Depois de analisar o tema da religião da casa, não poderia deixar de fazer uma referência à Deusa, já que a proximidade entre a sabedoria mulher e a Deusa em Pr 1-9 tem sido muito discutida entre estudiosos e estudiosas.390 Neste item, pretendo apresentar
389 Elisabeth Schüssler Fiorenza, En memoria de ella – Una reconstrucción teológico-feminista de los
orígenes del cristianismo , p.150.
390 Veja Christa Kayatz, Studien zu Proverbien 1-9 – Eine form-und motivgeschichtliche Untersuchung unter
Einbeziehung ägyptischen Vergleichs-materials, p.94 -95; Alviero Nicacci, A casa da sabedoria – Vozes e rostos da sabedoria bíblica, p.253 -254; Gerhard von Rad, La sabiduría en Israel – Los sapienciales, lo sapiencial, p.200, entre outros.
somente uma síntese do debate sobre alguns aspectos mencionados nos textos de Provérbios 1-9 e 31. Mantenho a perspectiva da elaboração simbólica e buscarei sempre relacionar o símbolo com a realidade em que este foi gerado ou comunicado. Inicio este estudo com o capítulo 3 de Provérbios, onde a sabedoria mulher é comparada a uma árvore: “Ela é uma árvore da vida para os que a colhem e felizes são os que a retêm!” (3,18). Esta comparação não somente lembra Aserá, uma Deusa cananéia que tinha a árvore como seu símbolo principal, mas resgata duas tradições paralelas: a da árvore da vida e a da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2,9 e 3,22). No texto de Pr 3,18, as duas tradições aparecem juntas, relacionando a hokmah com um símbolo importante do imaginário religioso do povo da Bíblia, presente tanto no Gênesis (2,9; 3,22), como no Apocalipse (2,7; 22,14).391
Segundo Monika Ottermann, a Deusa Árvore foi uma das representações da divindade em Canaã, em toda a Idade do Bronze, ou seja, ao longo do segundo milênio a.C. O vínculo entre o corpo da Deusa e uma árvore é evidente em objetos cúlticos simples de uso cotidiano e doméstico e em objetos preciosos e raros. Nestes objetos, o símbolo da Deusa é representado como uma tamareira, onde palmas estilizadas aparecem com sete braços, um central e três de cada lado.392 Depois de fazer uma pesquisa arqueológica sobre diferentes representações da Deusa Árvore em Canaã, Monika Ottermann conclui que a “identificação ou sobreposição de imagens deixa claro que a árvore estilizada representa aquele poder de bênção da terra fértil que gera a vida e a alimenta”393.
Para entender a busca desta bênção, é necessário retomar a difícil situação de dependência política e econômica, vivenciada pela colônia de Judá durante a dominação do império persa. Uma situação crítica de empobrecimento, agudizada pelos problemas locais referentes à posse da terra e à escassez das chuvas. Nesse contexto, é bem possível que se mantivessem ritos familiares para pedir o fortalecimento da vida e que estes ritos
390 Silvia Schroer, “Die personifizierte Sophia im Buch der Weisheit”, em Ein Gott allein? – Jhwh Verehrung
und Biblischer Monotheismus im Kontext der israelischen und altorientalischen Religiongeschichte, p.173.
391 Mercedes Lopes, “A hokmah bem humorada”, em Mandrágora – O imaginário feminino da divindade, São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, vol.11, 2005, p.72.
392 Monika Ottermann, “Vida e prazer em abundância – A Deusa Árvore”, em Mandrágora – O imaginário
feminino da divindade, São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, vol.11, 2005, p.47.
estivessem ligados à Deusa. Mas, há dados que mostram a aceitação deste símbolo da Deusa também no templo de Jerusalém. Neste sentido, retomo uma observação de Monika Ottermann que me parece muito interessante. Segundo esta autora, houve um processo de substituição do corpo da Deusa por seus atributos, especialmente o da árvore. Esse processo chega ao seu extremo no desenvolvimento do menorah, o candelabro de sete braços que era um dos objetos centrais do segundo templo.394
Então, podemos supor que a proibição de Dt 16,21: “não plantarás nenhuma árvore como Aserá ao lado do altar” tenha um significado muito mais amplo e real do que aquele que aparece na historiografia bíblica. Desde os tempos do rei Asa (911-870 a.C.), que retirou de sua mãe o título de grande dama porque ela havia feito um mipleset para Aserá (1Rs 15,13), até a época de Josias (640-600 a.C.), Aserá foi cultuada em Jerusalém. Sobre este culto, encontramos referências nos livros dos Reis e na Obra do Cronista (1Rs 15,13; 2Cr 15,16; 1Rs 18,19b; 2Rs 21,7; 23,4.7). Os textos citados demonstram que o culto a Aserá foi praticado durante a monarquia, por cerca de 300 anos. Segundo José Severino Croatto, Aserá teve “implicações na religião de Israel como uma Deusa especialmente associada ao culto a Javé”395.
