Apresentamos aqui, nossa análise das hipóteses que levantamos ao responder o questionamento desta tese : “Com a sisudez e o conservadorismo da academia, necessários a credibilidade das divulgações de resultados das pesquisas, como podem estar sobrevivendo estes pesquisadores de temas polêmicos, já que as bolsas são escassas?”
Foram três as hipóteses, enumeradas a seguir:
1- Alguns pesquisadores estão se auto financiando, e criando independência do seu trabalho.
2- A verba de pesquisa pode vir do mercado privado altamente capitalista, que vislumbra algum retorno financeiro advindo do resultado da mesma.
3- Tornando a pesquisa popular, de forma a obter apoio da população, o que justificaria e pressionaria a continuidade da mesma.
No decorrer da nossa pesquisa, percebemos que a maioria dos pesquisadores que trabalham com temas polêmicos, está usando a hipótese 3, de torná-la popular, para conseguir chamar a atenção, com ações de marketing criativas, e provocar discussões, de maneira que órgãos de fomento, possam justificar a destinação de verbas para o tema.
Por outro lado, a aceleração exponencial da tecnologia, que está mudando a forma de divulgação, está ajudando a discussão dos temas, pois a participação de uma número cada vez maior de pessoas, está atraindo pessoas com todos os níveis de formação científica, interagindo com a elite científica.
Nosso trabalho, portanto, apoiou sua pesquisa nesta terceira hipótese, que nos pareceu a mais interessante e a mais perseguida pelos pesquisadores.
Também o fato de tornar popular a pesquisa, com ações de marketing, podem desaguar na hipótese 2, ou até em alguns casos se tivermos um pesquisador empreendedor, utilizar-se da hipótese 1.
Passamos então a analisar as três hipóteses com base neste nosso trabalho.
Hipótese 1 : Alguns pesquisadores estão se auto financiando, e criando independência do seu trabalho
127 Este caminho foi trilhado por Ray Kurzweil, quando utilizava as receitas de suas empresas para pesquisar a Inteligência Artificial, que foi mostrado na página 106.
Ele se aproveitava também dos direitos autorais obtidos com seu best-sellers, citados na página 110.
O grande salto de suas autofinanciadas pesquisas, foi a criação da Universidade da Singularidade (S.U.) página 112. Quando foi seu primeiro reitor, poderia se dedicar aos seus estudos e ao mesmo tempo, trabalhar o seu lado empreendedor.
Hipótese 2 : A verba de pesquisa pode vir do mercado privado altamente capitalista, que vislumbra algum retorno financeiro advindo do resultado da mesma.
Não trabalhamos muito com esta hipótese nesta tese, mas citamos alguns como Craig Venter , que recebeu 300 milhões de dólares da Exxon para criar biocombustíveis através de algas microscópicas , na página 113.
Outra citação foi o projeto Calico, que quer retardar o envelhecimento, descrito na página 74.
Hipótese 3 : Tornando a pesquisa popular, de forma a obter apoio da população, o que justificaria e pressionaria a continuidade da mesma.
Esta hipótese, foi a mais trabalhada nesta tese, pois além de mostrar como está acontecendo a popularização da divulgação científica, transformando as quase que em relatos jornalísticos, ilustramos a corrida pela obtenção de verbas de pesquisa, com argumentos de pressão popular, em busca de certas respostas.
Utilizamos formas diferentes de relato do tema imortalidade, misturando textos conforme a tradição da academia e as outras formas que estão atingindo a mídia de massa.
Todo nosso capítulo 1 – Advento do Pós-humanismo e do Pós- humano, foi escrito conforme normas acadêmicas, onde procuramos fundamentar nossos resultados de pesquisa, com citações de autores consagrados. Houve uma certa facilidade nesta pesquisa por identificarmos uma farta literatura e também pelo fato de a pesquisa cobrir algumas décadas (De 1920 até os dias de hoje- a primeira década do século XXI).
Já o capítulo 2, foi predominantemente baseado em artigos do Sciam, analisados e aprovados por um conselho editorial rigoroso, que preservou a credibilidade e a ética, aparando os excessos e ufanismos futurológicos. Isto se tornou possível porque o
128 desenvolvimento tecnológico estava a uma velocidade possível de acompanhar. Para os eventos científicos mais atuais, e principalmente a partir de 2014, tipicamente entrelaçados na base GRN, utilizamos principalmente a internet como fonte de pesquisa, porque a literatura tradicional ainda não está disponibilizada. Existe nesta parte do texto algo muito próximo de um conteúdo jornalístico, evidentemente com credibilidade, mas que ainda não foi para publicação tradicional, devido à grande velocidade e quantidade em que estão aparecendo. Estas pesquisas de internet usam colunas científicas de blogs de centros de pesquisas ou como mostramos no tópico “A velocidade das descobertas científicas”, onde apresentamos a compilação das novas descobertas relacionadas a GRN, que foram divulgadas durante o mês de abril de 2014 no site http://www.kurzweilai.net.
No capítulo 3 – Imortalidade, utilizamos um ponto de vista de Ray Kurzweil, presente em seus livros de futurologia onde a imortalidade é defendida como consequência da evolução tecnológica. Evidentemente, utilizamos aqui uma linguagem própria desenvolvida por Kurzweil, que mistura hipóteses, afirmações e crenças próprias.
