5 | Results and Discussion
5.4 Environment 4: Bourgoyne and Young’s modelmodel
5.4.2 Drilling Test Case and Experimentation
Mies van der Rohe e Pier Luigi Nervi (1891-1979) esgotaram as possibilidades expressivas dos sistemas construtivos que empregaram. Através de abordagens do processo de projeto nas quais empregaram procedimentos derivados das ciências para a conformação em arquitetura, as formas resultantes tornaram-se demonstrações de teoremas. Estes deveriam ser capazes de ser lidos e apreendidos por qualquer um que sobre eles se debruçasse. Apenas o essencial estava presente. O "novo" surgiu precisamente da depuração formal efetuada a partir de uma abordagem científica. E assim eles colocaram um ponto final na história da evolução das formas que se utilizam destes sistemas: nada de novo foi feito com perfis I em aço depois de Mies, ou com estruturas em concreto depois de Nervi. Assim, a atitude das vanguardas históricas, antes compreendida como, segundo Arantes, “uma dessublimação libertadora” (ARANTES, 1998, p. 29), converte-se, enfim, “no seu contrário. Pois é da lógica contraditória dessa modernidade que a realização da visão utópica que ela mesma suscita culmine no seu oposto” (ARANTES, 1998, loc. cit.). Com o transcorrer do século XX, o que era uma libertação se transformou em um engessamento. A liberdade tornou-se dogma, método. Também essa abertura proposta no campo dos processos criativos, que ampliou os horizontes da atividade artística, através da conscientização e legitimação dos seus próprios limites e mecanismos internos, encontrou, por fim, seus limites. Esses mecanismos, uma vez tornados
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processos asseguradores de qualidade estética, perderam sua eficácia, em um processo que guardou semelhanças com o que minou a capacidade expressiva da linguagem clássica. Se foi a pesquisa sobre o processo, mais do que sobre as qualidades harmônicas ou compositivas do produto final, que fez brotar a diversidade criativa característica das vanguardas históricas, foi sua conseqüência, a codificação desse processo, que veio, por fim, aprisioná-lo, a partir da década de 40, no assim denominado "estilo internacional".
Essa etapa da história da arquitetura, como seu próprio nome indica, diz algo a respeito da globalização das formas de construir. Para um segundo plano, ficaram relegadas as preocupações com processos tradicionais de construção e especificidades dos terrenos e culturas para os quais os projetos de arquitetura eram elaborados. A instrumentalização dos processos científicos, ou seja, sua tradução para o campo que estuda a metodologia do projeto de edificações, levou os projetistas a uma aporia. Preocupada em estabelecer sistemas totalizantes no campo da projetação, ou seja, em definir um processo ou conjunto de ferramentas que pudesse ter a capacidade de ser utilizado em qualquer trabalho de gênese da forma, a metodologia da arquitetura buscou uma síntese de seus procedimentos. A arquitetura daí decorrente atravessou um período de repetições, passando a apresentar variações sobre poucos temas, e uma das principais causas da monotonia observada foi a falta de interesse com as especificidades dos lugares para onde os edifícios eram projetados, reflexo de um outro interesse: o de globalizar os procedimentos metodológicos. A fé na capacidade da arquitetura em fazer o laço entre o presente imperfeito e o futuro perfeito começou a ruir, uma vez observada a insatisfação gerada por métodos de projeto que desprezavam os aspectos contingentes aos quais a arquitetura deveria responder. Termos como "verdade estrutural" e "fidelidade à construção" passaram a ser vistos como parte de uma dramaturgia encenada pelos defensores do racionalismo estrutural que, ao privilegiar a essência em detrimento da existência, buscavam a idealidade da forma platônica. A nova postura transgressiva que surgiu como resistência a esse modo de conceber o desenho pressupunha mais uma "quebra [nesse] idealismo tradicionalmente ligado ao objeto desenhado pelo arquiteto", conforme as palavras de Picon (1985, p. 6-18).
Norberg-Schulz, ao discutir a respeito do fato de dever ou não um edifício refletir no exterior seus processos construtivos, crê não existir um procedimento que seja certo em detrimento de um outro, errado. Em comparação com o descrito no parágrafo anterior, essa é
uma postura então inovadora, já que surge em um cenário onde a moral ainda condicionava os procedimentos de projeto. Se, de um lado, Norberg-Schulz sugere que a "concepção lógica de um sistema construtivo em esqueleto conduz de forma natural a uma certa articulação devido ao fato de os materiais primários e secundários [estrutura e vedação] serem distintos", ele, por fim, conclui que "a exigência de uma 'sinceridade técnica' não tem caráter absoluto" e que "o problema é mais formal que técnico" (NORBERG-SCHULZ, 1979, p. 107).