Exemplos do culto de Aserá sendo realizado no templo de Jerusalém podem ser encontrados no tempo de Manassés (687-642 a.C.), segundo 2Rs 21,7. Também no tempo de Josias, que durante a realização da sua reforma religiosa, erradicou do santuário de Javé os objetos de culto a outros Deuses, inclusive a Aserá, e os queimou fora da cidade (2Rs 23,4-14). Estes dados da historiografia bíblica manifestam, por um lado, um esforço contínuo e até uma ação violenta das autoridades para impedir que em Israel fossem realizados cultos a outros deuses que não fossem Javé. A vida na casa expressa a persistência de cultos que poderiam trazer para a família e a comunidade uma bênção de vida com abundância de pão e uma proteção divina para não ver a desgraça da guerra (Jr 44,17). Tanto o culto à Aserá como à Rainha do Céu aparecem muito ligados a expectativas de proteção e de abundância de vida.
394 Conferir Monika Ottermann, “Vida e prazer em abundância – A Deusa Árvore”, p.48.
Depois do exílio, as visões de Zc 1-6 apresentam um projeto de centralização do culto no templo de Jerusalém e a expulsão do culto à Deusa para a Babilônia. Esta era uma condição para que o projeto da golah pudesse ser realizado. Norman K. Gottwald situa a primeira parte do livro de Zacarias (1-8) logo depois da reconstrução do templo de Jerusalém, na segunda metade do século 5º a.C.396 Embora o texto apresente muitos problemas de corrupção textual e de interpolações397, as visões apresentadas trazem os passos de um projeto de reconstrução e, inclusive, a sua correção, quando a recuperação da monarquia tornou-se inviável. Na primeira visão apresentada nesse livro (Zc 1,7-17), Javé promete voltar para Jerusalém se o templo for reconstruído. Esta temática é desenvolvida na segunda visão (2,1-4) e também na terceira (2,5-9). Na quarta visão, aparece claramente a proposta de que o governo de Jerusalém deve ser realizado pelo sistema do templo, liderado pelo sumo-sacerdote (3,1-3.4a.4c.4b.6.9a). Na quinta visão (4,1-10), encontra-se o projeto de reconstrução da monarquia; e na sexta visão (5,1-4), instala-se o direito sacerdotal e se fundem o templo e a lei.398 Na sétima visão (5,5-11), a Deusa é expulsa dentro de um alqueire para a terra de Sanaar, onde lhe será construído um templo e um pedestal. Junto com ela vão as suas adoradoras ou sacerdotisas.399 Na oitava visão (6,1-15), corrige-se a proposta de reconstrução da dinastia real. A coroa é colocada na cabeça do sacerdote Josué. Ele portará as insígnias reais e governará o povo a partir do templo.
Ao ler o texto de Zc 5,5-11, poderíamos supor que a religião da Deusa tenha sido totalmente eliminada em Judá, no período persa, e que as mulheres foram totalmente silenciadas. Essa suposição teria como base uma visão de Judá que não corresponde aos relatos bíblicos. Não existe uma Judá monolítica, que cedeu totalmente ao governo sacerdotal do segundo templo, mesmo que esta tendência tenha sido a mais forte e a que prevaleceu sobre as demais, especialmente em Jerusalém. São muitas as tendências
396 Norman K. Gottwald, Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica, p.470. 397 Veja Norman K. Gottwald, Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica, p.469.
398 As dimensões do rolo da lei são as mesmas do átrio em frente do templo de Jerusalém, construído por Salomão (1Rs 6,3).
