Nascido em 1944, na cidade de Millau, na França, Gilles Lipovetsky é atualmente um dos principais pensadores e críticos da presente sociedade. É filósofo, doutor Honoris Causa pela Universidade de Sherbrooke, no Canadá, e pela Nouvelle Université Bulgare, em Sofia, na Bulgária. Lipovetsky é membro do Conselho Nacional dos Programas Educacionais e do Conselho de Análise Social da França, e já foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra da França. Atualmente, Lipovetsky é pesquisador e professor da Universidade de Grenoble, também na França.
No início de seus estudos de Filosofia na Sorbonne, Lipovetsky já assumia um real desinteresse pelos textos clássicos e pelos filósofos fundadores da filosofia. Como ele mesmo afirmou posteriormente, “o que me animava era não as grandes questões da metafísica ou da moral, mas a interpretação do mundo moderno”.19 Como muitos estudantes de sua época, em torno dos anos 60, Lipovetsky também se encontrava possuído pelas convicções marxistas. Em 1965, as idéias do marxismo o levaram a participar de um grupo militante de esquerda, cujo nome era Poder Operário, fundado por Lefort e Castoriadis, do qual também fazia parte Lyotard, Veja e Souyri. O caráter do grupo era militante, marxista revolucionário, denunciava
o capitalismo e a formação de uma sociedade de exploração de classes não apenas no ocidente, mas também na União Soviética. Sua participação no Poder Operário foi de apenas dois anos, vindo após este tempo o afastamento do grupo. A militância de Lipovetsky era inconstante, desinteressada e, portanto, limitada aos ideais antes propostos. Acerca deste afastamento e da frustração em relação ao currículo disciplinar oferecido pela Sorbonne, o autor comenta
Fiquei dois anos nesse grupo, mas, como eu freqüentemente saía de férias, questionaram minha militância um pouco hedonista e descontraída demais!... A nova era do lazer já exercia sua influência... O afastamento se deu sem crise pessoal, sem peso na consciência, sem nenhum sofrimento. Para mim, a “vida de verdade” já estava em outro lugar. A bem dizer, a questão da revolução não me preocupava quase nada, porque eu não acreditava realmente nela – procurava sobretudo ferramentas de análise para compreender o real. E os cursos propostos na Sorbonne não atendiam a essa expectativa.20
Nessa mesma época, os textos de Lyotard e Baudrillard influenciaram fortemente o pensamento de Lipovetsky, fornecendo uma base teórica consistente cujo reflexo crítico seria notado em seus textos futuros. As considerações de ambos os autores acerca do desejo, do gozo, da mídia e do consumo, entre outras, esferas estas que despertariam o interesse de Lipovetsky para uma análise mais minuciosa, foram por ele amplamente discutidas e exploradas em toda a sua complexidade, na medida em que esta se permitia compreender. Nas palavras do autor
Aquelas análises do desejo e do gozo, do consumo e da mídia, tinham o mérito de subverter os domínios teóricos separados, de revitalizar a crítica da economia política ou libidinosa, de abrir um além-do-político ao compor como que odes a uma revolução transpolítica. Desde essa época, julgo que o existencial, os modos de vida, o frívolo devem ser levados em conta, e não ser de imediato considerados a ‘falsa consciência’.21
É a partir deste tempo que Lipovetsky rompe com um paradigma já estabelecido em relação à influência da sociedade no comportamento dos indivíduos. Para ele, não é apenas a lógica da alienação a chave interpretativa para se compreender o porquê de uma assimilação passiva por parte dos indivíduos de conceitos e propostas de vida promulgadas pela sociedade, pelo mercado e pela publicidade. Lipovetsky conseguiu se distanciar desta premissa já inquestionável se mostrando incomodado com esta conclusão que, em sua análise, se mostrava simplista: “... logo me incomodei com a noção de alienação: ela veiculava em
20 Ibid, p. 110. 21 Ibid, p. 112.
demasia a idéia de que as pessoas eram mistificadas, passivas, manipuladas, hipnotizadas – Debord –, incapazes de distanciamento crítico, de compreensão do que lhes acontecia”.22 Sua percepção rompia com a análise marxista, o que se deu de modo mais incisivo ainda, quando de suas leituras dos textos de Tocqueville, Marcel Gauchet, Louis Dumont e Daniel Bell. Como fruto destas leituras, Lipovetsky comenta:
Nelas encontrei esquemas analíticos e ferramentas insubstituíveis, que devolviam um papel de fato produtivo às ‘idéias’ na história: o indivíduo, a revolução democrática, o direitos humanos, tudo isso, já não eram mais a superestrutura, simples “reflexo” da economia. Essas problemáticas me deram maior liberdade para entender a sociedade nova, na qual se observava um impulso de autonomia individual, uma sujeição menor aos enquadramentos coletivos.23
Os autores que foram citados acima fazem parte de um grupo de teóricos que influenciaram diretamente o pensamento de Lipovetsky. Foram estes que deram à Lipovetsky, como ele mesmo atesta, as ferramentas essenciais para que os seus estudos pudessem ser produzidos. Além disso, o contexto social em que o autor se encontrava inserido, preenchido por uma revolução crescente nos modos de vida social, pela expansão das capacidades sociais de comunicação e também pela legitimação de práticas constantes de consumo, entre outros elementos, proporcionaram-lhe as condições necessárias para que as suas análises sobre o individualismo democrático fossem relevantes.
