O computador é um utensílio usual na vida de Augusto: é instrumento de lazer e ferramenta de trabalho na profissão de seu pai. Em seu tempo livre, costuma jogar Role-Playing Games (RPG) no computador em sua casa. Seu pai é formado em algum curso na área de Tecnologia da Informação – Augusto não sabe bem o nome – e também tinha o hábito de jogar, comenta. O pai é funcionário de uma universidade pública na cidade de São Carlos. Augusto gosta da profissão de seu genitor e desde cedo tem contato com o ramo. Aos oito anos de idade já o acompanhava ao trabalho e tinha a oportunidade de vê-lo em atividade. Gostava de vê-lo “mexendo” nos programas que usava para trabalhar e era incentivado a fazer o mesmo.
Outro parente que mantém proximidade é seu avô paterno, militar reformado que prestou serviço nas forças armadas no período da ditadura militar. Quando criança, o acompanhava a Brasília para as confraternizações do chamado Batalhão da Saudade. Lá, em meio a conversas e celebrações, se encantava “[...] com um mundo perfeito onde tudo funcionava igualzinho”.
Computação e militarismo, atividades que aprecia e possíveis áreas de atuação profissional, embora ainda esteja indeciso sobre qual delas seguir. Menciona que na sua infância seus pais perguntaram o que gostaria de ser quando fosse adulto e ele fez “a loucura” de responder que seria militar. “Desde lá eles creem que eu vou pro exército”. Conta-nos isto com um riso ansioso de quem fez uma promessa que talvez não consiga cumprir. Tinha em mente ingressar no Instituto Militar de Engenharia (IME) e reconhece ser este um sonho grandioso. No entanto, hesita ao decidir se vai ou não prestar o exame de admissão da instituição porque se considera preguiço e desorganizado, características que não condizem com a conduta de um militar. Por agir desta forma, assegura que não teria sucesso
em seguir a rotina exigente do IME. Além disso, sua preguiça não o impulsiona a estudar, o que levaria ao fracasso num vestibular difícil e concorrido.
Augusto tem 15 anos e cursa o 1º ano do Ensino Médio na escola CC20. A preguiça o acompanha na escola e em outras atividades cotidianas. Ao ler um livro, por exemplo, revela que inicia a leitura, mas a abandona antes de alcançar as páginas finais do livro, pois “[fica] com preguiça”. No Ensino Fundamental, cursado em uma escola da rede privada de ensino, conta que “[...] ficava muito em recuperação porque era preguiço”. Agia segundo a lógica do menor esforço. Um episódio de sua trajetória escolar ocorrido ainda no Ensino Fundamental é ilustrativo. Augusto estava na secretaria da escola ao lado de sua mãe quando uma funcionária o perguntou se não achava ruim ficar constantemente em recuperação. Ele a respondeu, dizendo:
Olha, pra quê que eu vou ficar o bimestre inteiro me esforçando, fazendo tarefa, fazendo trabalho, tentando seguir o que o professor fala, tentar agradar ele, se eu posso chegar aqui no final do bimestre, fazer uma provinha fácil pra caramba [...], entregar e passar?
Atualmente, Augusto tem tentado abandonar este comportamento, já que na escola CC as avaliações não se restringem apenas a provas escritas e têm um caráter mais construtivo e de criação (produção de filme, por exemplo). Além disso, considera que precisa ser mais responsável, pois está no Ensino Médio e logo chegará o momento de ingressar no Ensino Superior.
Sua falta de vontade se manifesta também durante as aulas: ele presta atenção, mas não copia nada em seu caderno. Quando há necessidade de se retomar algum conteúdo anterior, sente-se desnorteado por não se lembrar do que foi falado e como não há nada em seu caderno não consegue retomar o assunto, o que o faz ficar “perdido” nos conteúdos.
No âmbito das Ciências Exatas, componentes curriculares que aprecia juntamente com a Biologia, a sensação de estar perdido se agrava por não fazer os exercícios. Em sua opinião, é necessário fazê-los e refazê-los para memorizar as fórmulas. “Você tem que ficar fazendo senão não vai”. Augusto reconhece que tem capacidade para aprender os conteúdos e resolver os exercícios, contudo lhe falta ânimo para realizar a tarefa.
