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3. Metode

5.1 Drøfting av funn

Compreende-se aqui que o enunciado discursivo não é visto apenas como representação de um aspecto do mundo enquanto objeto, mas como uma ação, pois tem uma função social a concretizar (van Dijk, 1998). Além de informar sobre uma determinada opinião, ele busca afirmá-la e reforçá-la numa relação interpessoal. E essa relação não se processa num vazio, senão no interior de relações intergrupais. Nesse sentido, os membros dos grupos sociais usam discursos diferentes para se dirigirem tanto aos membros do próprio grupo quanto aos membros de outros grupos. Pode-se dizer, portanto, que as pessoas diferenciam seus discursos quando se dirigem a membros de grupos majoritários ou a membros de grupos minoritários (Tajfel, 1982b). Depreende-se disto que os discursos não são apenas a expressão de um pensamento ou de um sentimento, mas são, fundamentalmente, a construção de um posicionamento diante de determinado contexto social. Com uma função social e retórica a partir da qual é construído, o discurso admite variações de acordo com o contexto em que está inserido (Nunes & Camino, 2010).

Como esperado, a proposta das cotas raciais incitou uma grande polêmica que se estende aos dias atuais. Contudo, deve-se ter em conta que estes debates se realizam no interior de uma sociedade que se percebe como uma democracia racial e na qual o racismo assume formas cada vez mais sutis e cujos discursos ocultam motivações racistas e discriminatórias (Rodrigues, 1995; Venturi & Bokany, 2005).

As ações afirmativas, desse modo, têm dividido a opinião pública, aquecendo, como esperado, o debate acadêmico. Alguns especialistas e militantes negros entendem a introdução de ações afirmativas enquanto forma de combate ao racismo, num tempo em que, segundo esta interpretação, a discriminação positiva ajudará os historicamente

desprivilegiados a criar e fortalecer uma identidade positiva. Outros as vêem como um ataque perigoso contra a maneira tradicional brasileira de se relacionar com as diferenças humanas, temendo que políticas como essas possam instigar conflitos raciais abertos (Hofbauer, 2006).

Segundo seus defensores, as cotas nas universidades públicas possuem relevância, uma vez que é nesse nível de ensino que se promove a mobilidade social. Afirma-se o nível de ensino superior como lócus importante de troca de experiências, conhecimentos científicos, econômicos, políticos e sociais entre aqueles que, mais provavelmente, administrarão a nação. À população negra, isso se traduziria no considerável impacto social, cultural, simbólico e político viabilizado pela política de cotas (Fonseca, 2009).

Além disso, destaca-se que a maioria dos negros que concluiu o ensino superior no Brasil estudou em faculdades privadas de baixa credencial acadêmica, onde invariavelmente o tripé “ensino, pesquisa e extensão” não foi sequer desenvolvido (Fonseca, 2009). No âmbito do ensino superior, dados do IBGE (2010) apontam que do total de pessoas (com idades entre 18 e 24anos) que se declararam brancas, 62% estão no ensino superior. No entanto, do total das que se declararam pretas ou pardas, apenas em torno de 30% estão no ensino superior (das pretas – 28,2%; das pardas – 31%).

Um argumento também muito presente entre os defensores reside no histórico de escravidão no país. Ressalta-se que a adoção das cotas para negros seria uma espécie de reconhecimento histórico do Estado brasileiro e das instituições que obtiveram benefícios advindos do escravagismo. Elas então deveriam ser implementadas em virtude da dívida histórica que o Estado brasileiro e as elites dirigentes têm com os negros – uma reparação que seria justa em razão dos danos causados aos mesmos pela política de escravidão.

No entanto, alguns autores defendem que estabelecer as ações afirmativas apenas em função da memória, mentalidade e prática escravista, incorreria em ratificá- las como medidas indenizatórias, calcadas num sentimento de culpa, como simples pagamento que não viria acompanhado de uma mudança de consciência (Fonseca, 2009). Ou seja, a lógica mantida sobre as cotas seria de que ela serviria apenas para ressarcir grupos vulneráveis, mas não teria força suficiente para atravessar, de fato, as questões raciais

Entre alguns autores, no entanto, as cotas são vistas como medidas significativas, num tempo em que se traduziriam numa efetiva ação política de cunho estatal que visa constituir um pacto social com recorte etnorracial, visando minimizar os fossos sociais e econômicos que separam brancos e negros. Elas seriam medidas focais com fins não só de promover melhor distribuição de renda – à médio e longo prazo –, mas também de democratizar o acesso à espaços sociais e culturais dos quais os negros não usufruem em condições igualitárias (Fonseca, 2009).

Mas argumentos contrários, evidentemente, circundaram os debates acerca das ações afirmativas para a população negra no Brasil. Dentre eles, o de que as cotas podem levar a uma “reversão da discriminação” de maneira tal que homens brancos podem se tornar uma nova classe oprimida (Walters, 1997).

Para alguns críticos das ações afirmativas, uma tensão envolve o antagonismo políticas universalistas versus políticas focadas. Acredita-se que estas últimas demandariam políticas favoráveis a determinados grupos socialmente vulneráveis, fragilizando a adoção das políticas universalistas que possam atingir todos os cidadãos de maneira igualitária.

A resposta a essa crítica tem sido que a adoção de políticas focadas não exclui a adoção das universalistas. Elas podem coexistir em política que combinem a adoção

conjuntas delas (Piovesan, 2008; Santos, Cavalleiro, Barbosa & Ribeiro, 2008). Argumenta-se, inclusive, que estudos e pesquisas têm demonstrado que a mera adoção de políticas universalistas não tem sido capaz de reduzir as desigualdades raciais, que se mantêm em padrões absolutamente estáveis ao longo de sucessivas gerações (Piovesan, 2008).

Outras críticas incidem no fato de que a inserção de um contingente significativo de negros nas universidades através das cotas podem acarretar um rebaixamento cultural, tecnológico e educacional das IES públicas. No entanto, pesquisas veiculadas pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de Brasília (Unb) não comprovaram o supracitado rebaixamento acadêmico, de modo que nestas universidades públicas brasileiras não se encontrou sustentação empírica para o prejuízo cultural, científico e tecnológico das mesmas (Fonseca, 2009).

Elas provocariam divisões internas no ambiente universitário, que favoreceriam o aumento do preconceito, haja visto uma nítida delimitação de alas étnico-raciais. Fonseca (2009) acredita que esta visão esteja baseada na crença de que a universidade brasileira deva ser representada por um público coeso, social e culturalmente falando.