Com análises que refletem uma percepção extremamente aguçada da sociedade e de suas mudanças, Lipovetsky é singular por sustentar suas hipóteses a partir de uma análise mais empírica do que apenas baseada em teorias já existentes. Neste aspecto, o próprio autor estabelece uma crítica à tradição filosófica mais comumente conhecida, distanciando-se dela e afirmando que “a maior parte dos filósofos, mesmo que digam o contrário, é platônica e busca a Idéia atrás dos fatos”.24 Ele é ainda mais incisivo em sua crítica porque em sua perspectiva, aos filósofos, e não apenas aos atuais, faltou ou ainda falta um olhar mais cuidadoso para os detalhes impregnados em cada fenômeno, os quais são percebidos e compreendidos a partir de um estudo mais preciso de suas manifestações.
O apego ao empírico, a um olhar minucioso sobre os fatos como se dão, podendo-se a partir disto compreendê-lo em toda a sua complexidade, aspecto este característico da
22 Ibid, p. 112. 23 Ibid, p. 112.
24 Sébastien CHARLES, Comte Sponville, Conche Ferry, Lipovetsky, Onfray Rosset, é possível viver o que eles
metodologia de Lipovetsky, é atestado abaixo quando sua obra é analisada por Sébastien Charles, que comenta
Um dos méritos das análises que Gilles Lipovetsky propõe há vinte anos é romper com tais juízos excessivos, sempre demasiado elementares porque olham apenas um aspecto das coisas, a fim de livrar-se de toda a complexidade do real e circunscrever as contradições de que este está urdindo. [...] as análises de Lipovetsky não se contentam com juízos apressados nem submetidos a ditames ideológicos; antes, seguindo um método empirista ou indutivo, procuram partir dos fatos, e do estudo destes no tempo longo, para propor um quadro de análise que possibilite fazê-los falar e dar-lhes sentido.25
Lipovetsky é também perspicaz por fazer de seu objeto de estudo fenômenos até então desconsiderados, pelo menos em termos de um estudo sistemático sério e progressivo, pela análise filosófica. Propondo uma análise histórico-social crítica, apresentando quais foram os elementos então responsáveis para a emergência da presente configuração atual dos fenômenos estudados, bem como as implicações destes na vida social dos indivíduos, Lipovetsky questiona e estuda a lógica da moda, as mudanças no pensar ético, o feminismo, o luxo, o consumo, enfim, fenômenos que circundam a vida social de todo e qualquer indivíduo, independentemente de sua faixa etária e condição sócio-econômica, mas que até então não haviam ainda sido submetidos a uma análise acadêmica rigorosa. Faz-se importante enfatizar mais uma vez que, neste sentido, Lipovetsky é bastante peculiar em relação à grande parte dos filósofos, distanciando-se da filosofia tradicional e rompendo com uma análise que, de seu ponto de vista, não considera os detalhes dos fenômenos, mas o concebe apenas em sua totalidade, em seu aspecto geral e universal, o que para ele, trata-se de uma análise bastante limitada e comprometedora.
Em se tratando de sua paixão por questões diferentes das mais comumente conhecidas e discutidas pela Filosofia, Lipovetsky, na perspectiva de Charles Sébastien, se assemelha ao pensamento de Foucault
O pensamento de Gilles Lipovetsky poderia ser facilmente aproximado ao de Michel Foucault. De fato, nossos dois filósofos – e mesmo que Lipovetsky não recorra exclusivamente ao pensar filosófico – empregam um método genealógico para circunscrever domínios de estudo freqüentemente negligenciados pela confraria filosófica. Assim, ambos evocam fenômenos muitas vezes qualificados de marginais (a loucura ou a
prisão por Foucault, a moda ou a feminidade por Lipovetsky), aos quais é recusada uma análise conceitual rigorosa e histórica.26
Lipovetsky por si mesmo assume um pouco de afinidade com o pensamento de Foucault
Aí está um ator com o qual, em compensação, eu me sinto em profunda afinidade quanto ao método... mas não quanto ao fundo. O método é, de fato, similar. Quando Michael Foucault fala da loucura, ele constrói seu objeto e dele tira a seguir sua conclusão. É no trabalho de construção do objeto que a dimensão filosófica aparece e não a priori. É também o que procuro fazer.27
Nas análises de Lipovetsky acerca de fenômenos como o feminino, a moda, o luxo e, sobretudo, o consumo, percebe-se de forma mais clara esta construção de uma análise a partir de uma construção do objeto em questão, pretendendo o autor dar conta de toda a complexidade de seu objeto a partir da realidade social dada, para então, a partir disto, estabelecer as suas considerações e verificar a validade de suas hipóteses.
