Muitas respostas foram enquadradas nesse grupo, pois, ao contrário das demais, elas representam equívocos conceituais, mas os alunos não apresentaram uma explicação lógica e condizente para o erro. Os entrevistados apenas apontaram, em suas falas, conceitos que são errôneos quando comparados com os que são atualmente aceitos como científicos.
Uma confusão comum pode se referir às dificuldades que os educandos têm com o conteúdo de genética. A Biologia possui uma vasta área de conhecimentos, sendo que aqueles com caráter microscópico são mais propícios a causar confusão e falta de compreensão pelos discentes. Nesse sentido, a genética é um conteúdo em que os vários alunos apresentam dificuldades de compreensão, independentemente de gênero e faixa etária
(RIEMEIER; GROPENGIEßER, 2008; BAHAR; JOHNSTONE; HANSELL, 1999).
A questão 16 da entrevista era direcionada a conceitos específicos da genética, como haploide e diploide, que possuem, respectivamente, apenas um cromossomo de cada tipo em sua célula e um par de cromossomos de cada tipo diferente em sua célula. Nesse contexto, as células haploides são encontradas nos órgãos reprodutores, sendo caracterizadas pelos espermatozoides e pelos óvulos, enquanto as células diploides correspondem às demais células do organismo (também conhecidas como células somáticas). A confusão entre os termos diploides e haploides, assim como outros aspectos da genética, pode ser observadana resposta do sujeito E.1 a essa questão: “Diploide tem divisão celular (...). Diploide é 2n e haploide é n, porque
ainda não ocorreu a divisão.” Já o sujeito M.1 afirmou que “Haploide só tem um núcleo e diploide tem dois núcleos.”.
Trabalhos desenvolvidos por Smith (1991) e Dikmenli (2010) também evidenciaram erros conceituais e confusões sobre conteúdos de genética. Smith (1991) apontou que os estudantes não possuem conhecimentos suficientes para a compreensão dos conteúdos, assim como existe uma grande confusão entre os termos científicos, tais como genes, alelos e cromossomos. Resultados semelhantes podem ser observados quando os entrevistados confundem os conceitos de haploidia e de diploidia com a presença ou ausência de núcleo e de divisão celular.
Outra questão que gerou confusão nas respostas dos entrevistados foi a que perguntava as principais diferenças entre células eucarióticas e procarióticas. Muitos sujeitos disseram que a célula eucariótica não possui núcleo, enquanto que a procariótica tem, quando é exatamente o contrário. Nesse sentido, o sujeito E.9 afirmou que “Eucarióticas são as células primárias
da evolução, mais simples. Procarióticas são mais complexas, têm mais funções.” De modo geral, a teoria endossímbiótica, a qual explica o surgimento de células eucarióticas, afirma que o que aconteceu é exatamente o contrário. As primeiras células teriam sido as procarióticas, muito simples, ou seja, com poucas organelas e sem núcleo definido (o material genético é solto pelo citoplasma). Com o passar do tempo, essa célula teria englobado outras que
passaram a exercer funções específicas dentro da célula, dando origem, então, às células eucarióticas, as quais possuem maior riqueza de organelas celulares e um núcleo bem definido para proteger o material genético.
Esse é um conteúdo da Biologia que é capaz de gerar obstáculos no processo de ensino aprendizagem, exatamente pela variedade de termos científicos e detalhes que lhes são inerentes, além de ser teórico e abstrato. A explicação dos alunos também foi evidenciada por Camacho González et al. (2012), com alunos do Ensino Fundamental I, que tiveram dificuldades em explicar as diferenças entre células procarióticas e eucarióticas. O estudo desses autores identificou obstáculos dos alunos em relacionar as funcionalidades de cada estrutura à célula á qual pertencem. Tal fato não foi possível identificar neste caso, devido à generalização da pergunta apenas para a estrutura das células e não das funções de suas organelas internas, embora, pelo nível de formação (superior), os alunos pudessem ter tocado nesse aspecto.
As demais questões evidenciaram a presença de erros conceituais, mas que não foram tão frequentes nas respostas dos entrevistados como as anteriormente citadas. Enquadram-se nesse caso, em que foram observadas uma ou duas resposta com equívocos, as questões dois (2), seis (6), oito (8), 11 e 15.
No que diz respeito ao item dois (2) da entrevista, um licenciando afirmou que as células podem ser encontradas no núcleo. Não ficou claro o que o sujeito quis dizer com essa resposta, assim como se ele realmente compreendeu o que a questão estava averiguando. Já na questão seis (6), por exemplo, um graduando disse que nem todos os seres vivos são formados por células, mas, nesse caso, ele não conseguiu se lembrar de nenhuma exceção, nem dos vírus, os quais o sujeito poderia ter considerado como um ser vivo que não apresenta organização celular.
Na questão 11, por exemplo, é observado um erro conceitual, pois o aluno afirma que os seres vivos não realizam nenhum tipo de respiração porque são anaeróbicos. Esse fato vai contra o conceito da própria respiração realizada pelos seres humanos, que é aeróbica, pois necessita de oxigênio. Além disso, outro equívoco do aluno é associar o fato dos seres vivos serem
anaeróbicos com a ausência do processo de respiração, quando, na verdade, existe a respiração anaeróbica, que é feita por alguns seres, como as bactérias e fungos, por exemplo, quando não há oxigênio disponível no ambiente. Nesse sentido, o fato de alguns seres vivos seres classificados como anaeróbicos, não exclui o fato de que realizam algum tipo de respiração (intra ou extracelular).
Por fim, no item 15, dois graduandos afirmam que todas as células do organismo são iguais, sem levar em consideração o processo de diferenciação celular que ocorre a partir de células pluripotentes (que possuem a capacidade de se diferenciar em qualquer célula de qualquer tecido do organismo). Apesar de um indivíduo possuir o mesmo tipo de célula em seu organismo, como por exemplo, um ser eucariótico em que todas as células são desse tipo, não quer dizer que todas são exatamente iguais. Um exemplo estrutural que torna evidente essa diferenciação das células é um neurônio, cujo formato é único e completamente distinto das demais células do organismo, pois ele é adaptado para sua função específica, a condução dos impulsos nervosos.