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“No erotismo, o homem descobre mais do que a vida. Descobre o coração paradoxal da vida. Porque a vida está paradoxalmente sempre morrendo para continuar a viver, a vida do homem é a vida de indivíduos morrendo isoladamente numa aventura ininteligível, mas sempre na nostalgia da continuidade perdida”.

Georges Bataille, O erotismo

A proliferação da vida sem medida, a multiplicidade dos gestos a partir da vulnerabilidade física do corpo, a fragilidade dos corpos, a instabilidade e irregularidade de seus movimentos, convocam na subjetividade a experiência do erotismo dos corpos.

O espírito humano está exposto às mais surpreendentes injunções. De maneira incessante, ele tem medo de si mesmo. Seus movimentos eróticos o aterrorizam. Ele teme aquilo que o desestabiliza, que o faz perder o chão.

Segundo Bataille, o campo do erotismo é o campo da violência, o campo da violação. O mais violento para nós é a morte, que, precisamente, arranca-nos da obstinação que temos de ver durar o ser descontínuo que somos. Ficamos desencorajados diante da idéia de que a individualidade descontínua que está em nós vai repentinamente aniquilar. “O que significa o erotismo dos corpos senão a violação do ser? Uma violação limítrofe ao limiar da morte? Limítrofe ao ato de matar?”

Toda a atividade do erotismo tem por fim atingir o ser no mais íntimo, no ponto onde ficamos sem forças. A passagem do estado normal ao desejo erótico supõe em nós a dissolução relativa do ser constituído na ordem descontínua. É essencialmente, a parte

feminina que é desagregada como ser constituído. Mas, para um parceiro masculino, a dissolução da parte feminina só tem um sentido: ela prepara uma fusão na qual se misturam dois seres que, no fim, chegam juntos ao mesmo ponto de dissolução. Toda a realização erótica tem por princípio uma destruição da estrutura do ser fechado.

O gesto essencial do corpo erótico é o desnudamento. A nudez se opõe ao estado fechado, quer dizer, ao estado de existência descontínua. É um estado de comunicação que revela a busca de uma continuidade possível do ser além do retrair-se em si mesmo. Os corpos se abrem para a continuidade por intermédio desses órgãos secretos que nos provocam o sentimento da obscenidade. A obscenidade significa a perturbação que incomoda um estado dos corpos semelhante à possessão de si, semelhante à possessão duradoura e afirmada. Há, ao contrário, despossessão no jogo dos órgãos que derramam na renovação da fusão. Essa despossessão é tão inteira que no estado de nudez que a anuncia, a maioria dos seres humanos se esconde, com mais razão ainda se a ação erótica que acaba por despossuí-la sucede a nudez.

Na antiguidade, a destituição (ou destruição) que funda o erotismo era bastante sensível para justificar um paralelo entre o ato de amor e o ato do sacrifício. A parceira feminina do erotismo aparecia como a vítima, o masculino como o sacrificador, um e outro, durante a conjunção carnal, perdendo-se na continuidade estabelecida por um primeiro ato de destruição. O elemento de violação, o gesto de violência constituía a atividade erótica em sua plenitude.

Na passagem da atitude normal ao desejo existe uma fascinação fundamental pela morte. O que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das formas constituídas, dessas formas da vida

social, regular, que fundam a ordem descontínua das individualidades definidas que somos. No erotismo a vida descontínua não está condenada a desaparecer: ela é somente colocada em questão. Ela deve ser perturbada, incomodada ao máximo.

Há um excesso horrível do movimento que nos anima: o excesso ilumina o sentido do movimento. Mas isso é para nós apenas um sinal pavoroso que nos lembra incessantemente que a morte, ruptura dessa descontinuidade individual à qual a angústia nos submete, apresenta-se como uma verdade mais eminente que a vida.

O erotismo é um dos aspectos da vida interior no homem. Nós nos enganamos a seu respeito porque buscamos incessantemente fora um objeto do desejo. Mas esse objeto responde à interioridade do desejo. O erotismo torna-se inacessível para nós na medida em que não o situamos no plano da experiência interior. Devemos deixar de nos opor ao erotismo, devemos deixar de fazer dele uma coisa, um objeto exterior a nós. Devemos considerá-lo como o movimento do ser em nós mesmos65.