Em virtude das conclusões simplistas proposta por muitos filósofos acerca de fenômenos mais precisos da vida social, tais como a moda, o luxo, a feminidade e outros já anteriormente citados, realidades que merecem um estudo mais aprofundado quanto à sua concepção e expressão, o autor, como anteriormente apontado, critica diretamente a Filosofia atual por este suposto descaso, rompendo com teorias simplistas que não consideram o objeto em toda a sua complexidade e os detalhes a ele imbuídos, satisfazendo apenas em parte as problemáticas levantadas. Quando questionado a respeito deste rompimento, Lipovetsky, citando o exemplo da beleza feminina posta em análise e em foco de um estudo acadêmico sério e crítico, diz
Eis o tipo de pergunta que me veio ao espírito e que não interessa ao filósofo: o que é a beleza feminina? É um fenômeno universal ou trans-histórico? Todas as sociedades a valorizaram? E da mesma maneira? E se não, quando isso se estabeleceu? Por quê? O que esse fenômeno significa nas relações entre os homens e as mulheres? Que orientação ele toma em uma sociedade igualitária? Como é possível que em uma sociedade democrática com aspiração igualitária como a nossa se recomponha a dissimetria dos homens e das mulheres no que se refere à aparência física? São questões fundamentais, de cuja existência os filósofos nem sequer suspeitam. Para eles, isso não é
26 Sébastien CHARLES, Comte Sponville, Conche Ferry, Lipovetsky, Onfray Rosset, é possível viver o que eles
pensam?, p. 140.
nem mesmo uma questão, ainda que ponha em causa um valor filosófico essencial, o da igualdade. Eles tendem antes a denegrir a questão, o que para mim é cegueira filosófica. Não querem ver as coisas e não procuram dar-lhes uma compreensão e uma inteligibilidade reais.28
O mesmo teor crítico é notado quando a questão da moda é posta em debate, a qual, segundo Lipovetsky, tem escapado a uma avaliação crítica da filosofia. “Quando os filósofos falam da moda, não conhecem nada sobre ela. Nem sequer vão ver os fatos, uma vez que sabem já interpretá-los. [...] Pois bem, eles não sabem o que é realmente”.29
Em A era do vazio, ensaios sobre o individualismo contemporâneo, este que foi o primeiro livro publicado por Lipovetsky em 1983, o autor ganha repercussão mundial ao apresentar as suas teorias acerca do modo de funcionamento da sociedade pós-moderna, de seus valores, das relações entre seus indivíduos, dos novos paradigmas que estavam a se instituir de modo a redefinir as relações sociais em suas mais variadas esferas de vivência, entre outros. O autor trata do individualismo social com uma percepção aguçada, afirmando que a sociedade se encontra mergulhada num imenso vazio a abranger várias dimensões da vida. Os valores de tradição mais comumente conhecidos estão comprometidos, os grandes discursos da modernidade estão postos em dúvida, o consumo de massa direciona o indivíduo a um comportamento individualista e irresponsável. Essas e outras realidades se manifestam na obra A era do vazio e fazem parte do objeto de estudo proposto pelo autor.
Seis anos após a publicação de A era do vazio, Lipovetsky escreve O império do
efêmero, a moda e seu destino nas sociedades modernas, publicado em 1989. Neste texto, o autor mostra como a lógica da moda, do frívolo e do efêmero, tem se manifestado também em outras esferas sociais, reapropriando e redefinindo as relações sociais que se dão nestes contextos a partir das prerrogativas desta nova lógica. Ainda que Lipovetsky tivesse desfrutado de reconhecimento acadêmico meritório pela publicação de A era do vazio, o seu segundo livro, O império do efêmero, foi alvo de críticas mais incisivas, tendo em vista uma abordagem proposta pelo autor que não demoniza o fenômeno da moda. Quanto a isso, o autor comenta dizendo
Ainda que seus múltiplos e negativos defeitos sejam reais, seus benefícios estão muito longe de ser nulos. Eu simplesmente quis mostrar que a forma-moda não era sinônimo de “barbárie”, de ruína do pensamento e da liberdade. A questão merece exame mais atento e
28 Ibid, p. 148-149. 29 Ibid, p. 148.
juízos mais contrastados do que esses que freqüentemente os “profissionais” da conceitualização e outros minuciosos hermeneutas dos grandes textos canônicos nos oferecem.30
Lipovetsky não faz uso da apologia ou da condenação em suas análises, mas se propõe a expor as suas conclusões a partir das realidades postas.
