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Como já explicado anteriormente, o objetivo principal da pesquisa é compreender como as âncoras de carreira se relacionam com as atividades dos jornalistas dentro de uma

empresa de grande porte especializada em mídia impressa. Consideraremos as teorias não tracionais de carreira, bem como o contexto de mudanças tecnológicas e novas formas de lidar com a informação em que ocorrem estas transformações. Entre os objetivos mais específicos, procuraremos avaliar de que forma estas mudanças relacionadas ao conjunto de valores e práticas intrínsecos à sua natureza dialogam com um contexto complexo de transição do negócio da organização. Tendo em vista estes objetivos e a oportunidade de investigar as percepções e características significativas de eventos da vida real na população de jornalistas de um grande jornal de São Paulo, vale indicar que nesta pesquisa se adotará a metodologia do estudo de caso (YIN, 2005).

Por este procedimento técnico, pode-se aprofundar na análise com riqueza de detalhes e informações em um contexto específico, com variáveis significativas e complexas, e sistematizá-las por meio de outros mecanismos de pesquisa. Inclusive, outras ferramentas de análise poderiam passar ao largo das questões mais relevantes, haja vista que estamos abordando um cenário no qual os limites entre o fenômeno a ser estudado (o sujeito do estudo de caso) e o contexto (os dados externos ao caso) não são claramente evidentes. Caberá ao pesquisador ao longo do processo delimitar ou não essas diferenças, sempre justificando a forma como está conduzindo seu estudo. Portanto, ao longo do trabalho, é preciso não apenas manter o espírito crítico como se adaptar às pesquisas, fazendo novos e constantes questionamentos.

O estudo de caso não é apenas um estágio exploratório de algum outro método, mas a própria metodologia em si. Trata-se de um mecanismo conduzido por questões como por quê? e como?, sobre um conjunto de eventos contemporâneos a fim de trazer à tona novas questões e inter-relações (YIN, 2005). O estudo de caso pode mesclar a observação, ou seja, a vivência direta no ambiente a ser estudado, com entrevistas com as pessoas envolvidas nos eventos. No entanto, é preciso que se efetue um projeto de pesquisa sólido, coerente e bem delimitado, uma vez que a imersão no objeto de estudo pode levantar novos questionamentos e determinar andamentos inesperados à pesquisa. O estudo de caso é um formato que oferece a quem o aplica uma estratégia a escolher sempre que imprevistos e circunstâncias inesperadas surgirem. Constitui-se assim como uma metodologia versátil e adaptável, em vez de assumir um compromisso ideológico a ser seguido independentemente das circunstâncias (PLATT, 1992).

A tendência central do estudo de caso é que ele tente iluminar uma decisão ou conjunto de decisões: como são tomadas e implementadas e com que resultado (SCHRAMM, 1971 apud YIN, 2005). Consiste em uma investigação empírica que desvenda um fenômeno

contemporâneo em profundidade e em seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto podem não ser evidentes (YIN 1981a, 1981b). Por ser um método que enfrenta uma situação tecnicamente difícil, na qual existirão muito mais variáveis de interesse do que pontos de dados como resultados e, portanto, múltiplas fontes de evidência, o estudo de caso possui características mais versáteis e dinâmicas do que outros métodos. Trata-se de uma vivência dentro de uma conjuntura, diferentemente de um experimento, no qual se retira o fenômeno deliberadamente de seu contexto (YIN, 2005). Estudos de caso são generalizáveis às proposições teóricas e não às populações ou aos universos. Nesse sentido, o estudo de caso, como experimento, não representa uma “amostragem” e ao realizar o estudo de caso, sua meta será expandir e generalizar teorias (generalização analítica) e não enumerar frequências (generalização estatística). A meta é fazer uma “análise particularizante” e não uma “generalizante” (LIPSET; TROW; COLEMAN, 1956, p. 419-420).

