Fase 4 - Sammenstilling av erfaring
4.6 E NDRING I RAMMEBETINGELSENE
Nesse momento não tenho como objetivo traçar uma linha histórica da origem do ensino coletivo de música ou ensino coletivo de instrumentos musicais, mesmo porque práticas musicais coletivas e processos educativos decorrentes de tais práticas, ou seja, o ensino e aprendizagem de música em meio à coletividade, sempre ocorreram. Legitimar a origem do ensino coletivo de música ou de instrumentos musicais, no sentido amplo do termo, como proveniente de determinado local geográfico, seria tornar
ilegítimas outras práticas sociais musicais coletivas como práticas educativas. Existem pesquisas que apontam origens para o ensino coletivo de instrumentos musicais, porém tais pesquisas dizem respeito à sistematização de um modelo específico de ensino. No entanto, como dito, o aprendizado musical em coletividade sempre ocorreu, e para além disso, não podemos afirmar que outras sistematizações de aprendizagem musical ou de instrumentos em coletividade não ocorreram anteriormente em outros modelos e locais.
Nesse sentido, pretende-se apenas explicitar qual nosso entendimento do conceito de ensino coletivo de música.
Em primeiro lugar gostaria de expor minha opção pelo termo “ensino coletivo de música” e não “ensino coletivo de instrumentos musicais”. A escolha por este termo tem dois principais motivos, primeiro na crença das várias contribuições de tal ensino para uma prática educativa humanizadora, contribuições que não estão presentes apenas no ensino coletivo de um ou mais instrumentos específicos, mas que se estendem ao ensino coletivo da música em qualquer meio, seja na educação básica, onde não necessariamente se ensina um instrumento, seja em projetos com o ensino de instrumentos ou o ensino do canto, seja no aprendizado coletivo em orquestras ou grupos comunitários, dentre outros. Em segundo lugar, a escolha da expressão ensino “de música” e não “de instrumentos musicais”, tem a ver com o entendimento, como explicitei anteriormente, de que o ensino da música tem uma amplitude muito maior do que o ensino de um instrumento, tendo em vista um ensino que possibilite a relação entre sujeito e obra de arte.
Por outro lado, a escolha do termo “coletivo” foi feita tendo em vista que este é o termo normalmente utilizado na literatura, além do termo “grupo”. Porém, também é importante que se explicite o que entendo neste trabalho por “coletivo”.
Durante um seminário onde tive a oportunidade de apresentar as primícias deste trabalho, fui indagado por uma das professoras presentes, Profª. Drª Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, justamente sobre minha compreensão do termo “coletivo”. Dizia ela que “coletivo” podia se referir inclusive ao transporte público, onde pessoas se encontram em mesmo espaço e tempo, porém individualizadas. Tal comentário foi tão certeiro que descrevia algumas práticas musicais de ensino coletivo que eu já havia presenciado. Práticas onde pessoas estão reunidas em mesmo espaço e tempo, assim
como em um transporte público, com o mesmo destino, no caso o aprendizado da música, porém individualizadas.
Algumas práticas de ensino coletivo poderiam ser classificadas como aulas individuais simultâneas, onde a relação de ensino-aprendizagem, que muitas vezes é realizada de forma bancária, se dá unicamente entre professor e aluno A, professor e aluno B, professor e aluno C, e assim por diante, não dando abertura a maiores interações entre alunos e professores, alunos e alunos, professores e alunos, num sentido mais amplo de coletividade. Nesse sentido, como nos apresenta o titulo do trabalho, é importante que o ensino coletivo de música seja um ensino a várias mãos, tendo em vista que em meio à coletividade as pessoas se educam, se relacionando, trocando, construindo coletivamente os mais variados conhecimentos, estabelecendo assim uma verdadeira comunidade.
