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No domínio dos factores relacionados com a criança que influenciam o comportamento parental e que podem interferir no modo como o comportamento parental afecta a trajectória desenvolvimental, a literatura tem reunido dados sobre a influência de variáveis genéticas, do temperamento, da idade, e da percepção da criança sobre o comportamento parental.

As variáveis genéticas da criança podem licitar diferentes estilos educativos e práticas educativas parentais, e características distintas na interacção pais-filho (Kennedy, Rubin, Hastings, & Maisel, 2004; Maccoby, 2000; Neiderhiser, Pike, Hetherington, & Reiss, 1998; Rowe, 2002). Muitos estudos têm reforçado que o temperamento influencia o comportamento dos pais (Asbury, Dunn, Pike, & Plomin, 2003; Bates, Pettit, Dodge, & Ridge, 1998; Gross, Shaw, Moilanen, Dishion, & Wilson, 2008; Rowe, 2002). Neste sentido, o temperamento difícil da criança tem sido associado a comportamentos parentais mais hostis e coercivos, baixo envolvimento e menor monitorização (Kennedy et al., 2004; Pettit et al., 2007). Todavia, os resultados são contraditórios, havendo estudos em que o temperamento da criança não é preditor do comportamento parental (Sroufe, 2002).

Do mesmo modo, as variáveis genéticas e individuais, como o temperamento e a inteligência, vão determinar como o comportamento parental se repercute no percurso desenvolvimental da criança (Bates et al., 1998; Deater-Deckard & Dodge, 1997; Kaplan & Owens, 2004; Kim-Kohen, Moffitt, & Caspi, 2004; Maccoby, 2000, 2002; Neiderhiser et al., 1998; Rowe, 2002; Rutter, 2002).

Estilos educativos parentais e qualidade da vinculação no período escolar

A literatura também tem referido que os pais têm diferentes expectativas para os comportamentos dos seus filhos em função do seu desenvolvimento e idade (Blandon & Volling, 2008; Someya, Uehara, Kadowaki, Tang, & Takahashi, 1999). O aumento das capacidades cognitivas durante o período escolar potencia alterações no comportamento parental, como o maior uso de técnicas indutivas (Cruz, 2005). Por exemplo, Pereira (2007) identificou que os pais de crianças mais novas (3º e 4º ano de escolaridade) faziam uma maior utilização dos padrões educativos parentais apoiante-controlador e rejeitante-controlador, em comparação com os pais de crianças a frequentar o 5º ano. Num sentido aproximado, as mães consideram que prestam maior suporte emocional e menor controlo aos filhos mais novos (Canavarro & Pereira, 2007b). Porém, a literatura é por vezes contraditória em relação à associação entre a idade da criança e a utilização das diferentes dimensões do comportamento parental, como se pode exemplificar pelos estudos que utilizam o EMBU-C (Castro et al., 1993; Grüner et al., 1999; Markus et al., 2003).

Alguns estudos que utilizaram o EMBU-C sublinharam que as crianças mais novas percebem níveis mais elevados de rejeição, suporte emocional e tentativa de controlo (Canavarro & Pereira, 2007a; Castro et al., 1993; Markus et al., 2003). Também tem sido descrita uma associação positiva entre as subescalas suporte emocional e tentativa de controlo o que, na opinião de Canavarro e Pereira (2007a), pode sugerir que a dimensão controlo terá um significado distinto, sendo entendida de modo diferente dependendo da etapa de desenvolvimento da criança. Assim, para crianças em idade escolar, comportamentos de protecção e de controlo podem ser sinónimo de preocupação dos pais, envolvimento, afecto e não intrusividade ou sobreprotecção. Já em idades posteriores, nomeadamente na adolescência, o mesmo comportamento parental pode ser considerado intrusivo e controlador (Canavarro & Pereira, 2007a; Markus et al., 2003).

Por seu lado, dependendo da idade da criança, o comportamento parental influencia de modo diferenciado o desenvolvimento infantil (Deater-Deckard & Dodge, 1997). Por exemplo, a parentalidade positiva e o controlo comportamental podem ser especialmente importantes junto de crianças mais novas, que necessitam de maior suporte parental para aceitar as regras, do que junto de adolescentes (Bosmans, Braet, van Leeuwen, & Beyers, 2006).

No que respeita à variável género, têm sido encontradas diferenças no comportamento dos pais em relação às raparigas e aos rapazes, começando pela definição de diferentes objectivos educativos. Todavia, os resultados são por vezes inconsistentes e contraditórios.

Há estudos que não encontram diferenças entre os rapazes de diferentes idades, sendo as raparigas mais velhas as que percepcionam uma menor disponibilidade dos pais (Lieberman, Doyle, & Markiewicz, 1999). Outros estudos descrevem que as raparigas percepcionam as mães como mais disponíveis (Kerns, Tomich, & Kim, 2006). Num sentido semelhante, algumas pesquisas indicam que os pais e as mães percepcionam uma maior capacidade de dar afecto positivo às suas filhas do que aos filhos rapazes (Michiels et al., 2010). Também é referido que as técnicas de afirmação de poder são mais utilizadas junto dos rapazes (e.g. Pinderhughes, Dodge, Bates, Pettit, & Zelli, 2000).

Especificamente os estudos que utilizam o EMBU-C, identificam diferenças de género no comportamento parental. São as raparigas que percepcionam receber maior suporte emocional das mães (Castro et al., 1993; Markus et al., 2003; Nishikawa et al., 2010), ao passo que os rapazes percepcionam um maior controlo materno e uma maior rejeição, principalmente paterna (Markus et al., 2003). Na mesma linha, Pereira (2007) encontrou diferenças de género na utilização dos estilos educativos parentais, em que o padrão apoiante reúne um número significativamente mais elevado de pais de crianças do género feminino. Porém, outras investigações não reportam diferenças de género em relação ao comportamento parental dos pais (Muris et al., 2003b).

Têm sido, igualmente, referidas diferenças de género ao nível do impacto do comportamento parental no ajustamento da criança (Roelofs et al., 2006). Alguns estudos indicam que o ajustamento dos rapazes é principalmente determinado pela rejeição parental, enquanto que todas as dimensões disfuncionais do comportamento parental avaliadas pelo EMBU-C, destacadamente a rejeição, a sobreprotecção e o comportamento parental ansioso, são preditoras do ajustamento das raparigas. Deste modo, é sugerido que o comportamento parental pode ser mais determinante da saúde mental das raparigas do que dos rapazes (Nishikawa et al., 2010).

No domínio cognitivo, a percepção que a criança tem sobre o comportamento parental dos seus pais, por exemplo sobre a legitimidade e adequação do comportamento disciplinar e do nível de suporte/afecto parental, tem sido citada como uma variável mediadora do impacto da parentalidade no comportamento e ajustamento da criança e do adolescente (Neiderhiser, et al., 1998; Padilla-Walker, 2008; Powers, Welsh, & Wright, 1994; Schaefer, 1965; Sessa, Avenevoli, Steinberg, & Morris, 2001). Saliente-se que, uma vez que os sujeitos são influenciados pelas suas crenças e valores, as percepções que as crianças têm sobre o comportamento dos seus pais podem ser mais importantes do que o próprio comportamento real. Portanto, a percepção da criança sobre o comportamento educativo dos seus pais pode ter um maior impacto no seu

Estilos educativos parentais e qualidade da vinculação no período escolar

desenvolvimento futuro, em comparação com a percepção dos pais sobre o mesmo comportamento (Arrindell, Gerlsma, Vandereycken, Hegeman, & Daeseleire, 1998; Bögels & van Melick, 2004; Schaefer, 1965).