Em A sociedade pós-moralista, o crepúsculo do dever e a ética indolor dos novos
tempos democráticos, de 1992, Lipovetsky se propõe a um estudo sistemático da questão ética, tomando como ponto de partida a fase histórica pré-moderna, quando a ética estava estritamente relacionada com preceitos de caráter religioso, sendo estes os pressupostos determinantes para toda e qualquer ação ética dos indivíduos em suas mais variadas esferas sociais de vivência. Num segundo momento, o autor estabelece os marcos que foram fundamentais para que uma ruptura em relação ao paradigma anterior emergisse, sendo a ética, a partir deste momento, concebida ainda de modo subordinado a uma lógica do dever, da obrigação moral para com o semelhante, de ações responsáveis que sejam tomadas de modo a levar em conta o outro que se apresenta perante o indivíduo e que precisa ser afetado pelas ações deste de modo responsável, porém, toda essa dimensão ética impregnada pela lógica do dever será imposta não mais pela instituição religião, mas sim, pelas instituições próprias e oriundas da modernidade. Há, portanto, uma transferência de legislador ético, mas não de preceitos propriamente ditos. É neste ínterim que o autor, ao observar as relações sociais no tempo presente, denominado por ele de hipermoderno, apresenta uma nova hipótese ética, a do pós-dever.
Para Lipovetsky, o indivíduo hipermoderno e hiperindividualista não conhece quaisquer regras que o obriguem a uma vivência que corresponda aos imperativos da lógica do dever. Suas ações são praticadas, mesmo aquelas consideradas como altruístas, tendo em vista primeiramente o seu bem estar próprio, o seu conforto e o seu alívio de consciência, mesmo que o próximo seja um instrumento para que todos esses anseios sejam possíveis. Uma análise minuciosa acerca do funcionamento da lógica do pós-dever é oferecida pelo autor em A sociedade pós-moralista, bem como exemplos variados onde as suas teorias são aplicadas e atestadas.
Muitos outros títulos foram lançados pelo autor no decorrer dos anos apresentando sempre a mesma coerência intelectual e uma consideração da sociedade atual com suas transformações com uma perspicácia ainda mais rica. É o que se percebe em títulos como Os
tempos hipermodernos, de 2004, no qual Lipovetsky em entrevista a Sébastien Charles explica um pouco de sua trajetória intelectual, de sua formação acadêmica e dos autores que o influenciaram. Em 2005, o autor publica O luxo eterno, da idade do sagrado ao tempo das
marcas, apresentando uma análise relevante a respeito do modo como o luxo é concebido, fazendo uso de um método histórico e social para mostrar as transformações que se deram nessa concepção ao longo das décadas. Em 2007, Lipovetsky mostra como o consumo foi sendo concebido pelas sociedades ao longo de suas três principais fases com o título A
felicidade paradoxal, ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Lipovetsky coloca que o hiperconsumo, termo com o qual ele prefere definir a atividade consumista atual, caracteriza- se como sendo um tipo de consumo mais intimizado, personalizado, que estimula os sentidos e que está desprendido do antigo paradigma da diferenciação social. Na perspectiva do autor, as pessoas consomem na hipermodernidade com vistas às satisfações subjetivas, almejando sensações de bem estar e conforto íntimo, muito mais do que para a exibição de status social. Por fim, em 2011, juntamente com Jean Serroy, Lipovetsky publica A cultura mundo,
resposta a uma sociedade desorientada, obra na qual o autor apresenta a hipótese de que a cultura atual, denominada por ele de “cultura mundo”, é peculiar do momento histórico atual porque é bastante paradoxal nos valores que difunde. O autor apresenta algumas proposições acerca do que o futuro poderá revelar para as relações humanas em sociedade a partir daquilo que se manifesta atualmente.
Os livros de Lipovetsky já foram traduzidos em 18 línguas e suas teorias têm provocado muitos teóricos a repensar a eficiência de estudos já antes conhecidos, paradigmas já pré-estabelecidos, isto em virtude da extrema competência com a qual Lipovetsky desenvolve e apresenta o seu raciocínio acerca da questão ética e da compreensão do cenário social atual. Suas hipóteses e os conseqüentes argumentos que as sustentam são apresentadas de maneira coerente e sobremodo convincente, dando sustentabilidade às suas prerrogativas.