Mostramos também um exemplo de comunicação e divulgação científica totalmente alheio ao meio acadêmico, onde se utiliza a maior mídia de comunicação em massa que é a televisão. Nesta forma de apresentação, as imagens são a principal ferramenta, utilizadas em conjunto com comparações e metáforas para tornar didática a apresentação de assuntos científicos complexos. Mostramos o programa “Os grandes Mistérios do Universo com Morgan Freeman”, onde a imortalidade é apresentada com o título “Podemos viver para sempre?”. Selecionamos alguns trechos para ilustrar o uso desta linguagem:
As imagens mostram Michio Kaku, físico teórico do City College de New York, e um dos coautores da Teoria das Cordas, explicando a entropia. Ele coloca leite num copo de café. Esta mistura faz aumentar a desordem isto é aumenta a entropia. Retirar o leite do copo misturado é impossível. Mostra também uma caixa com várias bolinhas de duas cores azuis e laranja. Elas estão arranjadas perfeitamente: as azuis de um lado e as laranjas de outro. Imagine que cada bolinha representa um átomo. Se eu aplicar a 2ª.lei da termodinâmica isto ira entrar em desordem aumentando a entropia e virar um caos. Isto é, eu começo a vibrar a caixa e as bolas vão se misturando. Mas eu posso reverter o processo injetando energia externa que seria a ação de ficar separando as bolas com as mãos fazendo voltar à configuração original. No entanto, isto requer uma injeção constante, já que a caixa continua vibrando.
129 Outro exemplo é utilizado pelo físico de Oxford, Vladko Vedral, que tenta mostrar como a inteligência pode emergir de um sistema, que opera segundo algumas poucas regras básicas. Cita o jogo de xadrez, que é um jogo muito complexo, mas que é regido por algumas regras bem simples. São dezesseis peças de cada lado e cada peça pode fazer dois ou três movimentos. Podemos dizer o mesmo a respeito da vida, que é regida por duas ou três regras simples que podem gerar diversos tipos de padrões de comportamento no universo.
Nesta linha de divulgação popular, o próprio Michio Kaku tem programas na televisão, tais como “A física do impossível” e “Como funciona o Universo”, e o não menos famoso Stephen Hawking tem o programa “O mundo futurista de Stephen Hawking”. Até o português João Marqueijo usa de um programa especial “O Big Bang de João Marqueijo” para defender sua controversa teoria da variabilidade da velocidade luz.
As palestras no YOUTUBE estão cada vez mais sofisticadas devido a esta popularização da ciência. Esta nova forma de divulgação de avanços científicos realmente tem origem nesta necessidade de velocidade de comunicação e na barreira criada pela academia para assuntos controversos.
Mas principalmente, mostramos que não é somente a velocidade e a quantidade do desenvolvimento científico que está transformando a divulgação científica, em uma linguagem quase jornalística, utilizando se das mídias digitais mais populares.
Mostramos que por trás desta forma de divulgação que atinge a grande massa está a sobrevivência dos cientistas que se utilizam dela. Eles estão buscando e obtendo apoio popular, de forma a aguçar a curiosidade da massa e facilitar o desenvolvimento de pesquisas muitas vezes polêmicas, e que talvez não despertem o interesse da sisuda e formal academia e/ou menos ainda das enormes verbas de pesquisas das fundações; sem contar ainda as pesquisas das grandes empresas de cunho tecnológico envolvidas no GRN, que buscam o retorno dos investimentos através do lucro imediato.
Vemos nesta popularização o despertar da curiosidade do cidadão comum para estes assuntos científicos, cada vez mais arregimentando audiência e formando de alguma forma um nicho de espectadores, que começam a formar determinadas correntes de pensamento e opiniões. Este embasamento popular faz com que certos trabalhos científicos fiquem conhecidos e como consequência a obtenção das raras e procuradas verbas de pesquisa.
Um contrato publicado no Diário Oficial da União em 28 de julho de 2014, mostra exatamente o efeito do marketing e da pressão popular que citamos aqui. Trata-se de uma verba de 247,5 milhões de reais que o MEC (Ministério da Educação e Cultura) está concedendo ao Instituto de Ensino e Pesquisa Alberto Santos Dumont (IEPASD), uma
130 organização social ligada ao neurocientista Miguel Nicolelis para desenvolver na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), o “Campus do Cérebro”, ambicioso projeto de simulação das ondas cerebrais para comandar dispositivos eletromecânicos.
Este projeto é um dos mais polêmicos, e está provocando muitas discussões no meio acadêmico, porque além do tema ser extremamente complexo, o montante é mais do que um quarto de toda verba de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), incluindo aí, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), principal agência de fomento à pesquisa do governo federal.
Ele foi assinado exatamente duas semanas após o término da Copa do Mundo de futebol, realizada no Brasil, evento no qual Nicolelis na cerimônia de abertura, fez a demonstração de um exoesqueleto controlado pelo cérebro. Este evento tornou se uma imensa ação de marketing, e chamou a atenção da sociedade civil do mundo inteiro, o que tornou o projeto altamente popular e justificável .
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