Para compreender o processo de estruturação das redes que convergem para a MMCB e as que partem da montadora, faz-se necessário salientar suas abrangências e repercussões espaciais, assim como materializações da lógica produtiva do capital e de intencionalidades. Esse é um processo que deve ser abordado em partes, devido a sua complexidade. Porém, se deve ignorar que essas partes compõem um todo que, em seu processo de totalização, funciona de maneira articulada - circuito espacial da produção e círculo de cooperação - categorias usadas para compreender o complexo de redes diversificadas da MMCB.
Com esse fim, o sistema de organização da produção de uma montadora pode estar dividida, a grosso modo, em três grandes etapas/processos/momentos, autodenominados como: processo a montante; processo de produção e processo a jusante. Portanto, é com base nesses processos que propõe-se compreender as redes e o circuito espacial da produção da MMCB.
O primeiro processo é caracterizado através do relacionamento que a montadora mantém com fornecedores, prestadores de serviços e empresas terceirizadas, relações para o desenvolvimento de produtos, as escolhas de tecnologias a serem usadas nos veículos, as pesquisas de mercados, entre outras. Este é conhecido como processo a montante.
A segunda etapa refere-se à produção, propriamente dita, que ocorre dentro da unidade montadora. Esse pode ser analisado como o local onde acontece processo produtivo, envolvendo aparatos locais entre trabalhadores que, através de sua força de trabalho, fazem a
linha de produção funcionar e executam a montagem dos veículos. Todavia, esta fase é denominada de processo de produção.
O terceiro momento refere-se a ações de demandas posteriori a linha de montagem, podendo ser caracterizado por ações que envolvem as redes de transportes, de concessionárias, o consumidor final, entre outros. Portanto, este é o processo a jusante.
Essas três grandes etapas estão articuladas a partir da lógica capitalista que impera sobre os lugares ligando espaços distantes através de fluxos materiais e imateriais. Portanto, os itens a seguir tentarão mostrar como essas etapas e/ou processos se articulam e se conectam para formar o circuito espacial da produção da referida montadora. O fluxograma 1 mostra o processo de articulação de capitais, mandos e comandos existentes na produção automotiva.
Fluxograma 1 - Principais Processos inerentes ao Sistema de Organização da Produção da MMCB (2010).
Fonte: PESQUISA DE CAMPO (2009a, 2009b, 2009c, 2009d, 2009e, 2009f, 2009g, 2009h, 2009 i, 2009j, 2009l, 2009m, 2009n, 2009o, 2009p).
Através de uma visão holística das relações que a montadora MMCB mantém com diversos segmentos econômicos que lhe subsidiam no quesito técnico e material, é possível avaliar que as conexões e interações que a empresa realiza são complexas. Isto por que envolvem diversas variáveis, empresas de diversos portes e localizações, com diferentes formas de atuação no mercado e pertencentes a vários segmentos da economia. Sendo assim, permite a inserção de Catalão em um espaço de fluxos complexos, reforçando suas dinâmicas econômicas no escopo local, regional, nacional e até internacional.
Santos (2002, p. 269), ao abordar essas questões relacionais no âmbito da Geografia através de um entendimento a partir da concepção de redes no contexto mundial recente, aponta que, “graças aos progressos técnicos e as formas atuais de realização da vida econômica, cada vez mais as redes são globais: redes produtivas, de comércio, de transporte, de informação”.
Considerando a premissa de redes globais, tem-se uma discussão mais abrangente em que outras variáveis permitem a compreensão da complexidade espacial que é apresentada no contexto recente. Essa perpassa pelo entendimento da noção de totalidade e sua relação com o espaço, permitindo, desse modo, conhecer a realidade. Seguindo essa linha de pensamento, Santos (2002, p. 120) diz que:
O todo somente pode ser conhecido através do conhecimento das partes e as partes somente podem ser conhecidas através do conhecimento do todo. Essas duas verdades são, porém, parciais. Para alcançar a verdade total, é necessário reconhecer o movimento conjunto do todo e das partes, através do processo de totalização.
No que concerne ao objeto de pesquisa deste trabalho, pode-se notar que, primeiramente, é necessário conhecer os segmentos (empresas fornecedoras, prestadoras de serviços, terceirizadas, a rede virtual do PeopleSoft) que o compõem para, posteriormente, compreendê-lo em sua totalidade, ou seja, o circuito espacial de produção da MMCB.
Todavia, isso não perfaz em uma tarefa fácil devido às mudanças econômicas, estratégias de mercado, transformações culturais, velocidade dos fluxos materiais e imateriais, governança e à gama de ações possibilitadas pelo desenvolvimento do meio técnico- científico-informacional no contexto atual.