Como não há método pré-formatado para aplicação de estudos de caso, ou catálogos e livros texto como de Campbell e Stanley (1966) ou de Cook e Campbeel (1979), a base sólida de um estudo como esse está em um projeto de pesquisa sistematizado. Seu objetivo é oferecer bases e procedimentos para desenvolver um estudo de caso mais rigoroso e metodologicamente sólido e coerente. Deve dar bases para orientar o investigador no processo de coleta, análise e interpretação das observações. Um modelo lógico para permitir fazer inferências sobre as relações causais entre as variáveis (NACHMIAS & NACHMIAS, 1992, p. 77-88). Com esta finalidade, é necessário traçar um mapa de projeto (PHILLIBER; SCHWAB; SAMSLOSS, 1980) que responda às seguintes questões:

 Quais questões estudar?  Quais dados são relevantes?  Quais dados coletar?

 Como analisar e interpretar os resultados?

São quatro os principais tipos de estudos de caso: único, múltiplo, holístico e integrado. Qualquer que seja o modelo utilizado, é necessária a escolha de um deles antes de qualquer coleta de dados. A adoção do primeiro, o estudo de caso único, leva em consideração que este simboliza um universo por si só e que sua compreensão representaria a percepção sobre todo o fenômeno em si. Já o segundo método se faz valer quando um mesmo estudo pode conter mais do que um único caso para que se tenha a dimensão do fenômeno – geralmente é adotado quando já existe conhecimento anterior dos resultados, focando a

investigação na causa destes. As terceira e quarta formas de estudo de caso são desdobramentos das duas primeiras. No caso do estudo holístico, envolve estudos de caso em que se analisam múltiplos casos separados dentro de seus contextos, enquanto o estudo integrado contempla não apenas a pesquisa de cada caso em seus contextos como a inter- relação entre eles.

Entre os desafios, os estudos de caso devem vencer o estigma de preconceitos de ser uma espécie de “primo pobre” da pesquisa empírica. Igualmente há o fato de o estudo de caso dar pouca base para generalização científica, uma vez que a questão “como se pode generalizar a partir de um único caso?” é a primeira a vir à tona quando se apresenta um trabalho desta maneira. Corre-se o risco de se estabelecer relações causais entre hipóteses e supostos resultados, bem como o de – já na fase de análises – voltar para a fase de coleta de dados por conta de falhas no planejamento do projeto de pesquisa. Deve-se tomar cuidado para não confundir estudo de caso com etnografia ou observação participante. E ainda não ser ou não virar o subconjunto ou variante dos projetos de pesquisa utilizados por outros métodos como experimentos ou pós-testes de casos únicos (YIN, 2005).

Em nosso trabalho, adotaremos um estudo de caso único. As principais justificativas para a escolha desta modalidade de pesquisa são: (a) quando ele representa um caso crítico, essencial no entendimento do fenômeno no contexto; (b) quando se trata de um caso único, preenchendo todas as condições para o teste da teoria, podendo confirmá-la, desafiá-la ou ampliá-la e (c) também quando se trata de um caso extremo ou peculiar, fora dos padrões do contexto, com particularidades que o tornem singular. Igualmente pode se justificar o uso do estudo de caso único quando o caso é típico ou representativo, que possa servir como símbolo de outros processos semelhantes. Há ainda o estudo de caso revelador, que ocorre quando um investigador tem a oportunidade de observar e analisar um fenômeno previamente inacessível à investigação da ciência social. A última justificativa para estudos de caso único é o caso

longitudinal, em que o estudo do mesmo caso se dá em dois ou mais pontos diferentes do tempo.

Previamente, antes de se iniciar a pesquisa de campo, podemos supor que um estudo de caso único sobre as formas como jornalistas de um grande periódico impresso tomam decisões em suas carreiras possa se enquadrar em algumas das categorias apresentadas acima. Caso não seja considerado um caso crítico, uma vez que são poucos os periódicos do porte de O Estado de S. Paulo em atividade no Brasil, certamente trata-se de um caso típico ou ao menos bem representativo das transformações pelas quais estão passando nos últimos anos este tipo de organização e seus funcionários. Por outro lado, há evidências de que aborda uma

faceta pouco revelada de uma organização não muito aberta à investigação da ciência social, que geralmente se coloca como contadora de histórias e não reveladora de sua própria dinâmica. Também se justifica o uso de estudo de caso por se tratar de uma população específica em um contexto particular (YIN, 2005).