Com o intuito de perceber se emergem processos de natureza distinta em relação ao empreendedorismo feminino em Portugal no que toca às motivações, por sector de actividade, uns mais assentes em procura activa de realização e autonomia, porventura mais ancoradas em lógicas de oportunidade, e outros mais marcados por posicionamentos de carácter defensivo e baseados na “necessidade”, uma motivação em geral forte dos pequenos empresários, procedeu-se inicialmente a uma análise da situação profissional anterior à criação da actividade por conta própria.
Como se pode observar na tabela 5, a maioria das mulheres imigrantes antes de estabelecerem o seu negócio estava empregada a tempo integral, sendo esta proporção bastante mais elevada no caso das empreendedoras no ramo da beleza (59,3%) do que nas empresárias dos restantes ramos de actividade (43,3%). Daqui podemos depreender que as mulheres que actualmente empreendem no ramo da beleza pareciam estar, anteriormente, numa situação profissional mais protegida ou estável. Esta análise vê-se reforçada quando verificamos que os casos de inactividade, por via do desemprego ou outra41, são menores no caso da beleza (21,1%) do que nas imigrantes que operaram noutros ramos (25,3%).
Tabela 5: Situação profissional anterior à criação da actividade empreendedora, por ramo do
negócio
Beleza Outros sectores
N % N %
Desempregado 18 14,6 34 16,2 Empresário em nome individual 4 3,3 14 6,7 Por conta de outrem - integral 73 59,3 91 43,3 Por conta de outrem - parcial 14 11,4 30 14,3
Doméstico 8 6,5 18 8,6
Estudante 3 2,4 15 7,1
Profissional liberal 3 2,4 5 2,4 Empresário noutra sociedade 0 0 2 1
Reformado 0 0 1 0,5
Total 123 100 210 100
Fonte: Inquérito Mulheres Imigrantes Empreendedoras (CIG, 2010). Nota: Sem significância estatística.
Quanto às motivações que estão na base da abertura da actividade por conta própria (tabela 6), podemos observar que no caso da beleza as principais razões apontadas são, por ordem de importância, ser independente (61,3%), necessidade de realização (42,7%) e ter experiência no sector (37,1%). Disso é exemplo o caso de J.,
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brasileira, proprietária de salão com 6 trabalhadores: “Abri o salão porque gosto, acho que a beleza é a profissão do futuro. Nem foi ao nível financeiro, foi para fazer uma coisa que eu gostava (…)”.
No caso das empreendedoras que operam nos restantes ramos de actividade o ser independente surge igualmente em primeiro lugar mas com muito menor importância (49%), seguindo-se-lhe a necessidade de realização (43,3%) e o aumento de rendimentos (42,4%).
Não obstante a importância de aumentar os rendimentos e gerar lucro continuar a ser apontada pela teoria económica clássica como um ponto fulcral de base para o empreendedorismo, pelo que podemos verificar, neste caso, a vontade de ser o seu próprio “patrão” e ter uma vida profissional realizada são razões ainda mais fortes para abrir um negócio do que o aumento dos rendimentos.
Numa análise comparativa segundo o sector, as maiores diferenças – para além do “ser independente” - emergem na referência “ter capital para investir”, em que há quase o dobro de empreendedoras a referi-lo no sector da beleza do que nos restantes ramos de actividade, e na motivação “não conseguir obter emprego”, muito mais relevante entre as empresárias dos ramos de actividade.
Assim, numa primeira análise exploratória, os dados parecem indicar uma situação baseada na atracção para o empreendedorismo no grupo das mulheres que operam no sector da beleza. No grupo de empreendedoras com negócios noutros ramos de actividade que não a beleza, muito embora os factores de oportunidade predominem nas motivações para empreender, destacam-se, ainda, os mais de dez por cento que apontam para motivos de exclusão/necessidade.
Tabela 6: Motivações para montar o negócio, por ramo de actividade
Beleza Outros sectores
N % N %
Influência/sugestão familiar 15 12,1 39 18,6
Ser independente 76 61,3 103 49 Ter capital disponível para investir 15 12,1 15 7,1 Ter experiência no sector 46 37,1 71 33,8 Necessidade de realização 53 42,7 91 43,3 Aumentar os rendimentos 44 35,5 89 42,4
Não conseguir obter emprego 8 6,5 26 12,4
Insatisfação com o trabalho 19 15,3 27 12,9
Fonte: Inquérito Mulheres Imigrantes Empreendedoras (CIG, 2010).
Nota: À excepção da variável ser independente (χ2 (1) = 4,698, p=0,03), todas as outras não têm significância estatística.
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Centrando-nos somente no sector da beleza, importa estudar como se relacionam as diferentes motivações. Que tipo de perfis aparecem associados? Será que as mulheres que apontam necessidade de realização referem igualmente o desejo de ser independente? Ou será que as mulheres que afirmaram estar numa situação de desemprego referem com mais preponderância a necessidade de aumentar os rendimentos?
Ao analisar o mapa de topologia das configurações das motivações das empreendedoras fica clara a existência de uma configuração de motivações para o empreendedorismo que não revela perfis perfeitamente distintos (figura 4). Apenas se destacam os dois grandes perfis de motivações hipoteticamente considerados: um que revela mais pró-actividade (ser independente e pretender realização pessoal) e outro dominado pela necessidade de sobrevivência (desemprego e sugestão familiar).
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Associado ao primeiro, encontramos ainda factores de índole profissional: empreender por motivos de insatisfação com o trabalho, sem outras razões associadas.
Relativamente ao perfil que sugere a existência de uma situação de necessidade e de vulnerabilidade (mulheres que afirmam ter aberto o negócio por conta própria por estarem desempregadas, aos quais se associa o papel da influência e sugestão familiar), considere-se o depoimento de L., ucraniana:
“O meu negócio começou assim de repente. Eu estava a trabalhar na outra loja e minha patroa disse ou trabalhava por recibo verde ou ficas despedida, quando o contrato acabou. Eu passei para recibo verde mas mesmo assim ela não aguentou e disse que não quer que eu trabalhe com ela mais. E foi aí que eu comecei a procurar outro lado. O trabalho que andei a procurar (nesta área), toda a gente queria que eu tinha meu material e trabalhar com recibo verde. Assim, eu comprei para mim material todo e comecei a trabalhar sozinha com o meu próprio negócio”.
L., proprietária de gabinete de manicure e pedicure.
Por contraste, associado ao perfil mais pró-activo (que aglomera a maioria das empreendedoras e que associa as mulheres que afirmam empreender por necessidade de realização, aumento de rendimentos e desejo de independência), encontramos as inquiridas que têm capital disponível para investir e experiência profissional no ramo de actividade.
Em suma, parecem emergir processos de natureza distinta em relação ao empreendedorismo migrante feminino no sector da beleza, uns mais assentes em lógicas de oportunidade e outros, em menor caso, mais marcados por posicionamentos de carácter defensivo baseados na necessidade.
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