2 giellasosiologalaš dutkanteoriija
2.3 Dutkamuša guovddáš teoriijat
Para Fazenda (1994, 1995, 1999, 2001, 2003, 2008), existem alguns princípios comuns à Teoria da Interdisciplinaridade, que lhe conferem uma base epistemológica comum. Ao menciona-los, a autora os conceitua também como categorias, pressupostos ou atributos.
Através da análise e interpretação das definições atribuídas por Ferreira (1988) a cada um destes termos, observa-se que todos remetem, em determinado momento, às características que definem, fundamentam ou caracterizam uma ciência ou objeto do conhecimento, nesse caso específico, a Teoria da Interdisciplinaridade64.
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Atributo para Ferreira (1988, p. 72) significa, dentre outras possibilidades, “1. Aquilo que é próprio de um ser. 3. Estat. Característica, qualitativa ou quantitativa, que identifica um membro de um conjunto observado. 4. Filos. Caráter essencial de uma substância. 5. Gram. A qualidade atribuída ao sujeito.” Categoria para o mesmo autor significa “1. Caráter, espécie, natureza. 2. Série, grupo. 3. Classe, qualidade. 4. Alta classe ou qualidade. [...].7. Hist. Filos. Segundo Aristóteles, predicado de uma proposição. 8. Segundo Kant, o conjunto dos conceitos fundamentais do entendimento. 9. Mat. A possança de todos os conjuntos que podem ser postos em correspondência biunívoca com um determinado conjunto” (p. 136). Já pressuposto significa “1. Que se pressupõe. 2. Pressuposição; conjetura. 3. Desígnio, tenção, projeto. 4. Jurid. Circunstância ou fato considerado como antecedente, necessário de outro.” (p. 527). Princípio, por fim, significa “1. Momento ou local ou trecho em que algo tem origem; começo. 2. Causa primária. 3. Elemento predominante na constituição de um corpo orgânico. 4. Preceito, regra, lei. 5. P. ext. Base, germe.” (p. 529).
Abbagnano (2003, p. 94) possui uma definição interessante para o termo atributo. Para o autor, ele pode ser considerado “um caráter ou uma determinação que, embora não pertença à substância do objeto, como decorre da definição, tem causa nessa substância”65
. A palavra categoria também possui significado similar, ao ser compreendida como uma “noção que sirva como regra para a investigação ou para a sua expressão linguística em qualquer campo”66
. (ABBAGNANO, 2003, p. 121).
Já pressuposto, para Abbagnano (2003), se constitui em uma premissa não declarada de um raciocínio, que o dirige, ainda que de forma oculta67.
A palavra princípio, por sua vez, para o mesmo autor, significa “ponto de partida e fundamento de um processo qualquer”68
(p. 792).
Neste capítulo, farei uso de todos esses termos (categoria, pressupostos, atributos ou princípios), a fim de garantir coerência ao texto.
Os princípios da Teoria da Interdisciplinaridade dizem respeito, principalmente, à atitude do pesquisador e do professor diante do conhecimento, diante dos alunos, dos fenômenos de pesquisa e diante de si mesmo.
Abbagnano (2003, p. 89) afirma que atitude é um “termo amplamente aplicado hoje em dia em filosofia, sociologia e psicologia para indicar, em geral, a orientação seletiva e ativa do homem em face de uma situação ou de um problema qualquer”.
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Abbagnano (2003, p. 94) ainda afirma que “na Escolástica, esse termo *atributo+ foi usado quase exclusivamente para indicar os atributos de Deus, como bondade, onipotência, justiça, infinitude, etc,. que também são chamados nomes de Deus. [...]. esse uso terminológico foi modificado por Descartes com a extensão do termo às qualidades permanentes da substância finita. Com efeito, Descartes entende por atributo as qualidades que ‘inerem à substância’. Por isso, em Deus dizemos que não há propriamente modos ou qualidades, mas somente atributos, porque nenhuma variação se deve conceber n’Ele. E mesmo nas coisas criadas, o que nelas não se comporta nunca de modo diferente, como a existência e a duração, não deve ser, na coisa que existe e dura, chamada qualidade ou modo, mas atributo” (grifos do autor).
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Categorias são definidas também por Abbagnano (2003, p. 121-124) primeiramente como “determinações da realidade e, em segundo lugar, noções que servem para indagar e para compreender a própria realidade. [...] Para Kant as categorias são os modos pelos quais se manifesta a atividade do intelecto, que consiste, essencialmente, em ‘ordenar diversas representações sob uma representação comum’, isto é, em julgar. *...+ O conceito tradicional de categoria como ‘determinação do ser’ foi retomado pelo idealismo romântico e, em especial, por Hegel. Este considera as categorias como ‘determinações do pensamento’. *..+ Contudo, cientistas, filósofos e pesquisadores em geral sempre exerceram o direito de propor novas categorias, isto é, novos instrumentos conceituais de investigação e de expressão linguística”.
