Primeira parte: Sentada sobre a Caixa Mágica, Miranda lê silenciosamente A Tempestade enquanto um som de vento circula a cena. Após o súbito romper de um raio, a tempestade no som e na luz invade a cena e Miranda devém cada uma das personagens do naufrágio que dá início à peça de Shakespeare trazendo à cena um rei, nobres e tripulantes que naufragam em uma tempestade em alto-mar.
Subitamente a luz se aquieta ficando um tom de verde água e o som dos trovões torna-se o som de pequenas ondas calmas a beira de uma praia. Miranda retira de livros mágicos uma pequena ilha, um pequeno mar, onde coloca um pequeno navio naufragado e seus náufragos. O pequeno naufrágio permanece em cena como um lugar de devir durante toda a apresentação trazendo a idéia de um universo dentro de outro e aludindo o caráter ‘mágico’ do mesmo.
Ao construir o naufrágio em miniatura (Ver Figura 15 p.123), Miranda evoca a presença de Próspero, suplicando que ele interceda pelos náufragos. Próspero se materializa acusticamente: sua voz rodeia a cena de forma lenta e contínua e em diversas alturas com relação ao chão, informando a Miranda do caráter sobrenatural do naufrágio que ele mesmo provocara, incitando também a indagação sobre seu próprio passado. Miranda é convidada por Próspero a adormecer. Então, ela tira da Caixa Mágica uma Múmia, cuja máscara e a cor das ataduras são respectivamente idênticas ao rosto e a cor do figurino dela. Adornando-a com um travesseiro e um lenço, Miranda prepara a Múmia para o sono, quando é convocada a brincar pela voz de Ariel, o espírito do ar, que canta:
Unto these yellow sands and there take hands. Curtsied when you have and kiss d
Foot it featly here and there, and let the rest the burden bear. Hark! Hark!
The watch-dogs bark! Hark! Hark!
I hear the strain of chanticleer.
(Figura 15) Segunda parte: Abre-se então o espaço para um outro sonho. O Marinheiro, de Fernando Pessoa é trazido nesta abordagem por três Mulheres que surgem projetadas em um dos painéis do cenário, como em um sonho, todas com a aparência idêntica à de Miranda.
Elas dialogam rememorando os seus respectivos passados e compartilhando um sonho que as faz perceber a existência humana com certo terror trágico. Estáticas, se preocupam com o que fazer nesse momento, e acabam sempre por falar de seus passados, quando o cotidiano delas era bem diferente do de agora. Elas questionam a veracidade de suas lembranças, que inclusive se misturam, ressaltando assim a ficcionalidade da memória.
Terceira parte: Miranda surge em cena, consternada ao ver-se multiplicada nas imagens das outras três mulheres que velam o sono Múmia, reflexo também de sua própria aparência. Ela percebe-se sonhando e fora do sonho.
A Segunda Mulher narra o sonho de um marinheiro que, ao se encontrar naufragado, começa a sonhar uma outra vida. Miranda subitamente narra parte do sonho da Segunda Mulher como se fosse ela própria. Quando a Segunda Mulher ameaça parar de narrar o sonho, Miranda recente-se, insistindo com as outras mulheres para que continuem a narrativa porque deseja saber como continua o sonho.
Miranda reaproxima-se da miniatura do naufrágio, montada na primeira parte, no momento em que a Segunda Mulher reinicia a narrativa. Essa narrativa agora passa a ter tom de narrativa mítica, aproximando o Marinheiro de um deus criador. Miranda transforma a miniatura do naufrágio na miniatura da cidade sonhada pelo Marinheiro náufrago do sonho da Segunda Mulher. Então, ela ressuscita os náufragos mortos, constrói ruas tirando da caixa mágica casas e árvores, para alçar ali a pátria sonhada pelo Marinheiro (Ver Figura 16 abaixo).
(Figura 16) A alegria intensa de estar escutando aquela narrativa começa a ser rompida quando a Segunda Mulher diz que o Marinheiro, após ter sonhado uma nova terra natal,
percebe que não pode se lembrar de seu passado verdadeiro e se cansa de sonhar. A narrativa parece terminar quando a Segunda Mulher diz: ‘Veio um dia um barco, passou por esta ilha e o marinheiro não estava lá’ (Anexo II p.78). As outras personagens entram em profunda consternação, inclusive Miranda.
Quarta parte: Inicia-se um momento de reconhecimento. Com o final inesperado do sonho do Marinheiro, as mulheres são acometidas pelo terror diante da inexorável finitude humana, na morte ou mesmo na propriedade de esquecimento contida na própria memória, em contraponto ao seu infinito poder de criação por meio do sonho ou da imaginação. Ao iniciarem indagações sobre a morte, Miranda fica incomodada com a presença da múmia e a destitui de seus adornos de sonhadora, fazendo-a desaparecer dentro da caixa mágica.
(Figura 17) Na seqüência, Miranda retira da caixa mágica uma miniatura desta mesma caixa e a coloca sobre a primeira (Ver Figura 17 acima). Com o mesmo gestual que realizou na primeira parte ao tirar a múmia de dentro caixa mágica, retira também uma miniatura de múmia adornando-a também com um travesseiro e um lenço, estabelecendo-a como a nova sonhadora, que possibilita a continuidade do sonho.
Em seguida, sentada em uma cadeira igual a das mulheres projetadas, usando o mesmo lenço que antes adornava a primeira múmia, assume o lugar da Primeira Mulher, que desenvolve discurso sobre sua perplexidade diante de tudo o que percebeu após a narrativa do sonho da Segunda Mulher. Inicialmente, Miranda fala ao mesmo tempo em que a Primeira Mulher e depois acaba por assumir por completo a voz da mesma, que desaparece se deslocando pelo espaço acústico.
Diante de tanta instabilidade, a Terceira Mulher anuncia o fim de tudo concluindo com a suposta lição aprendida com a Segunda Mulher de que a felicidade é acreditar na realidade do sonho. A Segunda Mulher responde desestabilizando esta certeza quando diz que não acredita no sonho.
Quinta parte: Miranda fica mais uma vez só em cena, acompanhada apenas da miniatura da múmia. Ouve-se a voz de Próspero anunciando também o fim das revelações iniciadas por ele, declarando que o caráter onírico permeia nossos cotidianos. Enquanto soa a voz de Próspero, é projetada na mesma tela de onde desapareceram as mulheres uma imagem de mar, imagem descrita anteriormente pela Segunda Mulher, que diz que no passado ‘fiava sentada a sua janela que dava para o mar de onde, às vezes, havia uma ilha ao longe’ (Anexo II p.71) Nessa imagem de mar também projetada aparece e desaparece uma ilha.
Miranda, na tentativa de ainda resguardar o sonho, leva a (múmia) sonhadora para outro espaço em miniatura, que reflete o cenário e alguns de seus objetos de cena. Neste espaço em miniatura também é projetada a mesma imagem de mar, contudo com certa defasagem de tempo: quando a ilha desaparece na tela maior, ela aparece na casinha. (Ver Figura 18 p.126).
Com a saída de Miranda e o espelhamento dos ambientes cenográficos, inicia-se a copla Tatuagem, que narra uma outra história sobre um outro marinheiro, deixando espaço aberto para o desenvolvimento infinito das narrativas.