O erotismo do homem difere da sexualidade animal justamente na medida em que ele coloca a vida interior em questão. O erotismo está na consciência do homem, o que faz com que ele seja um ser em questão. A sexualidade animal instaura um desequilíbrio e este desequilíbrio ameaça a vida.

65 Este é um dos aspectos primordiais da obra do Bataille, na tentativa de ‘falar’

sobre a experiência do erotismo: o erotismo como o movimento do ser em nós mesmos. O erotismo é o desequilíbrio no qual o ser se coloca a si mesmo em questão. Em um sentido, o ser se perde objetivamente, Eu me perco. Distrair-se de si como condição da experiência do erotismo. O que me interessa na obra do Bataille diz respeito à experiência do erotismo como a proliferação da vida sem medida, a dissolução do ser, a superabundância do desejo, a experiência limite da linguagem.

Os homens se distinguiram dos animais pelo trabalho. Paralelamente, eles se impuseram restrições conhecidas como interdições. Essas proibições diziam respeito essencialmente à atitude em relação aos mortos. Muito provavelmente, ao mesmo tempo ou quase ao mesmo tempo, elas diziam respeito à atividade sexual.

Uma vez que o trabalho, pelo que parece, logicamente, engendrou a reação que determina a atitude diante da morte, seria legítimo pensar que a interdição que regulava e limitava a sexualidade foi também uma conseqüência dele, e que o conjunto de condutas humanas fundamentais – trabalho, consciência da morte, sexualidade reprimida – remontam ao mesmo período.

O homem desprendeu-se da animalidade primeira ao trabalhar, ao compreender que morreria e ao passar da sexualidade sem pudor para a sexualidade vergonhosa, da qual o erotismo resultou.

O erotismo é o desequilíbrio no qual o ser se coloca a si mesmo em questão. Em um sentido, o ser se perde objetivamente, no erotismo

Eu me perco.

Historicamente os corpos ganharam um sentido erótico, um valor erótico. No plano do erotismo, as modificações do próprio corpo, que correspondem aos movimentos vivos que nos excitam interiormente, estão ligadas aos aspectos sedutores e surpreendentes dos corpos sexuados.

O conhecimento do erotismo exige uma experiência da interdição e da transgressão. A transgressão não é o “retorno a natureza”, ela suspende a interdição sem suprimi-la.

A experiência interior do erotismo solicita daquele que a prova uma sensibilidade à angústia fundadora da interdição tão grande quanto o desejo que o leva a enfrentá-la. A experiência interior é dada no momento em que, rompendo a crisálida, ele tem a consciência de rasgar a si mesmo e não a consciência oposta de fora. A superação da consciência objetiva, que era limitada pelas paredes da crisálida, está ligada a essa reviravolta. Para Bataille, transformar-se não é tanto passar de um lugar para outro, seja negando e conservando, seja deixando para trás e excedendo, mas sobretudo entregar-se ao acontecer da ação, ao movimento espasmódico da vida.

De toda maneira, o homem pertence a estes dois mundos: o mundo da interdição e o mundo da transgressão, entre os quais sua vida, não importando o que ele queira, fica dilacerada.

Na natureza existe um movimento, subsistente no homem, que sempre excede os limites e só pode ser reduzido parcialmente. Geralmente não podemos nos dar conta desse movimento. Ele é mesmo por definição aquilo que nos escapa. No campo de nossa vida, o excesso se manifesta na medida em que a violência excede a razão. O trabalho exige uma conduta na qual o calculo do esforço, ligado à eficácia produtiva, é constante. Ele exige uma conduta razoável em que os movimentos tumultuados que se liberam na festa, e essencialmente no erotismo, não são admissíveis. Se não pudéssemos conter esses movimentos, não seríamos capazes de trabalhar, mas o trabalho introduz justamente a razão de os conter.

