4 Thematic and scientific priority areas
4.1 Driving forces, trends and challenges in Europe’s/the EU’s political development
O primeiro grande comício do ano de 1984 aconteceu em Curitiba no dia 12 de janeiro. No dia anterior a Folha de S. Paulo anunciou como foram os preparativos para o ato público.
A divulgação do comício contou com a distribuição de 2 milhões de panfletos lançados de avião sobre as cidades paranaenses, 500 mil volantes e 10 mil cartazes. A prefeitura de Curitiba disponibilizou 110 ônibus para transportar a população dos bairros periféricos da cidade. Foram instalados um palanque de 150 metros quadrados, 58 caixas de som e uma urna de 1,5 metro de diâmetro por 2 metros de altura para a simulação das eleições diretas (FSP, 1984, p. 4).
Além disso, 15 inserções „comerciais‟ de TV foram vinculadas na TV Iguaçu, do ex-governador Paulo Pimentel, pois a TV Globo recusou-se a transmitir as chamadas mesmo como matéria paga, conta o ex-governador Hélio Duque (LEONELLI & OLIVEIRA, 2004, p. 343).
7 O termo “comícios monstros” foi bastante utilizado na época para denominar as gigantescas
Os preparativos para o comício realizado no dia 12, a partir das 18h30, na Boca Maldita, centro da capital paranaense, foram encerrados na noite do dia 11, “Com uma grande passeata na rua das Flores, liderada pelo Senador Álvaro Dias, presidente do PMDB do Paraná, e pelo prefeito de Curitiba, Maurício Fruet” (FSP, 1984a, p. 5).
Participaram da divulgação do comício “52 entidades, entre as quais a Ordem dos Advogados do Brasil, a Comissão de Justiça e Paz e as Federações dos Trabalhadores na Indústria e da Agricultura, além do PT e PDT” (Ibidem, p. 5), as quais, nos três dias que antecederam o ato público, deram grande impulso à divulgação.
No dia do comício, a prefeitura de Curitiba disponibilizou 130 ônibus, 20 acima dos prometidos anteriormente. Do interior do estado, 100 ônibus levaram para a capital milhares de manifestantes.
De onde saíram os recursos para a realização do comício? O governador José Richa negou a utilização da
[...] máquina administrativa para a campanha pelas diretas como acusaram deputados pedessistas, lembrando que a coordenação vem sendo feita pelo PMDB e que nada impede o partido de convocar a população para comparecer maciçamente à praça (FSP, 1984, p. 4).
Não faremos coro com os deputados pedessistas, mas sabemos, pela entrevista de Mauro Montoryn anteriormente apresentada, que o financiamento para a organização dos comícios vinha das agências de propaganda que tinham vínculos com os governos que apoiavam as diretas; indiretamente os atos públicos foram financiados pelos governos estaduais ligados ao PMDB e ao PDT.
A Folha de S. Paulo comemorava o comparecimento de, aproximadamente, 50 mil pessoas ao ato público de forma pacífica e festiva e anunciava:
Sem qualquer incidente, as ruas centrais da capital paranaense foram ocupadas pela multidão, que ouviu os governadores do Paraná, José Richa; de São Paulo, Franco Montoro; de Minas Gerais, Tancredo Neves; o presidente nacional do PMDB, o deputado Ulysses Guimarães, o locutor Osmar Santos, a atriz Beth Mendes, o ator Raul Cortez, o prefeito de Curitiba, Maurício Fruet e o compositor Martinho da Vila (BRICKMAN, 1984, p. 6).
A forma de organização dos comícios, os oradores, os dizeres estampados nas camisetas, a cor predominante, as palavras de ordem definiam como viria a ser a campanha Diretas Já a partir do comício de Curitiba.
No meio da multidão, a cor predominante era o amarelo: amarelo das camisetas com as inscrições “Quero votar para presidente”.
“Eleições diretas”; “Mais Sexo, Mais Amor”; “Queremos Votar para Presidente”.
“Um, dois, três/quatro, cinco, mil/Queremos eleger o presidente do Brasil” (Ibidem, p. 6).
Vejamos o que disseram os oradores:
No palanque a animação crescia. O governador Franco Montoro deu os parabéns ao Paraná e a Curitiba por terem iniciado a campanha pelas diretas. Os governadores Richa e Tancredo Neves relembraram a falta de legitimidade do Colégio Eleitoral. O senador paranaense Álvaro Dias foi mais longe: “Essa manifestação que fazemos vai abalar os cochichos desse Colégio Eleitoral espúrio”. E Ulysses Guimarães, que encerrou o comício, atirou com todos os canhões: “Vamos tomar essa bastilha nojenta e repugnante que é o Colégio Eleitoral”. “O Colégio Eleitoral é um câncer que está apodrecendo a política e matando a Nação. O Colégio Eleitoral representa fome e desemprego”. “A mão estendida do presidente Figueiredo não tocou as mãos desesperadas dos brasileiros desempregados” (Ibidem, p. 6).