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Para Abbagnano (2003, p. 789), “diferentemente da premissa, do postulado, da hipótese, etc., o pressuposto é introduzido sub-repticiamente no decorrer de um raciocínio, limitando-o ou dirigindo-o de maneira dissimulada ou oculta. Pode ser também definido como regra sub-reptícia de inferência”.
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Um dos significados atribuídos por Aristóteles ao termo princípio foi o de se constituir como “aquilo de que parte um processo de conhecimento, como por exemplo, as premissas de uma demonstração. [...] Causa também tem os mesmos significados, pois todas as causas são princípios. O que todos os significados tem em comum é que, em todos, princípio é ponto de partida do ser, do devir e do conhecer.” (ABBAGNANO, 2003, p. 792).
Ferreira (1988, p. 70) caminha sob a mesma lógica de Abbagnano (2003) ao atribuir os seguintes significados para a palavra atitude:
Atitude. S.f. 1. Posição do corpo; porte, jeito, postura. 2. Modo de proceder ou agir; comportamento, procedimento. 3. P. ext. Afetação de comportamento ou procedimento. 4. Propósito, ou maneira de se manifestar esse propósito. 5. Reação ou maneira de ser, em relação a determinada(s) pessoa(s), objeto(s), situações, etc.
Os dois autores acima (ABBAGNANO, 2003; FERREIRA, 1988) concordam com a assertiva de que a atitude69 está correlacionada aos modos de agir do sujeito diante de
outra pessoa, de um objeto ou de uma situação. Fazenda (2001), por sua vez, indica que a atitude diante do conhecimento é característica fundamental dos que praticam a Interdisciplinaridade.
Percebe-se, no entanto, a partir das interpretações anteriores fundamentadas, sobretudo em Lenoir (2005-2006), que a Interdisciplinaridade também tem seu conceito ligado às questões de ordem prática e ontológica. Nesse sentido, é possível afirmar que a prática interdisciplinar – seja na pesquisa, no ensino ou na aprendizagem – exige, também, uma atitude específica diante de si mesmo, do outro, do fenômeno estudado e das situações nas quais professores e alunos se encontram.
69 Abbagnano (2003, p. 89) afirma ainda que “Dewey considera essa palavra [atitude] um sinônimo de hábito e
de disposição; em particular, parece-lhe que ela designa um caso especial de predisposição, a disposição que espera prorromper através de uma porta aberta. [...] Lewis, analogamente, diz que na atitude o que está presente é captado em seu significado prático e antecipatório, como um indício do que está além, no futuro. [...] Por outro lado, essa palavra foi usada com o mesmo significado fundamental de disposição por Jaspers [...]. As atitudes são disposições gerais, suscetíveis, ao menos em parte, de pesquisa objetiva, assim como as formas transcendentais no sentido kantiano. São as direções do sujeito e utilizam determinada rede de formas transcendentais. [...] Mais precisamente, a atitude pode ser definida como o projeto de opções porvindouras em face de verto tipo de situação (ou problema), ou como um projeto de comportamento que permita efetuar opções de valor constante diante de determinada situação”.
Trindade (2001, p. 79-80), por sua vez, determina sete características do conceito de atitude a partir da análise e interpretação do termo e de seu contexto socio-histórico: “a) referem-se a um objeto, que pode ser concreto (pessoas ou grupo de pessoas, instituições, comportamentos, coisas...) ou abstrato (conceitos, normas, ideias...) mas que possui sempre valor social para o sujeito; b) têm um componente cognitivo que engloba os conhecimentos que o detentor da atitude possui em relação ao objeto – esses conhecimentos são tidos como certos pelo sujeito; c) possuem um componente afetivo preenchido pela avaliação que o sujeito faz do objeto e pode ser positiva ou negativa; d) apresentam um componente conotativo, ou seja, uma predisposição para responder em relação ao objeto; e) são aprendidas, sofrendo por isso influências sociais; f) são duradouras, isto é, prolongam-se suficientemente no tempo para serem estáveis, mas de modo suficientemente transitório para permitirem a sua mudança; g) são consistentes, isto é, relacionam-se com comportamentos específicos, permitindo prevê-los. O componente avaliativo, para além de determinar a direção da atitude, permite ainda determinar a intensidade (a força do pró e do contra) e a importância ou relevância da atitude (o mesmo objeto da atitude pode ser de diferente relevância para diferentes pessoas).
