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A tarefa primordial de uma filosofia da ciência natural é elucidar o conceito de natureza, considerada um único fato complexo para o conhecimento; expor as entidades fundamentais e as relações entre entidades em cujos termos todas as leis da natureza devem ser estabelecidas, e afiançar que as entidades e relações assim expostas são adequadas à expressão de todas as relações entre entidades que têm lugar na natureza.

WHITEHEAD,A.N. (1994): O conceito de

natureza, pág. 56

Um dos pilares da filosofia e da ciência modernas, como processo histórico e de revolução intelectual, é caracterizado pelo declínio das concepções mágicas e da tradição hermética que se estabeleceram durante a Idade Média e o renascimento, em nome de uma reorganização ontológica da idéia de natureza pela incorporação (filosófica) no âmbito da visão de mundo corrente de uma ‘ordem matemática’ permeando os eventos naturais. Esse declínio das concepções antigas e medievais veio acompanhada de uma série de outras transformações, tanto no âmbito da cultura geral como no registro da ciência moderna nascente; particularmente, tal transição impôs questões tais como as maneiras de integrar e repensar as conexões entre os problemas da teologia e da ciência, as relações entre a física e a cosmologia que acompanharam e determinaram o fim do universo aristotélico-ptolomaico e, talvez a questão filosófica central no início da Modernidade, a nova posição do homem na cadeia do ser (ROSSI: 1992; KOYRÉ: 1957 [1986]).

A filosofia natural antiga e medieval pensava o universo como um ‘cosmos’ organizado (LOVEJOY: 1964[2005]). A modernidade instaurou uma concepção de mundo que se afastava radicalmente desta noção de ‘cosmos’ enquanto ordenação de lugares qualitativamente diferenciados, inscritos substancialmente no mundo. A concepção de ciência (ou melhor, filosofia natural) na Modernidade configurou-se a partir de uma reconciliação inovadora das características centrais da teologia cristã (pelo menos da idéia de um deus todo poderoso que criou o universo) com

um ideal epistêmico que via nas matemáticas um modelo de boa prática científica (isto significando que sua pesquisa levava a resultados seguros) a ser seguido na investigação de todas as coisas, em oposição ao predomínio da retórica, presente no ensino escolástico.

Todos os filósofos criativos do período expressaram claramente este impulso a um novo e radical repensar (epistemológico), necessário à construção do conhecimento verdadeiro. Este repensar era estruturalmente marcado, entretanto, pelos pressupostos ideológicos acima apresentados: a aceitação, nos meios intelectuais e científicos, da idéia de uma criação divina, que esta criação parecia obedecer a certos critérios acessíveis ao conhecimento humano, por meio não só da revelação bíblica, mas (e talvez sobretudo) da investigação natural.

A teleologia aristotélica e medieval - a crença de que a natureza de uma coisa deveria ser explicada pela sua perfeição em ser o que é - foi progressivamente sendo enfraquecida e substituída pela concepção de que o sentido dos fenômenos só poderia ser encontrado analisando a lógica estruturante do universo, culminando na nova concepção - fundamental para ciência moderna - de ‘lei da natureza’. (HALL, A.R.:1962[1988], cap. 2 ; KOYRÉ, A.:1957[1986],cap. 1).

O primeiro aspecto importante a ser analisado sobre os elementos metafísicos subjacente à idéia de lei natural é que a filosofia moderna passa a defender que a tessitura do universo deve ser interpretada como matematicamente organizada. Filosófica e teologicamente, a reconciliação da divindade cristã criadora e legisladora e da interpretação matemática da natureza se realizou por meio da idéia metafísico- teológica do deus-geômetra.

O conceito de lei natural matematicamente simbolizada (simbolizável), representativo da

ciência moderna e do esforço desta no sentido do catálogo sistemático de regularidades no

comportamento da natureza e da busca igualmente sistemática da descrição matemática dos mesmos foi subsidiado, essencialmente, por uma ‘invenção’ metafísica da filosofia moderna (o deus geômetra), estando essencialmente ausente do horizonte especulativo das filosofias antiga e medieval sobre a natureza.

É possível justificar a interpretação sugerida da origem da idéia de lei natural a partir da investigação dos autores fundadores da ciência na Modernidade. Segundo HALL, esta é o resultado de uma interação peculiar entre idéias religiosas, filosóficas e legalistas oriundas do mundo europeu medieval (HALL:1962[1988]). Também se nota facilmente como esta atitude filosófica opunha-se à concepção grega de investigação da natureza, em que o uso da palavra “lei” (matematicamente

rechaçado23. Embora em estado embrionário tenha surgido em outros autores científicos e

filosóficos, é somente a partir da Modernidade que, sistematicamente, lei se liga à conexão causal entre entidades em oposição à interpretação antiga e medieval de uma organização qualitativa de lugares. Segundo Edward W. STRONG:

“Há poucos contrastes mais dramáticos na história da ciência do que aquele apresentado pela comparação entre as hipóteses de Galileu com a visão de mundo do pensamento do século treze. A concepção fundamental dos pensadores do século treze era a idéia de que a natureza era como uma obra de arte.