Falando sobre comunidades, e para um maior aprofundamento do uso que faço do termo “ensino coletivo”, gostaria de trazer esse outro conceito utilizado no campo da educação, que embasa e está em consonância com o termo “ensino coletivo” aqui utilizado. Sendo assim, compreendo nesse estudo o ensino coletivo de música como um ensino em comunidade. Brandão nos fala sobre as comunidades aprendentes, segundo ele:
Toda a equipe de trabalho de vocação pedagógica, mesmo quando composta pelo eixo professor-alunos, constitui-se como uma comunidade aprendente em que, mutuamente, todas e todos os participantes possuem algo a ensinar e algo a aprender, e em que todo o conhecimento trazido “de fora” dialoga e se integra nesse saber-partilha de senso comum. (BRANDÃO, 2003, p.113)
O autor continua dizendo que:
Todo grupo humano que se reúne em algum tempo e lugar com o propósito de estabelecer uma interação fundada na troca de símbolos, de sentimentos, de sentidos e de significados dirigidos a uma busca solidária de algum tipo de saber, através da qual todos se ensinam e aprendem mutuamente, constitui uma comunidade aprendente. A sala de aula de uma escola pode ser um de seus exemplos. (BRANDÃO, 2003, p.113)
Para Brandão (2005), “ao lado da sala de aulas e da turma de alunos, vivemos situações pedagógicas em diferentes unidades de partilha da vida.” (p.87).
Pares, grupos, equipes, instituições sociais de associação e partilha da vida. Lugares onde ao lado do que se faz como o motivo principal do grupo (jogar futebol, reunir-se para viver uma experiência religiosa, trabalhar em prol da melhoria da qualidade de vida no bairro, e assim por diante) as pessoas estão
também inter-trocando saberes entre elas. Estão se ensinando e aprendendo. (BRANDÃO, 2005, p. 87)
Segundo o autor, “dentro e fora da escola estamos sempre envolvidos com diferentes tipos de comunidades aprendentes”(p.88), onde todos envolvidos são “fontes originais de saber”, trazendo seus conhecimentos, sensibilidades e sentidos de vida.
E o trabalho é mais fecundo quando em uma comunidade aprendente, todos têm algo a ouvir e algo a dizer. Algo a aprender e algo a ensinar. Lugares de trocas e de reciprocidades de saberes, mas também de vida e de afetos, onde a
aula expositiva pode ser cada vez mais convertida no círculo de diálogos”.
(BRANDÃO, 2005, p.90)
É nesse sentido que entendemos o ensino coletivo de música, que sendo coletivo é dialógico, comunitário, lugar de trocas e partilhas com o outro, com aquele com quem se dialoga, ensina, aprende e toca.
A menor unidade do aprender não é cada pessoa, cada aluno, cada estudante tomado em sua individualidade. Ela é o grupo que se reúne frente à tarefa partilhada de criar solidariamente seus saberes. É a pequena comunidade
aprendente, através da qual cada participante ativo vive o seu aprendizado
pessoal. (BRANDÃO, 2005, p. 90)
Assim como a menor unidade do aprender é o grupo e suas individualidades que o formam, também no ensino coletivo de música o grupo é a menor unidade, seja no diálogo verbalmente construído e partilhado ou no tocar coletivo, no diálogo musical, onde cada integrante ao pronunciar seu instrumento ou voz e ao participar em coletividade, tocando ou cantando, é um indivíduo que traz suas particularidades tão importantes para essa menor unidade de execução musical, o grupo. Nessa perspectiva, ao falarmos em ensino coletivo de música poderíamos falar em comunidades aprendentes, comunidades de produção musical, em ensino de música em comunidade e outros termos mais. Falamos de um ensino em que todos possuem participação ativa, aprendem, ensinam, num coletivo dependente e não individualizado. A proposta em se realizar uma pesquisa que procure práticas musicais coletivas, comunidades aprendentes, estabelecidas entre alunos de música, tem como objetivo justamente identificar os processos educativos estabelecidos entre eles, juntamente com eles, nessa atitude dialógica inerente às comunidades, para que se possa pensar um ensino em comunidade, em comunhão, em coletividade.
3. metodologia
Nesse capítulo apresento o percurso metodológico utilizado para a realização deste trabalho. Primeiramente, descrevo em linhas gerais o Projeto Guri enquanto instituição de ação sociocultural no estado de São Paulo, apontando o fomento
financeiro, missão, visão, objetivos e dimensões do Projeto. Em sequência, descrevo especificamente o polo do Projeto Guri da cidade de Batatais – SP onde a pesquisa foi realizada, o campo de pesquisa. Por fim, relato as etapas da pesquisa, seus participantes, buscando esclarecer passo a passo o processo de pesquisa.