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DOUGLAS W. HOLLIDAY

In document Årbok 1965 (sider 81-94)

Actualmente, como referido por Friedmann, as configurações do poder e do capitalismo global tem resultado na exclusão da maioria dos pobres do mundo da participação económica e política. Um leque de privações e injustiças notáveis atinge as populações mais vulneráveis naquilo que se pode designar de uma crescente “desumanização” do ser humano. Milhões de pessoas sofrem a realidade da extrema pobreza, taxas de desemprego encontram-se em níveis impensáveis (não são números mas vidas humanas em jogo), ameaças crescentes pairam sobre a sustentabilidade da vida económica e do equilíbrio do planeta. Um desenvolvimento alternativo é necessário segundo o autor no sentido de reequilibrar a estrutura de poderes na sociedade tornando a acção Estatal mais sujeita ao controlo das populações e a ação empresarial socialmente mais responsável. É necessário atribuir mais poderes à sociedade civil e comunidade política na resolução dos problemas e desafios globais. A perspectiva do “desenvolvimento comunitário” oferece suporte para tal participação. Ela surgiu nos finais da década de 50 impulsionado principalmente pelas Nações Unidas (Cf. Amaro, 2004; Henriques, 2006). É resultado de experiencias práticas do trabalho de técnicos das nações unidas nos países em desenvolvimento e da sua frustração com as receitas tidas como viáveis para o desenvolvimento baseadas no “economicismo”. As referidas experiências levaram a se considerar

que “mudanças socioeconómicas” relacionam sobretudo com “mudanças de atitudes e comportamentos”23 no sentido de maior ação, particularmente “Acção coletiva”. Neste sentido vários

trabalhos, utilizando o voluntariado, procuraram envolver as comunidades locais numa base colectiva no sentido de entender e resolver problemas individuais.

Para a perspectiva do desenvolvimento comunitário, o desenvolvimento global só ocorre se as pessoas são envolvidas no seu próprio desenvolvimento. Assim, a organização da sociedade civil para trabalho colaborativo que facilita a mobilização integral de recursos é considerado mais eficaz para a promoção de desenvolvimento que políticas de Autoridades que impõe medidas de cima para baixo. Promoção da participação, empowerment e efectiva organização são os grandes contributos desta perspectiva.

A participação, principalmente dos “disempowered” que são o foco da nossa atenção, não é uma questão fácil de obter. No entanto não é impossível. A não participação muitas vezes resulta de imposição de medidas, de forma autoritária, por parte de instituições do poder, falta de expectativa das populações em relação às intervenções e desconfiança em relação às mudanças ou melhorias que pode provocar. A animação das comunidades locais para a “mudança de mentalidades”, a criação, com a comunidade e a partir das suas necessidades, de intervenções e o envolvimento no sentido de ganhar “consciência crítica” sobre os problemas e as suas próprias vidas são factores essenciais. A participação eficaz depende de habilitação, competências e capacidades para tal ou seja do processo de “capacity building”.

1.1.17. Paulo Freire, conscientização e acção colectiva

“O homem chega a ser sujeito por uma reflexão sobre sua situação, sobre seu ambiente concreto.

Quanto mais reflectir sobre a realidade, sobre sua situação concreta, mais emerge, plenamente consciente, comprometido, pronto a intervir na realidade para mudá-la.”

Paulo Freire

Os “disempowered” e “oprimidos” enfrentam injustiças, exploração e violência de opressores o que se traduz numa “desumanização” do ser humano. A teoria do desenvolvimento comunitário foi influenciada pelo trabalho de Paulo Freire sobre a educação de adultos antes e depois do golpe de Estado de 1964 no Brasil e depois no Chile. Seguindo de perto este autor, a “desumanização” não é um “destino dado” mas uma realidade resultante de uma “ordem” injusta que pode ser mudada. Contudo a mudança só pode ser obtida através da luta que por sua vez pressupõe conhecimento, pelo oprimido, das causas da opressão, uma “inserção crítica” na realidade opressora, reflexão ou “conscientização” e ação sobre o mundo no sentido de transformá-lo (“praxis humana”). Para o autor somente os homens podem agir conscientemente sobre a realidade objectiva e a educação é a chave para uma acção consciente e eficaz no sentido de “denunciar” a estrutura “desumanizante” e anunciar a “humanizante”.

Criticando a educação convencional como “Bancária” e “Opressora” propõe uma pedagogia diferente a que designou de “pedagogia do oprimido”.

“Pedagogia do Oprimido” é aquela que tem de ser forjada com ele e não para ele, enquanto homens ou povos, na luta incessante de recuperação de sua humanidade. Pedagogia que faça da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos, de que resultará o seu engajamento necessário na luta por sua libertação, em que esta pedagogia se fará e refará (Freire, 1970:17).

A nível da acção colectiva propõe a “Teoria de acção Dialógica”. A mesma centra, ao contrário da educação “Bancária”, em características como a “colaboração”, a “união”, a “Organização” e a “Síntese cultural”. As pessoas se juntam para a transformação do mundo (“colaboração”), As lideranças tem a obrigação de unir os oprimidos e estar em “comunhão” com eles (“união para libertação”), os oprimidos organizam-se para a sua própria acção (“organização”), a “Acção cultural dialógica” visa a transformação da estrutura social trabalhando com as massas oprimidas a problematização ou “inserção crítica” à realidade opressora (uma “síntese” da “própria cultura alienante e alienada”) a partir dos “temas básicos” de interesse significativo do povo (“temas geradores”) que devem ser a base para a “acção cultural”.

A organização dos “disempowered” mas sobretudo trabalhar com os mesmos a formação de “consciência crítica” sobre a realidade e capacitação para acção são factores cruciais para reequilibrar a estrutura de poder na sociedade, promover a integração económica e permitir aos “oprimidos” serem mais. Em contexto de globalização o método de Freire emerge como uma ferramenta essencial no sentido de ajudar os desfavorecidos a “ler o mundo” e agir no sentido melhorar suas condições de vida. A educação é um fator fundamental no reforço de capacidades dos “disempowered” e que pode influir no ciclo de pobreza que, muitas vezes afecta várias gerações das famílias mais desfavorecidas. No mesmo sentido, pode ter um efeito importante nas condições de vida dos “disempowered”, actualmente, a promoção do acesso às tecnologias de informação e comunicação. Levá-los aos pobres significa aumentar os seus poderes na luta pela melhoria das suas condições de vida. Por último não se pode ignorar a importância das organizações comunitárias na produção de valor uso numa base colectiva, actualmente fundamental para a integração económica, em contexto de crise no “sector de acumulação”.

2. Parte II. Reestruturação global, Emergência do “local” e

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