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4. RESULTS AND DISCUSSION

4.1 E FFECTS ON GROWTH AND MATURATION

REI DA VELA’: LEITURAS E RELEITURAS DE OSWALD DE

ANDRADE

2.1 – ‘O REI DA VELA’: enredo e diálogos

Oswald deixou, sem dúvida alguma, a marca de suas insatisfações com o governo pela de sua obra e não só por meio de suas atitudes pessoais. De acordo com Roland Barthes, o autor nada mais é que um instrumento de uma obra. Mas quem é o autor no texto teatral? É aquele que emprestou à obra sua intuição, sua experiência de vida, as observações que nela imprimiram sua visão de mundo. Assim como enfatizou Barthes, um texto é escrito de múltiplas saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em constatação, mas há um lugar em que essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor como se tem dito, é o leitor. O leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita, a unidade de um texto não está na sua origem, mas no seu destino, mas este destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia, é apenas esse alguém que tem reunido, num mesmo campo, todos os traços que constituem o escrito, ou seja, o texto. (Barthes, 1974, p.53).

Os intérpretes são mediadores entre o texto teatral e o espectador, a mediação realizada por um grupo de intérpretes é, assim, recriação da obra teatral. Criam sobre o que já foi criado. Isso quer dizer que, se a liberdade de criação do encenador e do grupo é infinita por um lado, por outro ela está delimitada pelo próprio texto. É ele, o texto teatral, que nos proporciona a possibilidade de inúmeras leituras. No romance, o ponto de referência de cada leitor será sempre o próprio romance. Já no teatro, no texto teatral, aquelas idéias poderão ser profundamente afetadas pela interpretação s~emica que se faça delas. Isto porque o texto teatral necessita sempre de mediadores entre o mero leitor e o espectador.

No texto teatral, a leitura representa apenas um início de um processo que da irá desencadear e só se fechará com a encenação do espetáculo, ou seja, não é apenas da morte

do autor e do nascimento do leitor que depende a peça teatral, mas é imprescindível o papel de uma terceira figura: o mediador. Este conduz o ouvinte ao prazer do texto, compartilha e comunica a emoção e o gosto de ler, ele é responsável por uma atividade formativa. Um único mediador pode descobrir varias possibilidades, justamente pelo fato de o texto teatral ser polissêmico, podendo ser objeto de várias leituras, já que o texto teatral é lacunoso.

No mesmo sentido, Roger Chartier, em sua obra “Do Palco à Página”, aborda uma das grandes questões que envolvem o teatro em nossos dias: a relação existente entre a escrita e a oralidade e as suas formas de transmissão. Chartier faz uma análise das transformações sofridas pelo texto e pela cena ao longo dos tempos. Nesse amplo estudo, ele trata da necessidade, da importância e do valor do texto para a arte teatral e vice-versa. Percebemos que, por um longo período, o teatro viveu sobre os ditames do texto. Enquanto a encenação era posta em segundo plano, a escrita era exaltada e valorizada. Tal relação foi fortemente questionada por estudiosos e pesquisadores durante o século XX. Atualmente, o texto teatral verbalizado não é o elemento mais importante do teatro, mas representa uma das partes do conjunto que compõe a encenação.

Chartier discute o trabalho teatral de Molière, cuja dramaturgia ainda era voltada para as apresentações teatrais populares, e cujas primeiras peças editadas apresentavam forte ligação com a oralidade, como acrescenta Chartier:

(...) por permitir que o texto impresso fosse recitado ou lido em voz alta, ou por dar aos leitores que o liam silenciosamente a possibilidade de reconstruir para eles mesmos o ritmo e as pausas da performance dos atores. (Chartier, 2002, p.32)

Na verdade, nada impede que a obra dramática seja utilizada como um elemento para a encenação de qualquer profissional, mas isto não denota que não se possa “enxergar” a cena a partir do próprio texto dramático, não somente na leitura de sua história, mas também por muitos outros acessórios externos à trama que o compõe.

João das Neves (1987) observa que o romance e o conto estão completos, acabados, quando se oferecem à leitura. No texto teatral, ao contrário, a leitura é apenas o início de um processo que ela irá desencadear o seu ciclo só fechara com a encenação de espetáculo.

Na obra dramática, as idéias ali presentes podem ser profundamente afetadas pela interpretação que se faça delas. Isto porque o texto teatral precisa sempre de mediadores entre o mero leitor e espectador. (Neves, 1987, p.8)

Para melhor compreensão dos diversos níveis de articulações do texto teatral, ressaltaremos os elementos teatrais e suas funções na estrutura. Cenário é o ambiente onde se desenrola a ação dramática em seu senso mais abrangente acrescido da ação anterior. Nele, como sistema semiótico, determina-se o espaço e o tempo da ação teatral. As diversas

informações sobre esse cenário serão encontradas ao longo do diálogo, algumas vezes, nas rubricas. (Neves, p.58)

Vale salientar que o objeto do presente trabalho não se pauta no estudo da cena, mas na análise histórico-literário da peça O rei da vela. Nesta, os diálogos vão acrescentando elementos para o entendimento do público, mas as rubricas são ricas em informar o cenário, por exemplo, a primeira rubrica do primeiro ato da peça:

Em São Paulo. Escritório de usura de Abelardo & Abelardo. Um retrato da Gioconda. Caixas amontoadas. Um divã futurista. Uma secretária Luís XV. Um castiçal de latão. Um telefone. Sinal de alarma. Um mostruário de velas de todos os tamanhos e de todas as cores. Porta enorme de ferro à direita correndo sobre rodas horizontalmente e deixando ver no interior as grades de uma jaula. O prontuário, peças de gavetas, com os seguintes rótulos: MALANDROS – IMPONTUAIS - PRONTOS- PROTESTADOS. Na outra divisão: PENHORAS - LIQUIDAÇÕES – SUÍCIDIOS - TANGAS. (p.01)

O diálogo teatral é a conversação entre personagens; perguntas e respostas; ação e reação. O Teatro propriamente dito só nasceu ao se estabelecer o diálogo.

Abelardo I: Traga o dossier desse homem.