos o contexto da climatização de um escritório, percebemos que se trata de um CS, dado não haver necessidade de um PP que o controle directamente.