Acredito que estas duas afirmações acerca do conceito de atitude corroboram com a abordagem adotada pela Teoria da Interdisciplinaridade e com o processo de constituição da autoria por professores, pesquisadores e professores em formação.
Fazenda (1999, p. 158) afirma que essa atitude proposta pela Interdisciplinaridade é uma atitude de abertura, de respeito e de humildade.
A atitude que adotamos frente às questões da interdisciplinaridade tem sido de respeito às práticas cotidianas dos professores, às suas rotinas. Porém esse respeito impele-nos a fazê-los acreditar e conhecer novos saberes, novas técnicas, novos procedimentos. Nosso trabalho parte do pressuposto que as práticas dos professores não se modificam a partir de imposições, mas exige um preparo especial no qual os mesmos sintam-se participantes comprometidos. Trabalhamos a partir da descoberta e valorização de quem são os professores, de como atuam, indicando caminhos alternativos para seus fazeres.
A atitude interdisciplinar pressupõe, nesse sentido, o cumprimento dos princípios da coerência, da humildade, do respeito, da espera, do desapego e do olhar. Conforme mencionado no segundo capítulo, a autoria conferida aos pesquisadores do GEPI tem contribuído com a criação de outros princípios relacionados à Teoria da Interdisciplinaridade, como a coragem (GUIMARÃES, 2010) e o reconhecimento (TAINO, 2008). Nesse momento, no entanto, me deterei na análise destes seis primeiros, no sentido de verificar se eles corroboram ou não com o princípio da autoria em educação.
A coerência constitui o primeiro princípio da Interdisciplinaridade por oferecer subsídios à atitude dos que a colocam em prática em suas pesquisas e em suas atividades docentes.
Para Ferreira (1988, p. 158), o termo coerência se caracteriza por ser: “1. Qualidade, estado ou atitude de coerente. 2. Ligação ou harmonia entre situações, acontecimentos ou ideias; relação harmônica; conexão, nexo, lógica, congruência”.
O princípio da coerência permite ao educador o estabelecimento de uma sequência lógica em suas fundamentações epistemológicas, sem desconsiderar a harmonia necessária às práticas e às relações interpessoais. Como afirma Abbagnano (2003, p. 147-148), o termo coerência pode significar “ordem, conexão, harmonia de um sistema de conhecimento”, assim como pode apresentar sentido similar ao do termo compatibilidade, pois “não se presta a exprimir o caráter do sistema desprovido de contradição, mas designa o caráter de não-contradição recíproca dos enunciados”70.
70 Abbagnano (2003, p. 147) ainda afirma que o sentido de ordem e harmonia de um sistema de
conhecimentos fez com que idealistas ingleses a compreendessem como critério de verdade. “Nesse sentido, Kant atribuía aos conhecimentos a priori a função de dar ordem e coerência às representações sensíveis. [...] Segundo Bradley, por exemplo, a realidade é uma Consciência absoluta que abarca, na forma de coerência harmoniosa, toda a multiplicidade dispersa e contraditória da aparência sensível. [...]. a coerência, nesse sentido, é muito mais do que a simples compatibilidade entre os elementos de um sistema: implica, com efeito,
No entanto, constata-se, também, que a Teoria da Interdisciplinaridade assume a ambiguidade como possibilidade de verificação da totalidade do fenômeno e do sujeito que o pesquisa, ou que age sobre ele. Assumir a coerência e a ambiguidade não seria uma atitude de incoerência?
Giacon (2001, p. 35), ao iniciar suas discussões sobre coerência, registra o seguinte poema de sua autoria:
Sou tantas...aquelas que fui e aquelas que deixei de ser.
Sou as minha fobias e a minha coragem, sou projeto e desencanto. Sou a voz que denuncia e o silêncio covarde que cala.
Sou vida que clama e morte que apaga. Sou carne e sou espírito.
Sou tudo e nada.
Sou tantas e sou nenhuma. Sou aquelas que serei... então sou todas.
Sou...
Analisando-o superficialmente, poder-se-ia interpreta-lo como o retrato de alguém que se considera ambíguo, pois vive no mundo das polaridades. Porém, não seria essa a característica de todo o ser humano?
Do ponto de vista existencial, é impossível dissociar a fraquezas da coragem, as necessidades do corpo daquelas pelas quais clama o espírito, isso porque não se deixa de ser quem se é, mesmo assumindo diferentes papéis no decorrer do dia-a-dia.