3.12 O High Tech e a vanguarda institucionalizada
Procurando fazer com que o bem-estar material (aquele que a tecnologia pode suprir) possa ocupar o lugar do bem-estar compreendido em sua dimensão mais abrangente, o avanço tecnológico está hoje mais a serviço do sistema de produção de mercadorias do que do bem- estar do homem. Uma análise do uso da tecnologia construtiva pelos arquitetos e empresários que promovem a corrente High Tech em arquitetura torna notório o fato de que esse procedimento é mais movido pela transformação do objeto arquitetônico em produto comercializável (em que o valor de troca é mais importante que o valor de uso) do que por interesses reais em conforto ou na problematização (mais que especulação) estética como meio de questionamento dos valores em voga. Esses aspectos da tecnologia são abordados por Colquhoun em artigos que procuram desestabilizar o mito da tecnologia, ao apresentar, por exemplo, uma comparação entre dois edifícios High Tech, sendo um em Hong Kong e outro nos Estados Unidos. Nesse artigo (COLQUHOUN, 1991, p. 207-211), ele apresenta um tipo de regionalismo em que as regiões são identificadas com os países. Esse regionalismo está vinculado à promoção da ideologia e venda de imagens de poder e avanço tecnológico desses países e não guarda nenhuma relação com o regionalismo crítico proposto por Frampton e explorado mais adiante neste capítulo. Para Colquhuon, a arquitetura High Tech tem o objetivo primordial de demonstrar, através do uso de sistemas construtivos industrializados de alta tecnologia, que os países que a desenvolvem representam o que há de mais novo no universo da criatividade e produtividade, devendo, portanto, conservar a posição de vanguarda na produção de formas em arquitetura.
O sistema capitalista tardio26 insiste, dessa forma, em criar e institucionalizar “vanguardas” para dar continuidade e sentido a sua necessidade de produção do “novo”. Ao buscar esse novo e rejeitar de modo irrefletido o passado e seu potencial crítico, essas vanguardas institucionalizadas passam a organizar um sistema de valores com um forte empuxo em direção ao futuro, ainda ancorados na fé positivista.
Para o sistema capitalista, é importante a manutenção da idéia de progresso contínuo e linear da humanidade, levado a efeito por meio de uma sucessão de vanguardas também contínua e linear. O tempo é assim visto como uma flecha que aponta para o futuro (COVENEY, 1993). Este é construído (isto é, a idéia que dele se faz é elaborada no presente) como a possibilidade do paraíso, e percebe-se uma hierarquia que se inicia no passado, passando pelo presente, até alcançar o futuro. Constrói-se uma fila, dispondo uns na frente dos outros, países, pessoas, estados, instituições, escolas arquiteturais e períodos da história. Assim se cria uma falsa idéia de crescente aproximação a um suposto estado ideal.27 Importa que essa ansiedade por um futuro melhor seja cultivada, e que a sucessão de vanguardas não cesse.
Paralelamente a esse modo de compreensão do tempo, instala-se um processo de produção compulsória de vanguardas institucionalizadas que tem, como exemplo próximo a nós, as mostras anuais de decoração e arquitetura. Ali, assim como nos pavilhões dedicados às Exposições Universais na Europa da segunda metade do século XIX, mais que objetivos comerciais diretos, estão em jogo os objetivos de adestramento de uma faixa da população para o consumo. Aquilo que é apresentado como sendo as soluções mais modernas é cenário artificial que não guarda nenhuma relação com sua função ou construção. Nessas mostras, cada cômodo-cenário é devidamente guarnecido com uma orientadora que brinda o visitante com a codificação pronta, a fórmula fixa para uma única possível interpretação do ambiente. A função de um cômodo, nessas mostras, não é sugerir o abrigo de algumas das necessidades espaciais de nosso dia-a-dia, mas, colocada de modo mais sorrateiro, a inserção do cliente em um projeto de consumo definido à sua revelia. É informar para ele que é de determinada
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Essa expressão é utilizada por Jameson no título de seu livro, e na página 22 ele explora as razões da utilização da mesma (JAMESON, 2000a).
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O positivista não concorda com o fato de esse ideal, por sua própria condição, estar de uma vez por todas afastado do universo do real.
maneira (já imediatamente disponibilizada pelas casas e profissionais do ramo), e não de outra, que o bom gosto, elemento fundamental para a ascensão social, é alcançado.
Também fundamental, nessa hierarquização de valores arquitetônicos, é o estabelecimento de um sistema em que alguns profissionais de projeto de espaços são destacados como estando no mais alto grau da hierarquia do bom gosto. Esse sistema de estrelas (star system) hierarquiza e corporifica o ideal, disponibilizando-o para o desejo e para o consumo. Essa hierarquia é necessária e promovida pela ideologia do consumo (está continuamente sendo alimentada pela mídia através de concursos, revistas e mostras de arquitetura), em que arquitetos-estrela são detentores de um suposto talento especial que os mantém acima dos homens comuns (e dos projetos comuns) e guardam consigo o poder de proporcionar a seus clientes a sensação de alcançar aquele ideal que, desde já, não faz parte das coisas do mundo, sendo, por conseguinte, irrealizável. É interessante ainda observar que o que mantém coesa essa hierarquia é a imitação como processo de projeto e não a pesquisa: para o projetista deter algum lugar na pirâmide é necessário que ele imite aquele que se situa em degrau imediatamente superior.