5. DISCUSSION
5.1 E VALUATION OF C AMP AS ADJUVANT IN APL TREATMENT
ATLÂNTICO
Entre 3 e 12 de Março de 1941, os oficiais do Estado-Maior português e britânico reuniram-se para fazerem uma “demorada análise e um cuidadoso exame de todos os elementos” que, para Portugal, “condicionavam a situação actual da Península e do problema da defesa de Portugal”357.
A partir do momento em que Portugal se apercebeu da impossibilidade da guerra ser evitada, não deixou de encarar com particular atenção o problema da defesa das suas ilhas do atlântico. Não ignorou a sua importância em relação às comunicações e ao comércio marítimo de qualquer dos países em luta e foi para si sempre ponto assente que, uma vez declarada a guerra, seria sempre de recear um golpe contra os Açores e Cabo Verde. Por isso mesmo, o Governo britânico mandou o seu congénere português tratar deste problema durante as conversações militares luso-britânicas de 1938 e não deixou de constituir surpresa para os britânicos a circunstância de os delegados militares ingleses nessas conversações se mostrarem relativamente desinteressados desse aspecto do problema militar português.
Naquela conformidade, o Governo português mandou em devido tempo formular um plano para a defesa dos Açores, de Cabo Verde e da Madeira, plano esse que vinha sido executado com alguma lentidão devido à escassez de recursos imediatamente disponíveis e ainda reduzidos pela acção do bloqueio marítimo resultante da guerra358.
Nesta mesma conferência luso-britânica, realizada em Lisboa, foram tratados os seguintes problemas:
a) “Escala de um ataque a Portugal, partido dos Pirenéus; b) Datas do início provável deste ataque;
c) Zonas portuguesas de defesa;
d) Forças de que Portugal dispõe para as guarnecer; e) Armamentos de que imediatamente precisa; f) Auxílios e reforços indispensáveis;
356 Idem.
357 DAPE, vol. VIII, p. 395-396.
Adildo Soares Gomes Capítulo V: A Defesa de Cabo Verde
91 g) Defesa dos Açores e de Cabo Verde”359.
Foram então aprovados oito planos para defender as ilhas atlânticas portuguesas, que compreendiam:
1) Instalação de baterias de artilharia de costa nos postos praticáveis, de forma a fazer respeitar a soberania portuguesa por parte da navegação comercial ancorada ou em trânsito e a repelir qualquer ataque levado a efeito por flotilhas ligeiras submarinas ou de superfície; 2) Elevação aos efeitos da guerra das guarnições militares normais;
3) Reforço das guarnições normais por contingentes militares partidos do continente;
4) Formação de novas unidades locais para desdobramento das existentes em tempo de paz
efectuado através da mobilização dos recursos em pessoal existente;
5) Organização defensiva das ilhas de maior importância militar de forma a tornar impossível qualquer desembarque ou aterragem ou amaragem de forças aéreas;
6) Organização de segurança interna das mesmas ilhas de forma a impedir o assalto por pára-quedistas ou a actuação de elementos organizados no interior;
7) Organização da segurança e da vigilância naval pela atribuição a título permanente de navios de guerra nos três arquipélagos (Açores, Cabo Verde e Madeira);
8) Organização da segurança aérea dos Açores pela atribuição de algumas baterias anti- aérea e de esquadrilhas de caça e de reconhecimento enviadas da metrópole360.
Todas as partes do plano encontravam-se a ser realizadas, ou prestes a sê-lo, excepto o disposto n.º 8, devido à carência de meios. Assim, a partir do mês de Maio do mesmo ano, o Governo português estaria em condições de se opor eficazmente a uma tentativa de ataque à sua soberania nas ilhas portuguesas do Atlântico361.
Para remover a carência de meios a fim de realizar o disposto n.º 8 era necessário que as autoridades britânicas fornecessem, de imediato:
a) 3 baterias de artilharia antiaérea móvel de 3,7´´ (9,4 cm) com os respectivos tractores, projectores e aparelhagem de escuta;
b) 36, de 40 mm, sistema Bofors, ou seja, 9 baterias de 4 peças362.
De acordo com as palavras do embaixador Armindo Monteiro, o ponto da defesa dos Açores e de Cabo Verde era “extremamente importante, tanto sob o aspecto da defesa da retaguarda
359 Idem, p. 426. 360 Idem, p. 403-404. 361 Idem, p. 404. 362Idem, Ibidem.
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portuguesa como sob o de segurança britânica no Atlântico” – e tanto no que respeitava aos Açores como a Cabo Verde363.
Devido à queda da França, em Maio de 1940, e ao domínio do continente europeu por parte da Alemanha, os planos para a defesa das ilhas foram alterados. Assim sendo, em finais do mesmo mês, os Comandos Militares do Reino Unido notaram num memorando interno que Cabo Verde e os Açores eram “da maior importância e de grande valor estratégico” e “em caso de hostilidade portuguesa, deveriam ser ocupados”364.
Nessa fase da guerra, a esquadra francesa, que era a principal força naval no Mediterrâneo, estava neutralizada e a Itália dominava o Mediterrâneo Central. Assim sendo, à Inglaterra só restavam as bases no Suez e em Gibraltar. Esta última era muito importante pois fechava o Mediterrâneo, impedindo que a esquadra italiana saísse para o Atlântico. Perante essa situação, a Royal Navy reforçou o Mediterrâneo com a chamada “força H”. Caso a Espanha entrasse em guerra (e Gibraltar fosse atacado), o desvio da “força H” para Portugal ou para as suas ilhas era essencial para “o controlo do Atlântico”365.
Com a assinatura do armistício por parte da França, com a entrada da Itália na guerra e com o receio que a Espanha deixasse de ser neutro e passasse para o lado do Eixo, Cabo Verde ganhou uma maior importância, pois era uma das poucas alternativas no Atlântico que poderia ser ocupada para substituir Gibraltar (caso fosse ocupado pelas forças do Eixo).
Sobre Cabo Verde e os Açores, António José Telo nota que os Comando Militares Britânicos recomendaram a ocupação destes dois arquipélagos logo que se tornasse “evidente” que “a Espanha pretendia entrar na guerra”, ou se houvesse “um risco sério de os Açores e Cabo Verde serem ocupados” pelo Eixo366.
A 17 de Julho de 1940, Dunn, (Conselheiro Político norte-americano para questões europeias) confessou a Bianchi, embaixador de Portugal em Washington, “o alto interesse dos Estados Unidos da América pela situação das ilhas pertencentes a Portugal”, acrescentando que o Governo norte- americano pretendia que Portugal lhe comunicasse “qualquer suspeita, facto ou circunstância” que pudesse afectar a situação nas ilhas para lhe poder dar “a mais imediata e séria consideração”367.
363 Idem, p. 428.
364 Citado por António José Telo, op. cit., 1993, p. 310. 365 Idem, p. 312.
366 Idem, p. 313.
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93 Foi dito que os EUA “forneceriam a Portugal o material que carecia desde que o houvesse”368.
Luís Nuno Rodrigues acrescenta que Bianchi escreveu a Salazar a dizer-lhe que lhe tinha sido dito que Roosevelt, “com o conhecimento que tem de questões navais, interessava-se particularmente pela situação dos Açores e de Cabo Verde […]”369.