Desde os tempos mais remotos, o trabalho introduziu a trégua, a favor da qual o homem deixava de responder ao impulso imediato que a violência do desejo determinava. A maior parte do tempo, o trabalho é a função de uma coletividade, e a coletividade deve se opor, no tempo reservado ao trabalho, a esses movimentos de

excesso contagioso nos quais não existe nada além do abandono imediato ao excesso, à violência. Da mesma maneira, a coletividade humana, em parte dedicada ao trabalho, define-se nas interdições, sem as quais não teria se tornado esse mundo de trabalho que ela essencialmente é. O que o mundo do trabalho exclui pelas interdições é a violência – a vida sexual e a morte.

A violência e a morte que ela significa possuem um duplo sentido: por um lado o horror não afastado, ligado ao apego que a vida inspira; por outro, um elemento solene, ao mesmo tempo, aterrador, fascina-nos e provoca, uma perturbação soberana. O movimento de recusa diante da violência traduz a interdição da morte.

Em todos os tempos como em todos os lugares o homem foi definido por uma conduta sexual submetida a regras, a restrições definidas: o homem é um animal que permanece proibido diante da morte e diante da união sexual. Interdição informe e universal da qual a sexualidade é o objeto.

A vida é sempre um produto da decomposição da vida. Ela é tributária, em primeiro lugar, da morte, que cede o lugar, em seguida, da decomposição, que sucede a morte, e recoloca em circulação as substâncias necessárias à incessante vinda ao mundo de novos seres. Apesar disso, a vida é a negação da morte. Ela é sua negação, sua exclusão. Essa reação é a mais forte na espécie humana, e o horror à morte não está somente ligado ao aniquilamento do ser, mas à podridão que devolve as carnes mortas à fermentação geral da vida. O horror imediato mantinha – pelo menos vagamente – a consciência de uma identidade do aspecto aterrador da morte, de sua decomposição fétida e dessa condição elementar da vida, que provoca náusea.

“Essas matérias moventes, fétidas e mornas, cujo aspecto é aterrador, nas quais a vida fermenta, essas matérias nas quais fervilham os ovos, os germes e os vermes estão na origem dessas reações decisivas que chamamos náusea, enjôo, repugnância. Além do aniquilamento futuro, que pesará totalmente sobre o ser que sou, que espero ainda ser, cujo próprio sentido é mais esperar ser do que ser, a morte anunciará meu retorno à purulência da vida. Assim posso pressentir – e viver na espera – essa purulência multiplicada que, por antecipação, celebra em mim o triunfo da náusea.”66

O horror que temos dos cadáveres é vizinho dos sentimentos que temos diante dos excrementos humanos. Esse paralelo tem ainda mais sentido se considerarmos o horror análogo em relação aos aspectos da sexualidade que qualificamos de obscenos. Formou-se um campo da imundície, da decomposição e da sexualidade, cujas conexões são muito sensíveis.

Recusamo-nos a ver que a vida é a armadilha oferecida ao equilíbrio, que ela é inteiramente a instabilidade, o desequilíbrio no qual ela se precipita. É um movimento tumultuoso que atrai incessantemente a explosão. Mas a explosão incessante não cessa de esgotá-la, e ela só continua sob uma condição: que os seres que ela engendra, e cuja força de explosão está esgotada, dêem lugar a novos seres, que entram neste movimento com uma nova força.

A recusa e a espera obstinada por um apaziguamento que acompanham esse movimento e o medo incessante que acompanha a convulsão que nos forma, só faz agravar a angústia e afastar a experiência interior do erotismo. A princípio, a atitude do homem é a recusa. O homem obstinou-se em não mais seguir o movimento vital,

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mas, dessa maneira, ele só pôde precipitá-lo e tornar sua rapidez vertiginosa.

Se vemos nas interdições essenciais a recusa que opõe o ser à natureza, considerada como uma dissipação de energia viva e como uma orgia do aniquilamento, não podemos mais fazer diferença entre a morte e a sexualidade. A sexualidade e a morte não são nada além de movimentos agudos de uma festa que a natureza celebra com a inesgotável multidão de seres, ambos tendo o sentido de desperdício ilimitado ao qual a natureza vai ao encontro do desejo de durar, que é próprio de cada ser.

