Até aqui, a atenção tem sido especialmente dirigida à exposição ocupacional resultante da manipulação de fármacos citotóxicos que são na sua maioria, em ambiente hospitalar, preparações IV. No entanto a medicação oral é também responsável por uma parte da exposição. Embora tenha havido um aumento significativo na disponibilidade e uso de agentes quimioterápicos orais, as diretrizes em torno da sua manipulação segura ainda estão em evolução.67 Durante a última década,
a auto administração de quimioterapia oral aumentou devido à disponibilidade de novos agentes terapêuticos. Inúmeras vantagens estão associadas à terapêutica oral, desde lodo ao aumento do controlo e conveniência para o doente, um aumento significativo na qualidade de vida e diminuição nos custos de transportes e utilização de serviços de saúde.67,68 Apesar de todas estas vantagens, é imperativo salientar que há múltiplos
fatores associados à terapia oral que pode comprometer a segurança do doente e contribuir para erros médicos, contaminação e exposição inadvertida de outros indivíduos.67,69 A quimioterapia, por ter uma margem terapêutica muito estreita está
associada a riscos aumentados para efeitos adversos. Em contraste com a administração em instituições de saúde, onde a dose e a resposta à terapia estão sujeitos a vários níveis de avaliação, a administração realizada pelo doente ou o cuidador (geralmente um familiar ou amigo que se responsabiliza por dar assistência ao doente) está mais suscetível a erros, à não adesão à terapêutica e a um aumento de efeitos adversos. Embora não haja atualmente publicações comparando os erros ocorridos entre terapia oral e IV, os problemas conhecidos relacionados com a terapia oral incluem dosagem
incorreta, monitorização limitada que pode levar a subdosagem ou sobredosagem, toxicidade severa, morbilidade e mortalidade.67
Ainda que a quimioterapia oral esteja associada à facilidade de administração, tem os mesmos riscos de exposição para os profissionais de saúde, doentes e seus cuidadores que as formulações IV, e porque é administrada em casa, para as famílias dos doentes. Há no entanto a ideia errada que, em geral, o risco de exposição a este tipo de formulação é baixo e por isso a quimioterapia oral representa um baixo risco e é segura de manusear.67 É de extrema importância que os fabricantes, distribuidores e
doentes sigam com rigor as recomendações internacionais de modo a manusear com segurança estes fármacos e consequentemente diminuir os riscos de exposição.67
3.10.1. RECOMENDAÇÕES PARA FABRICANTES E DISTRIBUIDORES
O primeiro passo para a manipulação segura dos agentes citotóxicos orais começa nos fabricantes; desempenhando por isso um papel vital. O embalamento apropriado pode minimizar o manuseamento de fármacos perigosos pelos prestadores de serviços de saúde e por isso, contribuir para aumento da segurança. Isto inclui rotulagem clara no exterior da embalagem indicando que se trata de uma substância citotóxica. Idealmente, os fabricantes deveriam embalar apenas o número de cápsulas ou blisters equivalentes a um ciclo de terapia. O problema está no facto de que estão a surgir constantemente novos regimes terapêuticos. A solução seria então o embalamento por dose unitária. Cada um destes passos diminui significativamente o manuseamento direto das substâncias citotóxicas. Os profissionais de saúde devem ser encorajados a reforçar a importância destas medidas às entidades interessadas e agências reguladores sempre que possível.67
3.10.2. RECOMENDAÇÕES PARA OS PROFISSIONAIS DE SAÚDE
Os profissionais de saúde têm uma responsabilidade acrescida em assegurar uma manipulação segura da quimioterapia oral. Devem por isso estar devidamente treinados, assegurar que os seus conhecimentos estão de acordo com as evoluções que a ciência sofre, e seguir as guidelines mais recentes relativas à manipulação de quimioterapia oral.67
Como recomendado na maioria das guidelines, os profissionais de saúde devem participar em programas de formação de rotina e cursos de treino específico para as
suas funções. Estas ações têm o objetivo de garantir que o doente recebe informação/educação consistente, treino e monitorização por parte do farmacêutico. Devem também ter conhecimentos e treino competente para agir numa situação em que o doente sofre acidentalmente exposição a medicação citotóxica. Todas as classes profissionais que contactem direta ou indiretamente com quimioterapia oral ou resíduos de doentes que receberam tratamento devem também receber treino específico. Geralmente é pouco óbvio, mas é muito importante o treino destas classes profissionais não relacionadas diretamente com a prestação de cuidados de saúde.67
No que respeita ao armazenamento, os profissionais responsáveis devem agir de acordo com o protocolo estabelecido na instituição.67
As colaboradoras que se encontrem grávidas devem evitar ao máximo o manuseamento de fármacos citotóxicos, ainda que seja difícil muitas vezes assegurar um substituto.67
Outro problema está relacionado com a limpeza de materiais não descartáveis expostos a citotóxicos. Estão incluídos tabuleiros, ferramentas e superfícies. A limpeza das superfícies e ferramentas expostas a estes agentes tem sido limitada à lavagem com detergente e água, e posterior descontaminação com álcool a 70° ou hipoclorito de sódio; em algumas instituições de saúde, a limpeza nem ocorre. O risco de contaminação de outros medicamentos, profissionais e doentes é muito alto. Há alguns agentes de limpeza que têm sido discutidos, mas até hoje ainda não há um consenso internacionalmente aceite.67,70
Relativamente aos conhecimentos dos doentes acerca de quimioterapia. Deveriam ser realizadas avaliações periódicas de modo a verificar se a informação está a ser corretamente transmitida pelos profissionais de saúde e se os doentes a estão a reter convenientemente. É também importante ter informação relativa ao estilo de vida e hábitos alimentares do doente de modo a identificar possíveis casos de interação e efeitos adversos daí resultantes.67
Os cuidadores devem perceber toda a informação fornecida ao doente. Cabe ao profissional de saúde assegurar que a informação é transmitida de uma forma passível de ser percecionada tanto pelo doente como pelo cuidador. Deve haver um trabalho de equipa entre profissional de saúde, doente e cuidador de modo a que a administração seja segura, correta, e se houver um afeito adverso, que seja notificada o mais
rapidamente possível. Caso o cuidador seja uma mulher grávida ou a amamentar não deve contactar diretamente com a terapêutica ou com os resíduos resultantes.67
Devido ao facto de os fármacos ou os seus metabolitos poderem ser eliminados do organismo através da saliva, urina e outros resíduos biológicos, a roupa dos doentes deveria ser lavada à parte e manuseada com recurso a luvas.67
A quimioterapia oral tem vantagens e desvantagens distintas quando comparada com a quimioterapia IV. Ainda que a responsabilidade recaia em último caso sobre o doente e o cuidador, é importante que todos os membros da equipa prestadora de cuidados de saúde se assegure de informar e treinar da melhor maneira para garantir o manuseamento mais seguro possível das substâncias citotóxicas.67