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Para efetivar nosso estudo, levamos em consideração a oralidade vista sob o prisma educacional, numa concepção sociointeracionista e voltada para o aspecto

discursivo, no qual os gêneros textuais na modalidade oral são enfocados. Considerada sob essa ótica, encontra, nas aulas de língua portuguesa, o contexto ideal para oferecer aos alunos as experiências linguísticas que lhes favoreçam o aprimoramento do uso adequado da linguagem oral nas mais diversas situações comunicativas. Portanto, procuramos investigar qual o tratamento dado à oralidade durante as aulas de Português como língua materna.

Com uma abordagem qualitativa, o Estudo de Caso do tipo Educacional se configurou como estratégia principal que emoldurou o quadro central da nossa pesquisa, pois pretendemos buscar as informações diretamente com o grupo pesquisado, aproximando-nos da realidade para apreendê-la mediante a observação dos fatos presenciados. Dessa forma, o tipo de conhecimento baseado nas evidências dos dados constatados favorece uma melhor compreensão da ação educativa presente no objeto de estudo, podendo auxiliar na adoção de procedimentos que provoquem mudanças positivas no contexto das aulas de língua portuguesa.

Nesse processo, a observação naturalista das aulas de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental se caracterizou como um dos procedimentos para a coleta de dados. Segundo Vianna (2003),

A observação naturalista é feita no ambiente natural, como diz o seu próprio nome, e não procura manipular, modificar ou mesmo limitar o meio ou os comportamentos dos participantes. Há observação e registro do que efetivamente ocorre. (VIANNA, 2003, p.48).

Sendo assim, a sala de aula se configurou como o contexto mais apropriado para responder às indagações com respeito ao estudo da oralidade em aulas de Língua Portuguesa.

Concordamos com Stake, mencionado por Chizzotti (2008), quando explicita que o estudo de caso

[...] envolve a coleta sistemática de informações sobre uma pessoa particular, uma família, um evento, uma atividade ou, ainda, um conjunto de relações ou processo social para melhor conhecer como

visa a auxiliar tomadas de decisão, ou justificar intervenções, ou esclarecer por que elas foram tomadas ou implementadas e quais foram os resultados. (STAKE apud CHIZZOTTI, 2008, p. 135, grifos nossos)

De acordo com Gonsalves (2003, p. 67), o “estudo de caso é o tipo de pesquisa que privilegia um caso particular, uma unidade significativa, considerada,

suficiente para análise de um fenômeno” (grifos nossos).

O tema desse estudo de caso se conforma dentro da representatividade de um entre tantos outros casos que ocorrem nas aulas de língua portuguesa, o que, nas considerações de Kenny e Grotelueschen apud André (2005, p.29), deve ser um critério para a pertinência do estudo de caso. Esses autores mencionam que “a unidade vai ser escolhida porque representa por si só um caso digno de ser estudado, seja porque é representativo de muitos casos, seja porque é completamente distinto de outros casos”.

Na perspectiva de Gil (1991, p. 46), a pesquisa assume caráter descritivo e exploratório na medida em que, através das descrições, procura-se estabelecer a relação entre os procedimentos usados nas aulas de Português como língua materna, onde a oralidade tem lugar, e o aperfeiçoamento das habilidades orais dos alunos.

Algumas pesquisas descritivas vão além da simples identificação da existência de relações entre variáveis, pretendendo determinar a natureza dessa relação. (...) As pesquisas descritivas são, juntamente com as exploratórias, as que habitualmente realizam os pesquisadores sociais preocupados com a atuação prática. São também as mais solicitadas por organizações como instituições educacionais, [...] (GIL, 1991, p.46)

Destacamos abaixo algumas características do estudo de caso educacional, baseadas em Bassey apud André (2005, p. 30):

 É desenvolvido em contextos delimitados e situados no tempo e no espaço, que lhe confere um caráter de singularidade;

 Trata a respeito de relevantes aspectos vinculados a um tema educacional;

 Realizar-se-á em um contexto natural (não artificial), com ética e respeito às diferenças linguísticas dos participantes;

 Poderá subsidiar mudanças de práticas educativas, baseado em dados constatados.

Assim, esse estudo de caso utiliza-se de várias formas de coleta de dados, tais como, documentos oficiais, entrevistas abertas, semiestruturadas ou focadas, observação participante e não participante, recursos audiovisuais, como também as cartas e os relatórios, para compreender o fenômeno de forma mais completa possível.

A particularidade é uma das características do estudo de caso, expressa por André através das definições de Merrian. Na particularidade, se observa o fenômeno da oralidade, no contexto das aulas de Língua Portuguesa, emergindo de situações específicas no decorrer das aulas, sendo o tipo de estudo, o estudo de caso, apropriado para averiguar os procedimentos mais usuais que ocorrem durante o processo de ensino-aprendizagem e está direcionado a

[...] uma situação, um programa, um fenômeno particular. O caso em si tem importância, seja pelo que revela sobre o fenômeno, seja pelo que representa. É, pois, um tipo de estudo adequado para investigar problemas do dia-a-dia. (MERRIAM apud ANDRÉ, 2005,p.17-18) Além da particularidade, outra característica é própria ao estudo de caso:

 Descrição: “... uma descrição completa e literal da situação investigada.” (ANDRÉ, 2005, p. 18) e também uma interpretação que considera as normas e os valores culturais da comunidade.