No espírito humano, a analogia da podridão com os aspectos da atividade sexual acaba por misturar as náuseas que nos opõem a ambos. As interdições nas quais tomou forma uma única reação com dois fins podem ter sucedido uma à outra, um longo período pode ser concebido entre a interdição ligada à morte e àquela que tem a reprodução como objeto. Como se o homem, de uma só vez, houvesse inconscientemente apreendido o que a natureza tem de impossível, exigindo dos seres que ela suscita que participem desse furor de destruir que a anima e nada saciará. A natureza exigia que eles cedessem, se arremessassem impetuosamente: a possibilidade humana dependeu do momento em que um ser, retomando suas forças de uma vertigem intransponível, esforçou-se para responder não, um não à violência elementar da vida.

A transgressão não é a negação da interdição, mas a superação da interdição. Não existe interdição que não possa ser transgredida. Freqüentemente a transgressão é admitida, freqüentemente ela é mesmo prescrita. A transgressão forma juntamente com a interdição um conjunto que define a vida social. A transgressão não tem nada a ver com a liberdade primeira da vida animal: ela abre um acesso

além dos limites ordinariamente observados, mas reserva esses limites. A transgressão excede, sem destruí-lo, a um mundo profano, do qual ela é o complemento. A sociedade humana não é só o mundo do trabalho. Simultaneamente – ou sucessivamente – o mundo profano e o mundo sagrado a compõem e são as duas formas complementares. O mundo sagrado se abre às transgressões limitadas. É o mundo da festa, dos soberanos e dos deuses.

Os homens estão ao mesmo tempo submetidos a dois movimentos: de terror, que rejeita, e de atração, que comanda o respeito fascinado. A interdição e a transgressão respondem a esses dois movimentos contraditórios: a interdição rejeita, mas a fascinação introduz a transgressão. A interdição e o tabu só se opõem ao divino em um sentido, mas o divino é o aspecto fascinante da interdição: é a interdição transfigurada.

Somente o aspecto econômico dessas oposições permite introduzir uma distinção clara e apreensível dos dois aspectos: a interdição responde ao trabalho, o trabalho à produção: no tempo profano do trabalho, a sociedade acumula recursos, o consumo é reduzido à quantidade necessária à produção. O tempo sagrado é, por excelência, a festa. A festa não significa necessariamente a suspensão maciça das interdições, mas, em tempo de festa, o que é habitualmente proibido pode sempre ser permitido, às vezes exigido. No tempo ordinário da festa existe uma inversão de valores. Sob o ponto de vista econômico, a festa consome em sua prodigalidade sem medida os recursos acumulados no tempo de trabalho. Acumular e gastar são as duas fases das quais essa atividade é composta.

É essencial ao homem recusar a violência do movimento natural, mas a recusa não significa ruptura, ela anuncia, ao contrário, um acordo mais profundo. Esse acordo deixa como pano de fundo o sentimento

que havia fundado esse desacordo. Esse sentimento é tão mantido que o movimento que arrasta o acordo é sempre vertiginoso. A náusea, depois a superação da náusea, seguida da vertigem, tais são as fases da dança paradoxal ordenada pelas atitudes religiosas. Não existe sentimento que transporte para a exuberância com mais força que o sentimento do nada. Mas a exuberância não é de nenhuma forma o aniquilamento: é a superação da atitude terrorizada, é a transgressão.

O erotismo dos corpos revela-nos o jogo alternativo da interdição e da transgressão. Ao contrário, seria impossível ter uma visão coerente do erotismo sem partir desse jogo alternativo. Os objetos sexuais suscitam uma alternância contínua da repulsão e da atração, hesitação e excitação, em conseqüência da interdição e da suspensão da interdição.

No movimento das interdições, o homem se separava dos animais. Ele tentava escapar do jogo excessivo da morte e da reprodução (da violência), no poder do qual o animal vive sem reserva. Mas, no movimento secundário da transgressão, o homem se reaproximou do animal. Ele viu no animal o que escapa à regra da interdição, o que permanece aberto à violência (ao excesso) que comanda o mundo da morte e da reprodução.

A partir do momento em que os homens se conciliam em um sentido com a animalidade, entramos no mundo da transgressão, que forma, na manutenção da interdição, a síntese da animalidade e do homem, entramos no mundo divino (o mundo sagrado).