399 As adoradoras ou sacerdotizas da Deusa estão aqui simbolizadas pelas mulheres aladas. Há uma grande discussão sobre o sentido destas imagens, mas não é meu objetivo entrar neste debate aqui, já que o objeto da minha pesquisa é outro. Quero, apenas, visualizar um aspecto do contexto religioso oficial em Jerusalém, durante o período persa. Para um aprofundamento sobre este tema, veja Joyce G. Baldwin, Ageu, Zacarias e
Malaquias – Introdução e comentário, tradução de Hans Udo Fuchs, São Paulo: Vida Nova, 1991. p.104 e
religiosas e políticas dentro de Judá. Uma dessas tendências transparece na moldura colocada na edição do livro dos Provérbios (1-9 e 31).
Portanto, voltamos nossa atenção para estes textos (1-9 e 31), para continuar a busca de outras ligações entre a sabedoria mulher e a Deusa. Em Pr 8,22-31, cria-se um tempo primordial para a apresentação da sabedoria mulher como pré-existente a toda a criação. Em seguida, narra-se a criação do mundo e mostra-se a sabedoria mulher junto com Javé, como artífice da criação do universo (v.30-31). O imenso prazer de criar transparece em todo o texto e se expressa, de maneira especial, na dança da sabedoria mulher ao terminar a artística obra da criação do mundo (Pr 8,30-31). Vários autores encontram no símbolo da sabedoria mulher, apresentado ne ste texto, algumas reminiscências de Maat, a Deusa Egípcia da verdade e do amor.400
Para uma melhor interpretação de Pr 8,22-31, Silvia Schroer sugere que se faça um estudo sobre o sistema simbólico do pós-exílio, que está por trás deste símbolo da sabedor ia mulher. Segundo essa autora, “esta forma de falar sobre Deus dificilmente se deixa enquadrar nos conceitos patriarcais da religião monoteísta, embora no contexto da história das religiões muitas vezes se fale da influência do Egito e de Deusas helenistas sobre a
sophia, mesmo que nessas pesquisas não se dê muita atenção ao aspecto da
feminilidade”401. Neste sentido, retomo uma citação de Silvia Schroer, que apresentei no primeiro capítulo. Ela aponta para a possibilidade de que imagens de Deusas do Antigo Oriente se unam a outras imagens de Deusas e de mulheres que participaram ativamente na construção da história de Israel para formar o símbolo da hokmah de Pr 8,22-31. Mas, insiste em que “a hokmah é o Deus de Israel na imagem da mulher e na fala das Deusas. O autor destes textos (Pr 1-9) renuncia totalmente às imagens de efeitos desastrosos. O que foi
400 Entre autores e autoras que vêem a figura de Maat por trás do símbolo da hokmah, encontram-se Christa Kayatz, Studien zu Proverbien 1-9 - Eine form-und motivgeschichtliche Untersuchung unter Einbeziehung
ägyptischen Vergleichsmaterials, p.94-95; Alviero Nicacci, A casa da sabedoria – Vozes e rostos da sabedoria bíblica, p.253-254; Gerhard von Rad, La sabiduría en Israel – Los sapienciales, lo sapiencial,
entre outros.
401 Silvia Schroer, “Die personifizierte Sophia im buch der Weisheit, em Ein Gott allein? – Jhwh Verehrung
ao longo de muitos séculos pensado de maneira problemática, aqui, pela primeira vez é experienciado e pensado de maneira integradora.”402
Martin A. Klopfenstein afirma que no símbolo da sabedoria mulher concentram-se, de forma mais inconsciente do que conscientemente representações de Deusas cuja influência é difícil de reconhecer individualmente.403 Porém, encontram-se, também, expressões que resgatam a memória das mais diversas situações das mulheres na história de Israel. O que possibilitou a elaboração do símbolo da sabedoria mulher e a sua aceitação pela comunidade é a sua ligação com a vida, com a nova visão que surgia em Judá a partir de uma participação efetiva das mulheres na reconstrução da história do povo. Esta é a realidade que o símbolo da sabedoria mulher manifesta. Mas, o símbolo não tem apenas a função de representar. Ele também promove o fortalecimento da posição social e religiosa da casa, da fa mília e da mulher, no início do pós-exílio.
Concluindo, podemos afirmar que este símbolo da sabedoria mulher tem sua raiz na vida e organização da casa, em Judá, com seus costumes religiosos e rituais que buscavam garantir a sobrevivência familiar. Estes ritos eram comuns, sobretudo no campo, onde havia momentos de celebração para pedir a chuva e a fertilidade dos campos e rebanhos. Através dos rituais, ainda que inconscientemente, as famílias de Judá mantinham viva a memória dos antigos cultos às Deusas.