Em relação à Física, Augusto a define como “[...] um mecanismo muito importante que surgiu desde muito tempo atrás, de formas até indiretas”. Exemplifica sua posição em uma situação hipotética: se alguém está em cima de uma árvore e pretende saltar em cima de algum animal que avista e que está vindo em sua direção, a pessoa terá que estimar a velocidade do animal para poder intuir a velocidade aproximada que deverá saltar para pegar o animal e, ao mesmo tempo, tentar não se machucar na queda. Assim, a Física é uma ferramenta intelectual que permite ao ser humano alcançar o fim de sua atividade. Comenta também que os egípcios lançavam mão da Física ao construir suas pirâmides mesmo sem saber. Diz ainda que se usa Física o tempo todo, mesmo sem percebermos: na natação ao executar-se movimentos de forma a diminuir o atrito entre a água e o corpo ou quando se inclina ligeiramente uma arma para acertar um alvo situado a alguns metros de distância à frente. Contudo, em sua opinião, não são somente os seres humanos que a utilizam, os animais também. A mesma situação hipotética vale se substituirmos a pessoa por um gato e o animal por um rato, por exemplo. Aqui, instinto, saberes oriundos da experiência e o saber da Física se misturam. Em sala de aula, o que se aprende é “essa ferramenta em números”. Por fim, a Física é importante porque sem ela o ser humano não conseguiria “fazer muitas coisas”.
Augusto considera a Física difícil por duas razões: memorização de fórmulas e o modo como é ensinada. Sobre a segunda, refere-se aos enunciados dos exercícios. Comenta que seria mais fácil se estes tratassem de situações mais reais, o que os tornariam mais inteligíveis. Cita um exemplo:
Tipo, sei lá, tem dois jogadores de futebol e tal. Estão correndo. Velocidade média de um é tal e a velocidade escalar de outro é tal. Primeiro que aí você sabe que um jogador de futebol não vai correr a 300 km/h. Então isso daí já ajuda bastante, tá ligado. Então, você sabe dosar, melhorar a conta, você sabe seguir melhorar a conta. Eu acho que fica mais fácil [...]
No caso da primeira, é fácil superá-la: basta estudar, isto é, fazer os exercícios, pois memorização de fórmulas é repetição.
No entanto, estudar não é algo que o atrai, pelo menos não da forma que a escola propõe. De fato, curioso sobre como abrir uma porta com um clips, Augusto não teve preguiça alguma em pesquisar sobre o tema e durante a entrevista nos deu uma verdadeira aula sobre o funcionamento de uma fechadura. Para ele, estudar Física é bom e não se refere à resolução de exercícios. É bom,
pois assim aprende sobre coisas do dia a dia e melhora sua concepção sobre a disciplina e seu cotidiano.
Apesar disso, Augusto não se considera como alguém que se dá bem na disciplina, por ser preguiçoso (leia-se: não fazer exercícios) e perder constantemente a atenção no que o professor explica. A perda de atenção ocorre por dois fatores. Um é a repetição de conteúdos. Como teve seu primeiro contato com a Física escolar no 9º ano, muitos conteúdos estão sendo revistos no 1º ano e isto o faz perder o interesse. O outro é “concentração demais”. Augusto se vê como um Centauro que, no caminho que percorria para recolher as flechas atiradas, para constantemente para examinar e entender os objetos que encontrava no percurso. Assim acontece com ele em aula, ao ouvir sobre determinado tema, por vezes, divaga consigo mesmo sobre o assunto, fazendo conexões entre o que ouviu e coisas de suas vidas, ficando presente em sala apenas em corpo, mas não em espírito.
Para ele, vale a pena aprender Física porque ele a utiliza “para as coisas”. Aprendendo seus conteúdos, ele amplia sua percepção sobre o cotidiano, consegue melhorar o que faz e sua concepção sobre a disciplina.
Notamos que Augusto mantém uma representação positiva sobre a Física escolar, mas lhe desagrada estudá-la da forma proposta pela escola: resolvendo exercícios que não apresentam situações reais. A Física tem um valor de uso, pois com ela pode-se melhorar o que se faz. Assim, Augusto se mostra mobilizado para a Física escolar e não na Física escolar. Em outras palavras, ele não utiliza a si mesmo com recurso para resolver exercícios, mas para estudar e refletir conteúdos físicos que o interessam. A preguiça é uma maneira que encontra de descrever sua desmobilização para as atividades escolares. Por tudo isto, entendemos que os elementos que desfavorecem sua mobilização diante a aprendizagem da Física na escola estão ligados às práticas pedagógicas nas aulas de Física (relação com o mundo como espaço de atividades).