1 Innledning
3.1 E rfaringer m ed og betydningen av utenlandsk doktorgrad
Retomando a concepção de discurso formulada por Foucault em A arqueologia do saber, vimos que este é constituído por um “[...] número limitado de enunciados” (FOUCAULT, 2012, p. 143) e que sua descrição não ocorre como uma totalidade fechada que encontra a mesma significação, mas como uma figura incompleta e dividida.
Sendo assim, ao me ater à estratégia arqueológica do discurso para investigar o discurso sobre o nexo pedagógico entre cinema e educação não o faço na perspectiva de analisar e descrever a totalidade de enunciados encontrados nessa ordem discursiva, mas, sim, no intuito de fazer aparecer o conjunto de relações enunciativas e suas regras de funcionamento.
Com isso, na análise dos enunciados não constitui objeto de minha preocupação explicitar intenções ou pensamentos de determinados sujeitos, assim como não me compete descobrir um fundamento ou revelar uma interpretação. Não se trata de buscar na opacidade oportuna a descoberta de elementos discursivos que não aparecem claramente
na ordem do discurso investigado. A descrição que empreendo busca conhecer a raridade, a exterioridade e o acúmulo em que cada enunciado faz aparecer na formação discursiva.
Diferentemente das análises interpretativas que se preocupam em encontrar no discurso um sentido, um valor de verdade que o valide e o legitime socialmente, busco encontrar na formação discursiva esta “lei da raridade”17 que institui nos enunciados suas
regras de aparecimento, suas condições de apropriação e de sua utilização.
Devo lembrar, contudo, que embora não me preocupe em compreender os significados que determinados autores atribuem às coisas – no sentido hermenêutico, psicológico ou semiológico do termo –, debruçar-me-ei em seus escritos, tomando-os como uma espécie de “terrenos arqueológicos”, na intenção de escavar para, desse modo, analisar e descrever a ordem discursiva investigada. Assim, ainda que possa identificar possíveis relações entre o autor e o conteúdo de sua formulação, não me interessa saber o que autor “A” ou “B” quis dizer quando formulou determinada proposição, mas, sim, a posição ocupada por este ou aquele, numa determinada ordem discursiva.
Foi exatamente esse o modo de proceder, metodologicamente, assinalado por Foucault, ao dizer que:
Se uma proposição, uma frase, um conjunto de signos podem ser considerados ‘enunciados’, não é porque houve, um dia, alguém para proferi-los ou para depositar, em algum lugar, seu traço provisório; mas sim na medida em que se pode assinalar a posição de sujeito (FOUCAULT, 2012, p. 116).
Nessa direção, a intenção primeira que explicitei neste trabalho foi a de conhecer as práticas discursivas nas quais estes e outros autores ocupam determinada função. Para isto, analisarei em que medida tais práticas discursivas fazem parte do discurso sobre o nexo pedagógico entre o cinema e a educação no Brasil.
Não é demais lembrar que a concepção adotada neste escrito sobre prática discursiva é a mesma anunciada por Foucault em A arqueologia do saber, quando diz:
17 Expressão utilizada por Foucault para designar o princípio sobre o qual os enunciados repousam em determinada ordem discursiva. Este princípio atende ao pré-requisito de que “nem tudo é sempre dito, em relação ao que poderia ser enunciado em língua natural, em relação à combinatória ilimitada dos elementos linguísticos, os enunciados (por numerosos que sejam) estão sempre em déficit [...]. [Assim], estudam-se os enunciados no limite que os separa do que não está dito, na instância que os faz surgirem a exclusão de todos os outros” (FOUCAULT, 2012, p. 146).
Não podemos confundi-la com a operação expressiva pela qual um indivíduo formula uma ideia, um desejo, uma imagem; nem com a atividade racional que pode ser acionada em um sistema de inferência; nem com a competência de um sujeito falante, quando constrói frases gramaticais; é um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa (FOUCAULT, 2012, p. 143-144).