Deus criara um mundo de criaturas instrumentalmente por meio das formas impressas em uma matéria passiva e inerte. Coisas individuais eram a união da forma e da matéria. Desde que a matéria é uma mera potencialidade de receber e distribuir formas, a explicação do movimento é referida a agentes e moventes residentes na natureza. O primeiro motor e a primeira causa é Deus cujo ato criativo criou o mundo. Movimentos na natureza são devidos a causas secundárias. Essas causas de processos, intelectuais e vitais, - processos com os quais os pensadores medievais estavam principalmente preocupados – são enteléquias, faculdades e almas. Os movimentos que elas produzem são em última instância teleológicos. Em um mundo desenhado pelo Criador para o homem, a mais perfeita de suas criaturas, o propósito e os fins para os quais as coisas existem são de importância central. Nenhuma explicação da natureza é adequada sem uma avaliação das causas finais em resposta a questão de por que as coisas são constituídas como elas são e por que elas agem como elas agem. O problema da ciência consiste em abstrair formas e dispô-las em um sistema de classificação. Classificação requer do cientista que distinga entre as propriedades substanciais e inerentes de uma espécie e aquelas qualidades que lhe são incidentais. Essas doutrinas das formas substanciais, das propriedades inerentes, das causas finais, e dos agentes ocultos são elaboradas em uma teoria completa da natureza por Alberto o Grande e Tomás de Aquino. Por meio deles, a ciência aristotélica foi formatada em determinantes cristãos da criação e dos dois mundos, um das coisas físicas e o outro das essências espirituais e sobrenaturais.

A despeito da entrada na Europa ocidental da ciência grega e persa- arábica no século doze, e a persistência a partir de então de uma tradição de estudos matemáticos e mecânicos, pouco, se algo, afetou a idéia teológica dominante dos filósofos cristãos. Quando nos voltamos para Galileu encontramos uma mudança enorme, um tratamento radicalmente diferente e uma concepção distinta da ciência

23 Conf. Platão: “As Leis” e “A República”, por exemplo, para uma discussão do significado corrente de lei no contexto

da filosofia antes de Aristóteles e a aplicação essencialmente circunscrita à atividade legisladora humana na organização da pólis. Particularmente no caso de Aristóteles, como se encontra em sua obra uma atenção considerável sobre o tema da investigação natural e, especificamente, as primeiras reflexões sobre o método indutivo e de que o ideal da ciência seria a progressão das observações para a descoberta de princípios gerais ; tal constatação parece implicar a recusa da proposição de que o conceito de lei natural estava ausente do pensamento grego. A perspectiva apresentada, no entanto, apóia-se sobre a interpretação de que o ponto central nas discussões aristotélicas é de que as coisas particulares constituíam-se a partir da união entre matéria e forma e a compreensão científica de um objeto era a explicação desta união em termos das quatro causas (formal, material, final e eficiente). A causa eficiente, que na Modernidade será a única mantida e virá a ser sinônimo de causa para a filosofia natural, era somente um fragmento (nem sempre o mais importante) da idéia de causa no mundo antigo e daí a interpretação proposta. No mundo medieval, por seu turno, a natureza refletia as marcas de Deus e portanto não era preponderante a idéia de causa eficiente e, logo, da idéia de lei natural tal como pensada pela filosofia moderna. Sobre a questão conf. Losee, J.: 1972[1993], caps.1,5, 6, 7.

e da natureza. Em “As Duas Novas Ciências”, o grande livro de mecânica de Galileu, é uma peça fundamental de pesquisa experimental e prova matemática. Nela encontram-se os resultados de observação e experimentação teoricamente generalizada em fórmulas, para a coesão dos sólidos, e em leis para o movimento uniformemente acelerado. (...)

Não há dúvidas que a tradução e estudo dos trabalhos de Euclides, Arquimedes, Herão e Apolônio de Perga contribuíram diretamente para o avanço da matemática e da mecânica. Ainda assim também foram importantes os desenvolvimentos tecnológicos e a tradição [conceitual] fundada por Galileu [que bebia destas fontes, mas não se reduzia completamente a elas, trazendo elementos inovadores não só conceituais, mas epistemológicos].”24 (tradução nossa).

No mundo europeu do início da Modernidade a crença hebraico-cristã em uma divindade que era simultaneamente criadora e legisladora do universo tornava a noção de lei natural não só epistemicamente válida como necessária. A idéia de lei natural universal e causal apresentava-se desde a Idade Média como uma demanda do pensamento filosófico que poderia mediar o relacionamento da teologia cristã e a incorporação da filosofia grega (no caso da filosofia natural em especial, particularmente a idéia de ordenação do mundo), mas antes da era moderna a sistematização conceitual desta noção não foi produzida25, sendo portanto esta conjunção entre

ordem e criação, ainda imatura nos séculos XV e XVI, fonte de profundas tensões intelectuais.

2.5 A matematização da filosofia natural como aspecto infra-estrutural da atividade