A vida é o imenso movimento composto pela reprodução e pela morte. A vida não cessa de engendrar, mas para aniquilar o que ela engendra. A vida é, em sua essência, um excesso, ela é a

exuberância da vida. Sem limites, ela esgota suas forças e seus recursos, ela aniquila o que ela criou. A multidão de seres vivos é passiva nesse movimento. No extremo, contudo, queremos o que coloca nossa vida em perigo. Não possuímos sempre a força de querê-lo, nossos recursos esgotam-se e, às vezes, o desejo é impotente.

Se o perigo se torna muito pesado, se a morte é inevitável, em princípio, o desejo é inibido. Mas, se o acaso nos é favorável, o objeto que desejamos mais ardentemente é o mais suscetível de nos aliciar para loucas dependências e nos arruinar. À medida que podem (é uma questão quantitativa de força), os homens procuram as maiores perdas e os maiores perigos. Acreditamos facilmente no contrário, porque freqüentemente eles têm pouca força. Os homens querem imediatamente esgotar-se e expor-se ao perigo. Quem tem a força e os meios para isso entrega-se a desgastes contínuos e expõe-se incessantemente ao perigo. Trata-se, suportando sem muita angústia, de gozar, através da aventura do outro, do sentimento de perda ou de estar em perigo.

Essa ação violenta – que priva a vítima de seu caráter limitado e confere-lhe o ilimitado, o infinito que pertence à esfera sagrada – é desejada até as últimas conseqüências. Ela é desejada como a ação daquele que desnuda sua vítima que ele deseja e na qual quer penetrar. O amante não desagrega menos a mulher amada que aquele que sacrifica de maneira sangrenta o homem ou o animal imolado. A mulher nas mãos daquele que a arrebata é despossuída de seu ser. Ela perde, juntamente com seu pudor, essa barreira firme que, separando-a do outro, tornava-a impenetrável: bruscamente ela se abre à violência do jogo sexual desencadeado nos órgãos de reprodução, ela se abre à violência impessoal que a invade de fora.

O que se revelava na violência exterior do sacrifício era a violência interior do ser percebida à luz do dia pelo jorrar do sangue e a revelação súbita dos órgãos. A pletora dos órgãos cheios de vida, cheios de sangue, a pletora impessoal da vida.

O sacrifício é constituído pela conciliação entre a vida e a morte, dar a morte um novo desabrochar da vida, dar à vida o peso, a vertigem e a abertura da morte. É a vida misturada com a morte, mas nela, no mesmo instante, a morte é signo de vida, abertura para o ilimitado.

O que o ato de amor e o sacrifício revelam é a carne. O sacrifício substitui a vida ordenada do animal pela convulsão cega dos órgãos. O mesmo acontece com a convulsão erótica: ela libera órgãos pletóricos dos quais os jogos cegos se desenrolam além da vontade pensada dos amantes. A essa vontade pensada sucedem-se os movimentos animais desses órgãos intumescidos de sangue. Uma violência, que a razão não controla mais, anima esses órgãos, ela os tenciona em direção ao rompimento e, subitamente, ceder à superação dessa tempestade é a alegria dos corações. O movimento da carne excede um limite na ausência da vontade. A carne é em nós esse excesso que se opõe à lei da decência.

O erotismo, em seu conjunto, é a infração à regra das interdições: ele é uma atividade humana. Mas, ainda que ele comece onde acaba o animal, a animalidade não deixa de ser seu fundamento. A humanidade se desvia desse fundamento com horror, mas ao mesmo tempo o mantém. A animalidade é tão bem mantida no erotismo que o termo animalidade, ou bestialidade, está a ele sempre ligado.

No plano da realidade objetiva, a vida sempre mobiliza, salvo no caso de impotência, um excesso de energia que é preciso despender. Toda unidade viva cresce. Se crescendo, ela atinge o estado pletórico, ela

pode se dividir, mas o crescimento (a pletora) é a condição da divisão que, no mundo vivo, chamamos de reprodução.

É a pletora que dá início a um deslocamento na qual o ser se divide, mas ele se divide no próprio momento, no momento do