Viver é escolher, e a cada escolha existe uma deserção, um abandono, uma possibilidade que fica pelo caminho; é a nossa vontade mutante que se reveste e se transveste do hoje incrustado pelo ontem das nossas histórias, pelas cores das nossas paisagens interiores. É um gesto de relativa eternidade que se fecha para logo depois se abrir num mundo infinito de promessas, que cresce continuamente até implodir numa nova escolha. Se assim não fosse, viver seria um ato emperrado destituído do caráter dinâmico que impulsiona a vida para o salto utópico, contínuo e descontínuo, de se completar e de se fazer feliz (GIACON, 2001, p. 35).
A coerência não impede a ocultação das características próprias de cada pessoa, para que uma máscara de perfeição assuma seu lugar. Pelo contrário, ela permite a cada educador assumir a sua realidade, suas características e suas dúvidas, para que encontre nelas um fio condutor. A coerência da qual fala a Teoria da Interdisciplinaridade assume o desejo de Freire, P. (1997, p. 38): “Quem pensa certo está cansado de saber que as palavras a que falta a corporeidade do exemplo pouco ou quase nada valem. Pensar certo é fazer certo”.
não só conexões positivas que estabeleçam harmonia entre os elementos do sistema. Nessa acepção, esse termo não tem significado lógico” (grifos do autor).
O pesquisador (o professor, ou o autor) coerente é aquele que assume a constante transformação do conhecimento e que, por isso, aceita a possibilidade da insuficiência do saber previamente adquirido. Por isso, precisa estar constantemente em processo de aprendizagem. Da mesma forma, tem consciência de que suas atitudes precisam exprimir aquilo que seus escritos imprimem.
À dimensão interdisciplinar, a coerência é um dos seus princípios, é uma virtude mãe, é o fio que faz a conexão entre os fios que formam a trama do tecido do conhecimento, é uma das diretrizes que norteiam todo o seu trabalho, e não poderia ser diferente, pois ela é a amálgama entre o manifesto e o latente, entre o pensar, o fazer e o sentir (GIACON, 2001, p. 37).
Matos (2001), pesquisador do GEPI, ao analisar a importância do espaço físico e virtual para a Teoria da Interdisciplinaridade, elaborou imagens representativas de cada um de seus princípios. A coerência foi desenhada no formato de uma grade. Linhas de mesmo tamanho imersas em um plano com os mesmos elementos garantiriam a expressividade da coerência nas pesquisas, conforme observado na Figura 43.
É fundamental uma atitude de coerência por parte do professor e do pesquisador, ou seja, do autor, a respeito daquilo que falam e fazem. Se houver o entendimento, por parte destes profissionais, de que a Interdisciplinaridade é uma categoria também caracterizada pela ação, será observado então o estabelecimento da coerência nas atitudes do professor e do pesquisador, ou seja, o respeito ao conhecimento e ao educando, a tolerância, a valorização dos talentos individuais e coletivos e a rigorosidade metodológica e crítica durante o processo de construção do conhecimento.
Figura 43 – Coerência Fonte: Fazenda, 2001, p. 31.
A humildade constitui o segundo princípio da Interdisciplinaridade. Se houver a percepção de que o conhecimento não é algo fragmentado, mas que se encontra em constante processo de evolução e descoberta, haverá então a necessidade da crença de que sempre é possível – e necessário – aprender.
Alguns dos significados atribuídos por Ferreira (1988, p. 346) ao termo humildade, o caracteriza como: “2. Modéstia, pobreza. 3. Respeito, reverência; submissão”. Adotarei aqui, as representações “modéstia, respeito e reverência” como sinônimos do significado atribuído ao termo humildade dentro da Teoria da Interdisciplinaridade.
O sentido religioso atribuído à palavra, sugere a compreensão da humildade como uma atitude de silêncio e submissão, ou seja, atitude de ocultar os saberes que possui em detrimento de outros71 (ABBAGNANO, 2003).
O sentido atribuído à humildade pela Teoria da Interdisciplinaridade, no entanto, é o de uma postura ativa diante do conhecimento. O educador reconhece que, quanto mais adquire conhecimento, mais precisa aprender. Da mesma forma, reconhece a existência de diversas fontes de aprendizagem, inclusive aquelas que decorrem de sua relação com seus alunos.
Espírito Santo (2007, p. 27-28) preferiu definir o termo humildade a partir de um texto poético, caracterizando-a como categoria essencial ao processo de autoconhecimento durante a formação do professor.
Humildade
A origem da humildade é ‘húmus’ – terra Sinal de que aqui estamos
Então as dores, o sofrimento, a morte...