A autora considera ainda que

O estudo de caso, engloba um grande número de variáveis e retrata suas interações ao longo do tempo. Os dados são expressos em palavras, imagens, citações literais, figuras literárias. (ANDRÉ, 2005, p. 18).

Para Gibbs (2009, p. 19), a descrição deve ser aquela que “... demonstre a riqueza do que está acontecendo e enfatize a forma como isso envolve as intenções e estratégias das pessoas”.

Além da descrição, a heurística e a indução também são características do estudo de caso, como vemos abaixo:

 Heurística, segundo Stake “Significa que os estudos de caso iluminam a compreensão do leitor sobre o fenômeno estudado...” (MERRIAM apud ANDRÉ, 2005, p. 18).

 Indução para Merriam:

Significa que, em grande parte, os estudos de caso se baseiam na lógica indutiva. Descoberta de novas relações, conceitos, compreensão, mais do que verificação ou hipótese predefinida, caracteriza o estudo de caso qualitativo. (MERRIAM, apud ANDRÉ, 2005, p.18).

André menciona que, para Stake, o conhecimento advindo de uma pesquisa de estudo de caso caracteriza-se por ser “mais concreto - configura-se como um

conhecimento que encontra eco em nossa experiência porque é mais vivo, concreto e sensório do que abstrato.” (Grifos do autor,STAKE apud ANDRÉ, 2005, p. 16-17)8

Essa realidade, por sua vez, fornece ao leitor a interpretação partilhada com suas próprias experiências, reforçando o elo entre a realidade estudada e a realidade vivenciada.

A opção na escolha de a pesquisa ser um estudo de caso de cunho qualitativo ocorreu em função de uma melhor compreensão do objeto a ser pesquisado, pois a abordagem qualitativa apoia-se na riqueza e no detalhamento das amostras e o estudo de caso toma a realidade como fonte de informações, retratando uma situação real, ajudando “a compreender a situação investigada” (ANDRÉ, 2005, p.34.) e “permitindo amplo e detalhado conhecimento” (apontamentos de sala de aula no Ateliê de Pesquisa sobre Ensino-Aprendizagem

8 Por “concreto” entendemos um sentido mais associado ao termo “factual” por estar relacionado,

de Línguas, realizado pelo professor Marcos A. Lopes durante aula extra ministrada pelo professor João Neto, em 31/05/2007).

Segundo Chizzotti, “o termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível.” [Dessa forma, as informações contidas no texto construído representam] “os significados patentes ou ocultos do seu objeto de pesquisa.” (CHIZZOTTI, 2008, p. 28-29)

De acordo com esse autor, qualitativo opõe-se a quantitativo, porque esse último utiliza a noção de quantidade como único meio seguro para validar uma proposição. Por outro lado, uma abordagem qualitativa está vinculada à compreensão que o pesquisador tem a respeito da participação das pessoas na construção da realidade. Assim, segundo Chizzotti,

O pesquisador supõe que o mundo deriva da compreensão que as pessoas constroem no contato com a realidade nas diferentes interações humanas e sociais, será necessário encontrar fundamentos para uma análise e para a interpretação do fato que revele o significado atribuído a esses fatos pelas pessoas que partilham dele. [...] termo genérico para designar pesquisas que, usando, ou não, quantificações, pretendem interpretar o sentido do evento a partir do significado que as pessoas atribuem ao que falam e fazem. (CHIZZOTTI, 2008, p.28)

Uma abordagem qualitativa se tornou importante durante o processo pela necessidade de compreender o peso de valor entre as variantes e os fatos. Ou seja, pretendemos identificar quais procedimentos estão sendo realizados em sala de aula para trabalhar a modalidade oral nas aulas de Português como língua materna.

Como forma de complementar os conhecimentos sobre a temática pesquisada, utilizamo-nos de informações trazidas por documentos científicos.

Stake apud André, nos diz que

É possível que o documento possa substituir o registro de um evento que o pesquisador não pode observar diretamente. Documentos são muito úteis nos estudos de caso porque complementam informações

obtidas por outras fontes e fornecem base para triangulação dos dados. (STAKE apud ANDRÉ, 2005, p. 53)

Dessa forma, tal investigação também é alicerçada no levantamento bibliográfico (materiais científicos impressos, tais como, revistas, livros, artigos, dissertações e teses) como instrumento para a construção de uma orientação teórica consistente.

Para efeitos de concretização do trabalho dissertativo, apoiamo-nos nas reflexões teóricas de: Fávero (2007), Marcuschi (2005), Ramos (2002), Castilho (2001), dentre outros autores, que, com suas pesquisas, contribuem para uma melhor compreensão do estudo da oralidade em contexto escolar.