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E VALUATION OF MODEL COMPARED TO THE REALITY

Em Terra para Rose há uma sequência em que são intercaladas as falas de Rose e as falas de Bolívar Annoni, proprietário da Fazenda Annoni, possibilitando a análise da fala dos Sem Terra e como essa fala é objetivada no documentário As falas são intercaladas de modo que se estabelece um diálogo entre os personagens, mostrando cada entrevistado defendendo o seu ponto de vista a respeito da ocupação da fazenda e da reforma agrária. As opiniões contrárias são editadas de tal forma que produzem um debate acirrado entre os dois personagens.

Na sequência fílmica, primeiramente aparece o proprietário da fazenda (Figura 3) e ouve-se uma voz feminina fazendo uma pergunta inicial. Pressupõe-se que seja a voz da diretora do filme, Tetê Moraes: “Como o senhor se sente agora com a desapropriação de sua

5 Di/Glauber foi inclusive proibido de ser exibido no Brasil devido a processo jurídico movido pela família do

fazenda Annoni?” E o fazendeiro responde: “Olha, é que não ouvi.” E, em vez de mostrar a diretora fazendo novamente a pergunta e possibilitando nova chance de resposta para o fazendeiro, corta-se imediatamente para a imagem de Rose (Figura 4) e nesse plano, não se ouve a pergunta da diretora. A fala é concedida, na edição, diretamente à Sem Terra: “Bom, a nossa situação era precária onde a gente morava. A gente morava de agregada, tinha que dar a maior parte do que a gente colhia pro patrão, no fim da safra a gente não tinha nada”.

Figuras 3 e 4

Fotogramas de Terra para Rose.

No documentário, o fazendeiro aparece como um interlocutor fraco, desnorteado e abobalhado. São reforçados, na edição do filme, os momentos em que ele esquece o que iria dizer, pede pausa ou se atrapalha na fala. Enquanto isso, Rose é destacada como uma interlocutora com bastante esclarecimento e desenvoltura, evidenciando sua voz segura e suas frases firmes. Ao editar as cenas, intercalando as falas de Rose com as de Bolívar, a diretora enfatiza a imagem de cada entrevistado, de tal modo que a imagem dos Sem Terra, representada pela figura de Rose, é reforçada como um sujeito político, um interlocutor legítimo portador de falas, de críticas e de reivindicações.

Bernardet (2006) destaca a possibilidade de haver, em um documentário, a fabricação de uma instância um pouco implícita, mas difusa ao longo do filme, feita justamente na construção de planos de sequência: a fabricação da simpatia. Ao analisar o documentário Viramundo, de Geraldo Sarno, produzido em 1965, que trata sobre os imigrantes nordestinos que se deslocavam para São Paulo na década de 1960, Bernardet percebe a simpatia com a qual determinados personagens são representados no filme em detrimento de outros.

Em Viramundo há uma montagem paralela da sequência de dois operários: um operário bem sucedido, dono de casa própria, e outro operário, subalterno, ameaçado de despejo (a questão da casa própria é o referencial fornecido por Bernardet em seu livro para realizar a distinção econômica entre os dois operários). Os fragmentos são acoplados de modo que cada operário trate do mesmo tema sucessivamente, de forma a induzir à comparação entre as duas séries montadas, à comparação entre os dois operários. O bem-sucedido reclama que o sindicato é excessivamente politizado e que estaria a serviço da Rússia ou de Cuba, enquanto o outro reivindica que os delegados sindicais atuem mais nas fábricas. Um defende que a atividade do sindicato é meramente assistencialista, o outro sustenta que a organização é um direito dos trabalhadores. Ou seja, sobre as mesmas questões, o documentarista apresenta sucessivas posições antagônicas.

E para além do antagonismo construído nas falas, é construído um antagonismo visual. O operário bem-sucedido é filmado dentro da casa, num plano apertado contra a parede que serve como pano de fundo, estático e rígido, fazendo o movimento mínimo necessário para falar. Por outro lado, o operário mal sucedido é filmado se movimentando em seu barracão, aparece mais a vontade, sorri em alguns momentos. É focalizado realizando gestos supérfluos, como ao colocar uma gaiola para fora de sua casa, com o objetivo de conferir à cena um tom espontâneo. Assim, é construído um antagonismo entre os dois operários pela composição dos quadros: tensão/à vontade, rigidez/mobilidade, fechado/aberto, etc.

