Finalmente, no cadastro para o Programa Primeiro Emprego, além de Caburé, 21 anos, que foi ao posto acompanhado pela mãe, entrevistamos os seguintes
jovens:
Bigodinho (18 anos, estudante, auxiliar de mecânico)44:
Bigodinho estava realizando o seu cadastro no dia da entrevista. Mas já tinha trabalhado em várias atividades: jardineiro, vendedor ambulante, auxiliar de mecânico, barman, copeiro; sempre por meio de vínculos temporários, alguns informais. Ele começou a trabalhar aos nove anos, vendendo picolés nas praias de Natal. Quando começou a trabalhar, ainda criança, Bigodinho, que tem os pais
separados, ainda morava com a mãe. O dinheiro adquirido serve para auxiliar nas despesas de casa:
[...] Eu pegava era pra mim mesmo e, às vezes, eu dava pra minha mãe comprar as coisas […]. E assim foi: de picolé eu passei a vender suco, pastel, essas coisas […]. Vendi muita coisa na praia. Aí, eu fui tendo conhecimento; aí, eu fui me dedicando a outros trabalhos.
O jovem mora atualmente com o pai e pretendia conseguir algum emprego para ajudar na renda familiar e ter o seu próprio dinheiro. Trabalhando desde a infância, Bigodinho não tinha pretensões de continuar a estudar após o término do ensino médio; no período da entrevista, cursava o segundo ano. Do mesmo modo, não esperava freqüentar cursos profissionalizantes, pois acreditava que bastava dedicar-se ao trabalho e, assim, justificou a sua posição:
Porque, às vezes, Deus dá um dom. Deus dá um dom a todos nós. Só basta a gente se dedicar. Porque… o que é que adianta: eu ter um dom e não me interessar pela coisa? Esse negócio de curso… Esses cursos, assim, são pra incentivar você a ter um trabalho na vida. Agora, se você tem um dom, você vai fazer aquilo… Pronto.
Ele havia ido ao SINE sozinho e por vontade própria. O seu maior lazer era dançar quadrilha, pois fazia parte de um grupo de dança localizado no bairro Cidade da Esperança, onde morava.
Beija-flor (19 anos, estudante, sem profissão definida)45:
A jovem Beija-flor decidiu trabalhar para “ter seu próprio dinheiro”, para conquistar a sua “independência financeira”. Pensava fazer vestibular para o curso de Medicina. Ela estudava numa escola de supletivos para recuperar um ano escolar que havia perdido por ter acompanhado os pais numa viagem a outro estado, em
função de um caso de doença na família. O pai dela era pedreiro e a mãe trabalhava como costureira em casa.
Assim como pôde ser observado noutras entrevistas, a jovem demonstrou constrangimento ao falar da atividade dos pais. No caso de D. Coruja, como já vimos, ela definia os pais como pessoas “sem cultura”. O trabalho manual é comumente visto como atividade inferior, inculta, e aqueles que dele se ocupam são pessoas que têm pouco a oferecer. Os trabalhadores que não estudaram, que vivem de ocupações manuais e/ou que tiveram os seus pais ocupados em atividades que exigiam baixa qualificação, ao revelarem como compreendem esse tipo de trabalho, estabelecem uma diferenciação: trabalho manual versus trabalho intelectual. Essa distinção é a ponta de um problema maior: o preconceito com o trabalho manual, enraizado na história brasileira e no imaginário social, como inferior, sujo, pesado, degradante e destinado aos escravos. A expectativa depositada nos filhos, nesses casos, quase sempre é inversa: espera-se que estudem e, assim, possam conseguir um trabalho menos duro, mais seguro, através dos títulos: os diplomas e certificados de qualificação, que se tornam sinônimos de cultura e civismo.
Dois elementos importantes podem ser destacados a partir dos relatos das entrevistas: as famílias, como a do Sr. Curió, criam estratégias de sobrevivência baseadas na ajuda mútua, para manter e sustentar os filhos, possibilitando que esses concretizem o que aqueles não puderam realizar: estudar, conquistar um emprego estável e “se dar bem”, como aparece na fala do jovem Caburé. Esse resultado é idealizado com base na esperança de mobilidade social e no alcance de novos patamares de qualidade de vida. No caso da jovem Beija-flor, de acordo com o seu relato, os seus pais preferiam que ela não ingressasse ainda no mercado de trabalho e, sim, prosseguisse os estudos. Entretanto, na tentativa da construção da
independência financeira – elemento que surge como fundamental e primário para a elaboração de uma identidade própria dos jovens –, Beija-flor optou pela ocupação profissional e, por isso, havia procurado o SINE espontaneamente.
Sabiá Laranjeira (18 anos, sem profissão definida)46:
Sabiá Laranjeira tinha ido ao posto, porque havia recebido uma ligação do SINE para que ela se apresentasse, pois havia surgido uma oportunidade de trabalho. Ela decidiu trabalhar também para ajudar na renda familiar. A sua mãe faleceu há cerca de um ano e meio. Na época da entrevista, morava com o pai e mais três irmãs. A única renda da família advinha dos trabalhos temporários do pai. Assim como noutros casos, Sabiá Laranjeira era incentivada a prosseguir nos estudos por seu pai, que não havia chegado a completar o ensino fundamental. No entanto, não era essa a sua pretensão, e também não sabia com o que gostaria de trabalhar. Ela se cadastrou para diversas atividades e relatou que não tinha qualquer expectativa futura, pois estava esperando o que aparecesse.
Nenhum dos três tipos de cadastro, pelo que vimos, é homogêneo. Há diversos perfis de trabalhadores, diversas situações de trabalho, mas que acabam configurando um quadro de histórias e dificuldades comuns. O SINE recebe jovens que buscam o primeiro emprego formal, mas que já trabalharam antes; há trabalhadores empregados formalmente que possuem cadastrados no EPA, a fim de conseguir os “bicos” e melhorar a renda. Entre os cadastrados no SIGAE, também existem trabalhadores que buscam atividades fora do SINE.
O posto acaba atuando no envio de trabalhadores e trabalhadoras urbanos para o mercado de trabalho, sejam eles qualificados profissionalmente através da educação formal e da participação em cursos profissionalizantes sejam
trabalhadores que nunca freqüentaram uma escola. O órgão funciona como mediador entre a sociedade e o mercado, na constituição de relações de trabalho permanentes, no caso dos empregos formais por tempo indeterminado, ou temporárias, no caso das jornadas curtas, como diárias ou contratos com tempo determinado. As ocupações oferecidas pelo SINE também são diversas, assim como os tipos de contrato e relações de trabalho.