Isso pode esclarecer porque não intenciono fazer revisão da literatura sobre o discurso que articula cinema e educação numa perspectiva pedagógica, identificando na bibliografia produzida sobre o assunto, o contexto e o conteúdo da pronunciação ali engendrada. Pelo contrário, ao percorrer a rede enunciativa busco descrever os enunciados, não na perspectiva de isolá-los e, com isso, torná-los visivelmente conhecidos, mas objetivando destacar as condições que lhes possibilitaram ocupar determinada posição na série de signos.
Assim, não me interessa apresentar os inúmeros fatos que marcaram, historicamente, a presença de estudos e acontecimentos empíricos relacionados ao entrelaçamento entre cinema e educação numa perspectiva pedagógica, como se isso permitisse explicitar um discurso adormecido. Não pretendo encontrar o ponto central que liga uma pronunciação sígnica individual a certo momento histórico social. Não busco reencontrar o que foi pensado e objetivado por determinados autores no momento exato em que proferiram e explicitaram em seus escritos um dado discurso. Não procuro a originalidade de uma formulação verbal sob a pretensão de que a partir dela tudo se pode derivar e deduzir.
A análise arqueológica se distancia totalmente da periodização cronológica que demarca o momento exato a partir do qual determinados sujeitos foram comprometidos em produzir um dado discurso. Com isso, não seria o caso de tentar encontrar na dispersão dos elementos enunciativos a identificação de um discurso, que através da escrita de um vocabulário variado os sujeitos demonstrassem pensar da mesma forma.
A Arqueologia não procura encontrar “[...] a gênese psicológica a partir de uma descoberta que, pouco a pouco, desenvolveria suas consequências e ampliaria suas possibilidades” (FOUCALT, 2012, p. 180). Ao contrário disso, compromete-se com a descrição em um nível denominado por Foucault de “homogeneidade enunciativa” (FOUCAULT, 2012, p. 181), em que seu próprio recorte temporal estabelece:
[...] [um] ordenamento, hierarquias e todo um florescimento que excluem uma sincronia maciça, amorfa, apresentada global e definitivamente. Nas tão confusas unidades chamadas ‘épocas’, elas faz surgirem, com sua especificidade, ‘períodos enunciativos’ que se articulam no tempo dos conceitos, nas fases teóricas, no estágios de formalização e nas etapas de evolução linguística, mas sem se confundir com eles (FOUCAULT, 2012, p. 181-182).
Com isso, nada é mais falso que afirmar o comprometimento da Arqueologia com a definição de um projeto discursivo que se refaz a partir de uma descoberta enigmática ou mediante a formulação de um princípio geral enunciativo a partir do qual se poderia reconstituir um dado discurso. A arqueologia está situada em outro nível que não advém nem da originalidade de uma descoberta nem da sistematização de um período histórico.
A Arqueologia não situa sua análise na descrição das relações causais, assinaladas em um nível situacional, a partir da qual determinado sujeito falante pode, de algum modo, pôr em circulação um conjunto de enunciados, dando origem a um dado discurso. Razão pela qual não constitui objeto de minha preocupação mostrar como a prática concreta com o uso de filmes no contexto das escolas brasileiras determinou o sentido e a forma materializada do discurso sobre o nexo pedagógico entre cinema e educação, mas, sim, explicitar como e por que tal prática faz parte das condições de funcionamento deste discurso.
Nessa perspectiva não me interessa analisar práticas concretas em que o cinema seja empregado, pedagogicamente, como um recurso mediador de conhecimentos, assim como não constitui objeto da minha investigação analisar o discurso cinematográfico e/ou educacional em si mesmo, nem, tampouco, analisar obras fílmicas, em sua dimensão estética ou até mesmo pedagógica.
Interessa-me, entretanto, analisar o discurso sobre o nexo pedagógico entre o cinema e a educação no Brasil, lembrando-me de que a conservação ou não do conjunto de enunciados pertencentes a uma mesma formação discursiva ocorreu não em virtude de sempre que possível trazer à memória os acontecimentos do passado, mas devido a um conjunto de suportes e de técnicas materiais que se encontravam em determinadas instituições e que foram apresentadas segundo uma modalidade estatutária determinada na ordem discursiva da qual fez parte.