Essa complexidade do fenômeno espacial da MMCB é algo que remete à realidade da sociedade atual por sofrer transformações contínuas devido às mudanças das técnicas, da ciência, da informação e do mercado. Estes fatores chegam aos lugares por via da globalização, possibilitando o surgimento de novas realidades, novas condições de vida, novos jeitos de pensar, enfim, um pensamento único e universal sobre a realidade. (SANTOS, 2003).
Dessa forma, a compreensão da totalidade não é apenas conhecer as partes que a formam através de uma simples junção. É ir além. Cujo desafio perfaz em captar a subjetividade dessas partes e do todo, é assimilar as aparências e essências que o sistema capitalista apresenta de forma nebulosa, é buscar meandros ainda não explorados.
Para isso, é preciso compreender que “[...] a noção de totalidade subentende a noção de tempo porque a realidade é um estado, mas é também uma totalização em marcha. É uma situação, e uma situação em mudança”. (SANTOS, 2008, p. 219).
A noção de totalidade é inseparável da de tempo. Isso remete a idéia de que essa totalidade é mutável e inconstante e, dessa forma, a realidade captada no trabalho de campo realizado para compreender as relações estabelecidas pela MMCB é um momento específico, com características específicas que, em um curto intervalo de tempo, podem ser alteradas.
Dessa forma, o trabalho de campo realizado com o segmento fornecedor de suprimentos à MMCB visa captar uma realidade que permite fazer análises e avaliações que possibilitem construir um entendimento dessa relação que, a priori, é complexa, através de uma leitura geográfica.
Conforme ressaltado, a relação montadora e fornecedor é complexa, pois envolve uma série de interconexões entre as partes envolvidas, partindo de um sistema de governança da cadeia produtiva em que a montadora conduz e organiza todo o processo produtivo.
Primeiramente, a escolha desta ou daquela empresa para ser fornecedora de uma montadora está balizada em uma série de exigências às quais o fornecedor necessita se adequar para atender o cliente. A respeito disso, Firkowski e Biliski (2008, p. 8), ao analisar o contexto de atuação da montadora Renault na cidade francesa Douai (Norte da França) e na cidade de Curitiba (Paraná), alertam que:
A escolha do fornecedor se baseia em rígidos critérios de adequação dos fornecedores as demandas da montadora, dentre as quais a qualidade tem destaque, além da capacidade para participar do desenvolvimento técnico, capacidade de entregar as quantidades solicitadas em prazos cada vez mais curtos; competitividade de preços, situação financeira e [...].
O processo de escolha de fornecedores, por parte das montadoras, é algo estratégico e considerável para o sucesso da cadeia produtiva automotiva. A escolha do fornecedor é um momento compreendido em etapas distintas em que a empresa é avaliada com o fim de detectar se possui capacidade tecnológica, qualidade e produtividade que atenda às demandas do futuro cliente. Ao se tornar fornecedor e conseguir a confiança da montadora, denota-se tempo e qualidade no atendimento prestado. Dessa forma, o relacionamento precisa ser profícua e possibilitar a troca de informações entre as partes de forma a influenciar na relação custo-benefício. (MARINI; GONÇALVES; GIACOBO, 2009).
A respeito desses pré-requisitos que, em geral, são exigidos pelas montadoras, Ricardo José Tangary Ferraz de Camargo, diretor industrial da MMCB ao ser questionado se os fornecedores da MMCB detêm tecnologia e know-how para atender as necessidades da montadora, ressaltou que:
[...] hoje em dia os fornecedores da indústria automobilística são sempre os mesmos, e são multinacionais em sua grande maioria, são poucas as empresas absolutamente nacionais. Isso vale pro parque industrial brasileiro, principalmente na automobilística, praticamente quase todos os fornecedores são multinacionais e são
empresas de grande porte, difícil você fazer um fornecedor na indústria automobilística pequeno.
Considerando que essas relações de poder envolvem o processo a montante da produção de automóveis, o processo de produção (linha de montagem em operação) e o processo a jusante (mercado distribuidor e revendas), os dois últimos serão abordados no capítulo 4 por uma questão de estruturação metodológica na construção da discussão sobre rede de fornecedores e rede de concessionárias.
Portanto, fazem-se algumas considerações sobre estes três processos, considerando-os como momentos importantes e particulares e com características peculiares na consolidação do circuito espacial da produção da MMCB.
O processo a montante pode ser caracterizado como escolhas e contatos com fornecedores, relações com prestadores de serviços, definição de produtos e componentes a serem criados, desenvolvimento, testagem e aquisição de produtos, escolhas de tecnologias a serem usadas nos veículos, pesquisas que analisam quais modelos e quais cores tem melhores aceitação do consumidor, o que precisa aprimorar nos veículos, qual o momento mais oportuno para colocar este ou aquele modelo de veículo no mercado e, enfim, a decisão de montar o modelo aceitável mercadologicamente.