(...) a dureza do tratamento do primeiro operário, suas declarações tidas como uma fala pequeno-burguesa nos torna o homem antipático e até alvo de risos por parte de certas plateias, visto que se atinge quase o plano da caricatura. Ao passo que o outro, sua infelicidade, seu sorriso, sua soltura, a soltura maior da filmagem expressam a simpatia do diretor do filme e canalizam a do espectador. (...) O sistema comparativo os põe lado a lado os, para que tomemos conhecimento dos dois tipos de operários, mas por cima instala-se outro sentimento: a simpatia e antipatia” (BERNARDET, 2003, p. 36)

De acordo com Bernardet, o filme direciona o telespectador a dispensar o que não é comparável, o que é irrelevante para a comparação e, portanto, para a construção dos tipos. Estratagema bastante semelhante foi utilizado em Terra para Rose, onde Rose é representada numa perspectiva simpática em oposição à antipatia induzida ao proprietário da fazenda. Enquanto o plano que foca o fazendeiro é ampliado de modo que o espectador veja Bolívar Annoni confortavelmente sentado no sofá, fumando seu cigarro, o plano que enquadra Rose

enfoca apenas seu rosto e seu olhar cabisbaixo. O enquadramento em close imprime um ar intimista ao plano e dá a impressão de um desabafo entre a personagem e o público, estabelecendo uma relação direta entre ambos. Desse modo, para além do debate ideológico que a montagem fabrica (debate este pouco desenvolvido, pois, como já dito, o filme apresenta uma série de imagens do fazendeiro com dificuldades para se comunicar), a edição produz um antagonismo emocional, através dos recursos estéticos pelos quais cada personagem é representado.

O fazendeiro aparece num único plano, revelando a ocorrência de somente um contato entre ele e a direção do filme, ao passo que Rose é acompanhada em vários momentos de sua trajetória, concedendo-lhe várias entrevistas. Assim, a imagem evidencia uma diferenciação emocional da própria diretora, Tetê Moraes, ao entrevistar cada um dos personagens. Foi estabelecida uma relação mais próxima e intimista com um e mais distante e formal com outro e esta diferenciação foi reproduzida no filme através da edição dos planos.

Esse antagonismo opõe, tradicionalmente, dois tipos, como em Viramundo, em que se opõem o tipo “operário apolítico” versus o “operário politizado”. Sobre ambos, o documentário fornece a mesma quantidade escassa de informações pessoais. Contudo, na sequência de oposição entre Bolívar e Rose, contrapõe-se um tipo a uma pessoa. Rose é identificada ao longo do documentário de forma bastante personificada. Ao telespectador são apresentados dados sobre sua trajetória pessoal e sobre sua família. Assim, a simpatia é canalizada de forma personalista para a figura de Rose, enquanto a antipatia em relação a Bolívar é canalizada de forma genérica a um estereótipo de fazendeiro. A simpatia que perpassa toda a representação de Rose é importante para além dessa sequência específica, visto que essa simpatia canalizada para a personagem da Sem Terra é essencial para a construção do clímax do filme, quando é revelada sua morte trágica no acampamento ao final do filme.

Contudo, Bernardet ressalta que o sistema simpatia/antipatia somente funciona no documentário se houver uma predisposição do público para que isso ocorra. O autor classifica o público-alvo do documentário Viramundo como um público progressista, que já teria previamente simpatia pelo movimento sindical operário.

O sistema de simpatia/antipatia que percorre o filme em filigrana não vai sem outra contradição: ele não pode prescindir da cumplicidade do telespectador. Por estar em filigrana e por ter uma função expletiva na estruturação do filme, a simpatia só passará para o expectador se ele tiver uma predisposição emocional ou ideológica

para isso. (...) Quem se encontrar num processo de ascensão social, ou sonhar com isso, só poderá projetar sua simpatia sobre o operário que conseguir casa própria, e considerar o outro como uma ameaça. (BERNARDET, 2003, p. 39)

Assim, o sistema simpatia/antipatia, formulado pelo autor, não diz respeito a uma sensibilidade individual, que seria a maior ou menor disposição de uma pessoa em sentir afeição, mas sim a um componente ideológico. Pode até ser possível, mas pouco plausível que um grande proprietário rural, que se identifica com a condição de Bolívar Annoni, ou alguém ideologicamente contrário à reforma agrária e ao movimento Sem Terra, estabeleça de fato uma relação de simpatia por Rose devido à estratégia fílmica. Todavia, esse não é provavelmente o interlocutor para o qual o documentário se dirige. Terra para Rose é geralmente exibido em festivais não comerciais de cinema, tendo sido premiado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e no VIII Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, em Havana (Cuba), ambos em 1987, além de congressos e encontros sociais e políticos 6, e essa identificação com o público-alvo é essencial para que o documentário possa ser visto por esse público como discurso do saber.