Saber que nessa ‘terra’ viemos buscar o sentido de nossa origem
71“Humildade. (lat. Humilitas; in. Humility; fr. Humilité; al. Demut; it. Umiltà). Atitude de abjeção voluntária,
típica da religiosidade medieval, sugerida pela crença na natureza miserável e pecaminosa do homem. [...]. A humildade é a virtude graças à qual o homem se avilta com verdadeiro reconhecimento de si mesmo. [...] Nesse sentido, a humildade era desconhecida do mundo antigo. S. Paulo, que foi o primeiro a empregar essa palavra, entendeu-a como falta de espírito de competição e de vanglória, vendo seu modelo em Cristo, que, com a encarnação, rebaixou-se até o homem. Da mesma forma, S. Agostinho fala da humildade sobretudo a propósito da via humilitatis, que é a encarnação do Verbo para a redenção dos homens: nesse sentido, contrapõe a humildade cristã à soberba dos platônicos, que sabiam tantas coisas, mas ignoravam a encarnação. S. Tomás considerava a humildade como a parte da virtude que tempera e freia o ânimo, a fim de que ele não tenda desmesuradamente às coisas mais altas e veja nelas o complemento da magnanimidade que fortalece o ânimo contra o desespero e impele-o a perseguir as grandes coisas, de acordo com a reta razão. [...]. Spinoza negava que a humildade fosse uma virtude e julgava-a uma emoção passiva, porquanto ela nasce do fato de o homem contemplar sua própria inocência. [...]. Kant distingue a humildade moral, que é o sentimento da pequenez do nosso valor, comparado com a lei, da humildade aspúria, que é a pretensão de, por meio da renúncia, adquirir algum valor moral de si mesmo, um valor moral oculto. [...] (ABBAGNANO, 2003, p. 519-520, grifos do autor).
Sem humildade não teremos os pés no chão Não poderemos acolher
Amar
Olhar verdadeiramente para o Outro...
Sem humildade seremos ‘espíritos desencarnados’ Estaremos ‘fora do lugar’...
É a origem dos fundamentalismos Dos fanatismos...
A humildade nos torna verdadeiros instrumentos do Espírito Entenderemos o porquê de nossos olhos
O porquê de nossos ouvidos...
Ouviremos e olharemos com os ‘olhos do espírito’... A humildade nos torna ‘presentes’ ao nosso corpo
Faz-nos também entender que o corpo é um presente para o Espírito crescer Esse o Caminho da Humildade
Nessa misteriosa via para o ‘nascer de novo’, o ‘nascer para o Espírito’...
O mesmo processo ocorre com o pesquisador: quanto mais se aprofunda na interpretação hermenêutica, assim como na observação do fenômeno de pesquisa e dos próprios sujeitos, mais reconhece a necessidade do estudo para que sua pesquisa adquira um maior sentido: primeiramente para si mesmo, e depois para a comunidade acadêmica. Sobre isso, Freire, P. (1997, p. 74-75) dedicou anos de sua pesquisa:
O meu respeito de professor à pessoa do educando, à sua curiosidade, à sua timidez, que não devo agravar com procedimentos inibidores exige de mim o cultivo da humildade e da tolerância. Como posso respeitar a curiosidade do educando se, carente de humildade e da real compreensão do papel da ignorância na busca do saber temo revelar o meu desconhecimento? Como ser educador, sobretudo numa perspectiva progressista, sem aprender, com maior ou menor esforço, a conviver com os diferentes? Como ser educador, se não desenvolvo em mim a indispensável amorosidade aos educandos com quem me comprometo e ao próprio processo formador de que sou parte? Não posso desgostar do que faço sob pena de não fazê-lo bem.
O autor ainda corrobora com o sentido atribuído à humildade pela Teoria da Interdisciplinaridade, ao afirmar que esta atitude exprime uma de suas raras certezas, a de que ninguém é superior a outrem. Por isso, a humildade não pode exigir de quem a possui uma atitude submissa à arrogância e ao desrespeito. Pelo contrário: quando não é possível reagir à altura a alguma afronta, a humildade permite ao educador o seu enfrentamento com dignidade. “A dignidade do meu silêncio e do meu olhar que transmitem o meu protesto possível” (FREIRE, P. 1997, p. 137).
O princípio da humildade permite que a esperança jamais se apague da visão do professor e do pesquisador, pois ela apresenta, em si mesma, uma característica otimista. Matos (2001) também elaborou uma metáfora visual representativa do sentido a ela atribuído pela Teoria da interdisciplinaridade. Para ele, este conceito deveria ser expresso na forma de dois triângulos, um apontado para cima e outro para baixo, demonstrando, com isso, a atitude manifesta no conhecimento e em cada situação enfrentada pelo