A deputada federal Beth Mendes (PT-SP), representante do partido no
palanque, não desafinou e seguiu no mesmo diapasão. Ela afirmou que “Aqui não
há divisão de partidos. Nossos inimigos não são outros partidos de oposição: os inimigos estão no Palácio do Planalto. Então, vamos tirar eles de lá” (Ibidem, p. 6).
O comício transcorreu na maior tranquilidade. Só houve um incidente, “durante o discurso do prefeito da cidade, Maurício Fruet, do PMDB, que, de tão entusiasmado com sua fala, acabou engolindo uma borboleta. “Lívido, Fruet conseguiu terminar o discurso. „Acho que foi praga do Maluf‟, comentou” (VEJA, 1984, p. 20-22).
A reação do governo federal ao comício de Curitiba apareceu horas antes da realização do ato público.
“Que comício? Ninguém sabe onde é”. Assim o porta voz do Palácio do Planalto, Carlos Átila, referiu-se à tarde, em Brasília, ao comício pró- eleições diretas, realizado no começo da noite em Curitiba. Com ironia, ele comparou a manifestação à dança índia para fazer chover. “Uma coisa não
acontece por causa da outra. O governo considera que o comício não é o meio hábil para se chegar às eleições diretas” (FSP, 1984b, p. 1).
A Rede Globo de Televisão não noticiou o comício de Curitiba, assim como já havia feito ao longo do ano anterior: silêncio absoluto sobre as propostas e manifestações a respeito das eleições diretas para presidente da República em 1985.
A empresa de Roberto Marinho pagava mais esse tributo aos militares, com os quais manteve relação de estrita lealdade, em troca dos vultosos investimentos realizados pelos governos ditatoriais em telecomunicações, os quais permitiram a uma pequena empresa de comunicação, até 1965, tornar-se a maior emissora de televisão do país, conseguindo interligar, em 1969, norte e sul, leste e oeste do país através do primeiro noticiário diário em rede nacional.
No período anterior a 1979, a Rede Globo poderia alegar que fora forçada pela censura governamental, porém em 1984 “não havia mais censura explícita. Tratava-se de uma decisão política tomada pela família de Roberto Marinho, sob pressão do governo militar” (LEONELLI & OLIVEIRA, 2004, p. 347).
A Folha, a oposição burguesa e o grosso da burguesia brasileira e internacional tinham motivos de sobra para festejarem. Um comício que reuniu 50 mil pessoas, não proferiu nenhuma palavra contra o regime capitalista ou contra a exploração do trabalho. O máximo que foi dito em relação aos trabalhadores foi que o Colégio Eleitoral e, portanto, a ditadura militar era responsável pela fome e o desemprego. A oposição burguesa cumpria seu papel de representante do capital e mantinha a manifestação dentro da estrita ordem burguesa. A principal insígnia que animou o comício confirma a condução pacífica do comício: “Quero Votar para Presidente”.
Entre os comícios “monstros” de Curitiba e de São Paulo, realizado no dia 20 de janeiro, aconteceu o ato público em Salvador, que contou com a participação de, aproximadamente, 15 mil pessoas. Qual a diferença entre o comício realizado na capital baiana e os das capitais paranaense e paulista?
Mais uma vez a entrevista de Mauro Montoryn, concedida a Domingos Leonelli (DL) e Dante de Oliveira, é esclarecedora.
DL – O que era a preparação de um comício? Como essa coisa era organizada?
MM – Uma diferença básica: os locais onde nós éramos governo e os estados onde não éramos governo. Uma coisa era o processo que envolvia a preparação de um comício em um local que éramos governo. Eu lembro que em São Paulo tinha mais ou menos sessenta pessoas operando. Cada uma responsável por um setor. Montagem de palanque, montagem de som, logística, transporte, comunicação, segurança, para cada uma dessas montava-se uma equipe.
DL – Mesmo assim, o primeiro comício de São Paulo não atendeu, em termos de som, por exemplo, nem um terço da praça.
MM – Não. O problema era a expectativa. Ele estava dimensionado para determinada ocupação e superou as expectativas. Quando nós éramos governo, tinham as secretarias de comunicação participando, do estado e da prefeitura. Ou seja, as empresas de turismo, as empresas de ônibus, as empresas de transporte...
DL – A campanha não teria a dimensão que teve se não tivesse o apoio dos governadores dos estados?
MM – Eu acho que se formou a estrutura da campanha das Diretas, inclusive aí, a condição econômica, a partir do apoio dos governadores (Ibidem, p. 360).
Eis aí mais uma vez revelados os limites da campanha Diretas Já. Aqueles que financiaram a estrutura para realização das grandes manifestações faziam parte da burocracia de Estado e, portanto, não tinham nenhuma pretensão de mudar as estruturas do sistema; tudo se reduzia à mudança do regime político. As classes populares lotavam as ruas e praças, mas não deveriam participar diretamente das mudanças políticas; isso estava reservado para as “elites” políticas, que sabiam como governar o país.