Uma das perguntas feita ao senhor Ricardo José Tangary Ferraz de Camargo, foi relacionada à existência de alguma pesquisa de mercado para a inserção de novos designer dos veículos montados pela MMCB. Ele afirmou:
[...] elas são realizadas e são chamadas clínicas, pra ver o que o consumidor quer ou pesquisas pra ver o que agrada o consumidor pra poder fazer as modificações em termos de satisfazê-lo como, por exemplo, aparência, potência, porta-batom, porta- óculos, espelho no quebra-sol, quem não quer ter um carro assim.
Segundo o diretor, qualquer um pode ser convidado a participar de uma clínica. Porém, não soube informar o nome da agência de publicidade responsável por tais pesquisas.
Na perspectiva do meio técnico-científico-informacional, segundo Antongiovanni (2003, p. 187), “a publicidade é um elemento constitutivo desse meio técnico-científico- informacional, sobretudo por seu conteúdo em racionalidade”. Pautado na “racionalização das subjetividades é o que em marketing se chama de “criação de conceitos”, isto é, identidades associadas às marcas ou produtos, as quais são aplicadas mediante campanhas publicitárias”. (ANTOGIOVANNI, 2003, p. 187, destaque da autora).
No caso da montadora MMCB, as campanhas publicitárias são práticas constantes como as que estão dispostas em revistas semanais como a Veja (Anexo 6), as em canais de TV por assinatura e recentemente nos canais da TV aberta. Porém, ainda se vêem alguns
merchandising em algumas novelas da Rede Globo, em que aparecem atores dirigindo os veículos da montadora. Com objetivo claro, a publicidade desenvolvida pela montadora quer atingir as classes sociais com maiores padrões aquisitivos, isto é, aquelas que possuem condições reais de comprar um veículo da marca Mitsubishi.
Dessa forma, “a publicidade é uma verdadeira mediação entre as instâncias sociais: espaço, cultura, política, economia”. (ANTOGIOVANNI, 2003, p. 191). A publicidade faz parte do marketing usado pela montadora para divulgar seus produtos e criar o desejo na população de obter um, criando, dessa forma, uma identificação com o produto e despertando a possibilidade de tê-lo o quanto antes.
Considerando que o foco central deste capítulo não é a questão da publicidade e do marketing desenvolvido pela MMCB para divulgar seus automóveis, retorna-se a questões que envolvem o relacionamento da montadora com seus fornecedores de produtos, componentes e suprimentos.
De acordo com informações prestadas pelo senhor Ercílio Azevedo33, a montadora possui, cerca de 150 fornecedores voltados a atender as necessidades da linha de produção.
(Ver Anexo 7). A respeito dessa questão, encaminhou-se ao entrevistado uma lista de parte dos componentes principais que são usados em maior volume para realizar a montagem de um veículo.
No entanto, a elaboração dessa lista, usou-se como parâmetro a pesquisa científica realizada por Lima et all (2002), que realizaram um levantamento dos fornecedores do Complexo Ford na Bahia e os respectivos produtos fornecidos34. Alguns componentes foram acrescentados à essa lista por serem importantes no processo de montagem automotiva da MMCB.
O quadro 11 relaciona algumas empresas fornecedoras de insumos/produtos, assim como aqueles que são fornecidos à MMCB. Portanto, com referência ao quadro 11 e ao mapa 5, nota-se que a localização da maior parte dos fornecedores no Brasil concentra-se espacialmente no Sul e Sudeste.
34A pesquisa de Lima et al., (2002) é sobre o Complexo Ford na Bahia. Foi o maior investimento feito pela Ford em todo o mundo, equivalente a US$ 1, 9 bilhão, que incluía o desenvolvimento de uma nova linha de veículos. Tal investimento atraiu para a Bahia fornecedores de primeiro nível ou sistemistas com atuação mundial, que passaram a atuar diretamente na linha de produção da Ford e se instalando em seu Condomínio Industrial em Camaçari. Com base nessa avaliação, Lima et al., (2002) realizaram um levantamento preliminar sobre as possibilidades de se instalar no estado fornecedores de segundo e terceiro níveis. Dessa forma, entrevistas foram realizadas com 29 sistemistas e 18 fornecedores de segundo, terceiro e quarto níveis localizados dentro do site ou nas suas proximidades. O levantamento consistiu em identificar quais fornecedores faziam entregas diretas de componentes e produtos na linha de produção, de maneira sincronizada; detectar quais as possibilidades de alguns fornecedores se instalar na Bahia e apontar o papel do Estado na consolidação da Ford na Bahia.