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Com o objetivo de entender melhor o processo de organização e reforma das universidades na América Latina, destaca-se um movimento identificado na história das universidades como Revolta de Córdoba, de 21 de junho de 1918, na Argentina.

[...] Pensar e construir uma universidade a partir da América Latina era um dos desafios que o movimento estudantil de Córdoba, na Argentina, defendeu em seu Manifesto de 21 de junho de 1918. A história das instituições europeias que fincaram raízes em solo americano, ainda durante o período colonial, é marcada por polêmicas relacionadas à existência de especificidades em tais instituições, em um lugar diferente de suas origens. A chamada Reforma de Córdoba é considerada um marco na história das universidades latino-americanas por ser pioneira na construção de um modelo institucional que atribuiu uma identidade e um modelo de atuação renovado no ensino superior. (FREITAS NETO, 2011, p 64).

Nesse sentido, diferente da realidade brasileira, em outros países da América Latina, como foi o caso do México e do Peru, as universidades nasceram e se consolidaram no século XVI. Isso significa que:

[...] Um longo processo se passou desde as universidades coloniais até a Reforma de Córdoba, no início do século XX, que é o objeto de nossa análise. A concepção de universidade, o papel da educação e da instrução, as transformações científicas e a mudança das próprias sociedades servem como indícios para se pensar as estreitas vinculações entre a formação de uma elite intelectual e os processos políticos de cada país. (FREITAS NETO, 2011, p. 64).

Entretanto, quais eram as reivindicações de Córdoba, em que aspectos se pautavam e quais as suas principais áreas de abrangência? Essa é uma pergunta fundamental para a compreensão desse movimento.

[...] Questões pontuais como o protesto dos estudantes de Medicina contra o fechamento do internato expunham aspectos imediatos que desencadearam os atos contra a administração universitária, que alegava falta de recursos e questões “morais”. Na Faculdade de Engenharia, por ordem dos catedráticos, aumentaram as exigências para que os alunos pudessem assistir às aulas, restringindo a presença de jovens de classe média. A proposta de mudança no sistema de cátedras reuniu os estudantes das três faculdades existentes: Medicina, Engenharia e Direito. Sem serem atendidos, iniciaram uma greve geral no dia 31 de março e lançaram um manifesto à juventude argentina. (FREITAS NETO, 2011, p. 66).

O autor complementa, afirmando a importância e a abrangência desse movimento para a história da universidade latino-americana que é extremamente significativa, pois:

[...] Em 21 de junho de 1918, os estudantes aprovam o importante Manifesto Liminar ou La juventud argentina de Córdoba a los hombres libres de Sudamérica. Redigido por Deodoro Roca, o documento foi assinado por Enrique Barros, Horácio Valdés, Ismael Bordabehere, alguns dos dirigentes da Federação Universitária de Córdoba (FUC), que havia sido fundada no

dia 18 de maio. O documento é considerado pelos pesquisadores da história das universidades latino-americanas a principal carta de princípios apresentada até então. (FREITAS NETO, 2011, p. 67).

Segundo Freitas Neto (2011), o Manifesto reivindicava pelo menos três aspectos centrais, identificados, como: o diagnóstico da crise vivida pela Universidade de Córdoba; a afirmação do poder de renovação da juventude e suas propostas políticas; e as reivindicações reformistas propriamente ditas. Este pautou-se na “crítica à universidade e à docência”, nas “questões políticas e no papel histórico dos estudantes”, nas “demandas estudantis”, na “continuidade do movimento reformista (coparticipação dos estudantes na estrutura administrativa; participação livre nas aulas; periodicidade definida e professorado livre das cátedras; caráter público das sessões e instâncias administrativas; extensão da Universidade para além dos seus limites e difusão da cultura universitária; assistência social aos estudantes; autonomia universitária; Universidade aberta ao povo)”.

Segundo o Manifesto de Córdoba de 21 de junho de 1918,

[...] La juventud universitaria de Córdoba afirma que jamás hizo cuestión de nombres ni de empleos. Se levantó contra un régimen administrativo, contra un método docente, contra un concepto de autoridad. Las funciones públicas se ejercitaban en beneficio de determinadas camarillas. No se reformaban ni planes ni reglamentos por temor de que alguien en los cambios pudiera perder su empleo. La consigna de “hoy por tí mañana por mí” corría de boca en boca y asumía la preminencia de estatuto universitario. Los métodos docentes estaban viciados de un estrecho dogmatismo, contribuyendo a mantener a la Universidad apartada de la ciencia y de las disciplinas modernas. Las lecciones encerradas en la repetición interminable de viejos textos, amparaban el espíritu de rutina y de sumisión. Los cuerpos universitarios, celosos guardianes de los dogmas, trataban de mantener en clausura a la juventud, creyendo que la conspiración del silencio puede ser ejercitada en contra de la Ciencia. (MANIFESTO DE CÓRDOBA, 1918)15.

Não se constitui escopo desta reflexão comparar as universidades brasileiras com as demais universidades da América Latina, algumas inclusive, muito mais antigas que as brasileiras e que “viveram”, portanto, processo de transformações históricas que o Brasil não incorporou às suas instituições universitárias. Pode-se citar, como exemplo, o processo histórico de amadurecimento institucional que levou a Revolta de Córdoba, que se constituiu em uma particularidade que não atingiu as universidades brasileiras diretamente. Entretanto, trata-se de referências que foram absorvidas no Brasil e que, dentro da especificidade das instituições nacionais, influenciaram a forma de pensar a universidade brasileira. Como cita, por exemplo, Sguissardi (2006), ao tratar dos debates entre aqueles que defendiam umas poucas universidades de pesquisa (humboldtiana) e muitas universidades de ensino:

15 Disponível em:< www.une.org.br/.../reforma-universitaria-95-anos-do-manifesto-de-cord..>. Acesso em: 22 abr. 2015.

[...] Esses embates seriam retomados durante o processo constituinte que conduziria à Constituição Federal de 1988. Como os modelos universitários tendem a ter vínculos estreitos com modelos de desenvolvimento e de concepção da vida democrática e republicana, prevaleceram os princípios de uma universidade, como dever do Estado, que privilegiasse a produção do conhecimento de forma integrada ao ensino, à formação de profissionais competentes e críticos da realidade, respeitada a autonomia e a liberdade do pensamento, concorde com o espírito dessa Constituição, chamada de cidadã. Deu-se um passo importante para consagrar o princípio da indissociabilidade pesquisa–ensino, acrescido, agora, de um terceiro elemento que, desde a Reforma de Córdoba (1919), teimava em ser posto em segundo plano no Brasil. (SGUISSARDI, 2006, p. 82).

A crítica que subjaz à Revolta de Córdoba refere-se ao fato da universidade encontrar- se apartada não apenas da ciência e das atividades produtivas, mas da vida social e política da sociedade. A Universidade precisa estar cada vez mais sintonizada aos movimentos sociais, culturais e políticos da sociedade, a fim de poder integrar-se de forma mais efetiva.