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DUAP Report

In document WGDIM10.pdf (491.5Kb) (sider 31-39)

O interesse inicial de Max em investigar e reafirmar a alta posição hierárquica dos Inapé-porã nos levou a informações distintas nos relatos e nas fontes pesquisadas. O considerável material a respeito da classificação hierárquica dos tukano deve ser considerado, em minha opinião, algo sintomático da importância que o grupo vincularia a este tema. Se a quarta posição dos Inapé-porã foi “comprovada” por alguns relatos e documentos, a legitimidade das falas e agenciamento sobre seus conteúdos pareceu estar intimamente ligada às dinâmicas dos clãs em sua “produção” da hierarquia. A afirmação de um ponto de vista, contextos políticos específicos, ou seja, uma série de variáveis comporia este processo de diferenciação. Os relatos coletados e a bibliografia revisitada não elucidaram o nome cerimonial dos Inapé-porã e, embora o nome Yeparãsui tenha sido mais de uma vez referenciado na quarta posição em listas que não faziam referência aos Inapé-porã, Max afirmou que esta informação deveria ser confirmada com mais cuidado. A participação dos integrantes Ki’mâro-põ’ra merece destaque por conta da última colaboração de Eusébio Freitas, já que meses após nossa visita ele veio a falecer. Finalmente, ainda em relação às narrativas tukano, Isidro fez uma crítica ao

registro dos Oyé dizendo que “se esqueceram de falar do início”, algo que ele estaria realizando com a ajuda de um antropólogo20.  

O pouco material coletado sobre o posicionamento hierárquico dos Inapé-porã talvez seja compensado pela pesquisa das obras de outros antropólogos e autores indígenas. O material publicado aliado ao contato com informantes de clãs distintos dos

Inapé-porã, o clã Kimaro-porã, por exemplo, permitiu-nos, por sua vez, tecermos

breves considerações acerca de algumas dinâmicas aparentemente próprias do contexto que envolve a atual busca por registros escritos de suas narrativas. O reconhecimento da legitimidade do narrador, a validação do conteúdo das narrativas, o contexto político específico em que se inserem os grupos em questão, entre outras, são fatores inquestionáveis. Sobre o avanço e o resultado da pesquisa junto ao clã de Max, uma fala de Faustino sintetiza: “ainda estamos nas primeiras letras, acabamos de começar a

escolinha”.

Como vimos, a grafia dos nomes dos clãs difere-se de uma lista para a outra. Na maioria dos casos é possível verificar que nomes graficamente distintos referem-se a um único clã. Foi o caso dos Inapé-porã, por exemplo. A posição alternada de um mesmo clã também ficou evidente. A referência à presença do clã Waú-ro porá em Ananás indica, no limite, que há muito sobre o que pesquisar. Para Christine Hugh- Jones (1979) as credenciais de um clã estão associadas à sua relação com o passado ancestral e ao controle de um conjunto de objetos rituais. A legitimidade de pleitos por status estaria atrelada a existência ou não desses elementos. Nesse sentido, parece-me interessante observar em que medida a preocupação de Max em esclarecer a posição correta de seu clã reatualizaria, em um contexto que envolve, entre outras coisas, a publicação de narrativas e a formulação de documentos com fins políticos específicos, o contexto ritual observado pela autora. Max não se referiu em momento algum à posse de ornamentos e flautas pelos membros de seu clã.  

Acredito que estas listas, mais do que solucionar ou esclarecer a posição correta do clã de Max na hierarquia tukano, sejam indicativas dos mecanismos de diferenciação interna existente entre os Ye’pâ-masa num contexto relacionado, especificamente, à atribuição de nomes e posição hierárquica a seus grupos formadores. A criação de uma categoria interna, como é o caso da referenciada “classe nobre” na       

lista da família Machado, talvez seja sintomática. Ademais, se estes instrumentos masculinos sagrados do passado garantiam as credenciais de um clã, a publicação desses registros não figuraria como os instrumentos atuais neste processo? De qualquer forma, uma dinâmica específica parece-nos evidente: a articulação de elementos, aparentemente, distintos – arcabouço mítico-histórico, livros, política indígena – na produção da hierarquia tukano.

Em minha opinião, a expressão “primeiras letras” utilizada por Faustino revelaria uma dinâmica muito particular de produção e circulação de conhecimentos; um grupo que tenta recompor o conhecimento de sua trajetória buscando informações de outros grupos e a ajuda de um antropólogo. É também interessante pensar nos efeitos sociopolíticos evidentes que esta “pesquisa” irá proporcionar. Se as “primeiras letras” foram reconstruídas, o que se seguirá a partir de então? Ou ainda, a partir de que termos os interessados irão considerar essa (re) construção finalizada? A fala de Isidro sobre a narrativa dos Oyé de que este grupo “se esqueceram de falar do início”, também é interessante. Em ambas as falas, parece-nos presente uma ideia de não atribuir fim ao que se está investigando.

Mas a dinâmica específica utilizada pelos Inapé-porã parece introduzir outros elementos à construção dessas narrativas. Por que haveriam os Inapé-porã de contar com membros de outro grupo para reafirmarem sua posição hierárquica? Algo que revelaria um processo de construção de afirmação de ponto de vista compartilhado. Acredito que o fato dos Kimaro-porã ser um clã com reconhecida legitimidade não esgota esta questão. Mais de uma vez, Max, em nossas conversas, indicou o nome de membros de outros grupos que poderiam ser consultados. Foi o caso de Renato Matos, importante liderança indígena. Apesar de não revelar o nome de seu clã, Max disse que ele poderia “confirmar”, principalmente, a posição dos Inapé-porã. Outro nome citado foi o de Lino, um morador, já idoso, do Papuri que poderia, segundo Max, indicar o lugar específico dos Inapé-porã antes da dispersão para o baixo Uaupés. Infelizmente, não foi possível contatar nenhum desses outros dois informantes. O que nos parece interessante, no entanto, é a indicação de Max sobre diferentes personagens que deteriam conhecimentos específicos sobre seu clã.

A contribuição de Isidro e, posteriormente, Eusébio Freitas, embora tenha sido sugerida pelo antropólogo, não foi algo acordada a priori e coube a Max, no limite,

avaliar em que medida aquelas personagens poderiam contribuir ao que se pretendia “descobrir”. É exatamente esta nuance a que nos parece a mais interessante. Ou seja, quais mecanismos estariam implícitos neste processo de colaboração conjunta a respeito de trajetórias e posicionamento hierárquico, no caso Inapé-porã, de grupos específicos?

De imediato, somos levados a imaginar que uma série de contestações, críticas e contra-argumentações podem vir à luz sob o efeito de novas publicações, um contexto de crescente demanda por antropólogos dispostos a trabalhar em parceria com grupos específicos na produção de registros escritos – algo que se verifica na região de uma maneira geral. No caso específico que estamos tratando, me pergunto até que ponto a construção desses registros escritos vincular-se-ia somente à (re) afirmação de pontos de vista de grupos específicos. Ou melhor, além da afirmação de um ponto de vista específico, não estaria aí algo relativo à construção do grupo que envolveria, também, a visão de vários outros?

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