CHAPTER 2: LITERATURE REVIEW
2.4 Domestic water heaters
Como já citado no capítulo anterior, lançamos mão de conceitos da sociolinguística interacional que nos ajudassem a compreender o fenômeno da alternância tu e você. A natureza do lugar (setting ou quadro temporal) é, pois, um dos critérios levados em consideração quando da configuração da natureza da interação (cf. KERBRAT- ORECCHIONI, 2006). Assim, codificamos o locus físico em que aconteceram as gravações, a saber: na casa do informante, no trabalho informante e as interações ocorridas em um carro e em um restaurante, partindo do pressuposto de que o tu sem concordância fosse mais recorrente em ambientes informais sendo menos usado, portanto, em ambientes mais formais. Mas, conforme visto no item 4.1, o programa não selecionou essa variável, que foi sendo descartada à medida que outras variáveis eram analisadas em conjunto. Contudo, optamos por apresentar os resultados percentuais visando ter uma ideia de como se deu a seleção da forma pronominal pelo falante de acordo com o ambiente físico em que ocorreram as gravações. Vejamos os resultados:
Tabela 24 – Variação tu sem concordância, tu com concordância e você de acordo com o locus físico em percentuais
LOCUS FÍSICO TU
SEM CONC
TU
COM CONC VOCÊ
informal (casa/carro/restaurante) 78,2% 555/710 8,7% 62/710 13,1% 93/710 formal (trabalho) 58,5% 186/318 21,4% 68/318 20,1% 64/318 Total 72% 741/1028 13% 130/1028 16% 157/1028
De acordo com os resultados percentuais expressos na tabela 24, vemos o tu sem concordância sendo favorecido em ambientes mais informais, com percentual de 78,2%. Os dados da amostra do colaborador alvo João – gravado apenas em ambientes mais informais, como casa e em interações ocorridas em um carro e em um restaurante – confirmam essa tendência. Não esperávamos, contudo, que essa variante fosse também usada em ambientes mais formais, como trabalho e faculdade.
Recorrendo à amostra da colaboradora alvo Ana, podemos observar que as primeiras gravações realizadas no seu trabalho apresentam a seguinte configuração: uma, é o resultado da interação dessa informante com seus amigos; a outra, com um colega de faculdade; e a terceira, com uma professora. Tal configuração já nos permite entender o porquê de o tu sem concordância ter sido selecionado em um quadro temporal em que era esperado um discurso mais apropriado ao lugar, ou seja, o uso de formas mais formais ou mais cerimoniosas como o tu com concordância e o você.
Fica evidente que as escolhas linguísticas da colaboradora alvo Ana estão relacionadas tanto ao ambiente físico como às relações que mantêm com as pessoas participantes da interação, dois dos três fatores que compõem o quadro interacional nos dizeres de Bortoni-Ricardo (2008). Ou seja, a nosso ver, esses fatores levam a colaboradora alvo Ana a uma monitoração estilística que vai de um eixo mais ou menos formal em função do alinhamento que assume mediante o seu interlocutor.
Sendo assim, a forma tu sem concordância sinaliza o enquadre de intimidade entre Ana e os seus amigos. Do outro lado, observa-se uma mudança de estilo quando, visando o distanciamento social, ela opta pelas formas tu com concordância e você para tratar um colega de faculdade e um conhecido. O trecho a seguir mostra o momento em que, ao ser interpelada por um interlocutor ‘circunstancial’, uma pessoa não íntima, a informante altera
conscientemente sua escolha linguística para tratar esse interlocutor. O alinhamento ao novo enquadre da interação conduz ao estilo mais monitorado levando a falante, inclusive, a realizar uma dupla concordância:
interação entre amigos e um interlocutor ‘conhecido’ (95)
Ana: TU SABE que eles pagam, né? Eles dão o dinheiro pra o coordenador comprar o lanche...
Amiga: Poxa, aquele lanche da gente ficou o “ó”. (toca o telefone)
Amigo: Projeto ALiMA, bom dia!”... ‘M.’, ‘O.’ ao telefone, PRA TI.
Ana: Oi ‘O.’, Tudo bem... Consegui a (inint). A professora vai ficar com (inint). Ai houve uma determinação do Comitê, ai ela vai informar por email, tá. Ai, eu acho que não, não, mas ela vai TE explicar direitinho como acontece, entendeu? Não, ai eu não sei como é que fica, ai ela vai mandar PRA TI, uma solução lá. Eu sei que ela vai se comunicar diretamente contigo, Eu sei que ela vai u mandar um email, tá bom? Acredito que hoje mesmo ela... Não, TU
MANDASTES TEU email que eu te mandei os primeiros dados? Pois é, por
aquele email ela vai entrar em contato contigo. TU TEM outros pra me dá? Tá. Não é ao contrário não? TU TENS do ALiB, TU TENS do ALiMA, é do ALiB. Pera ai rapidinho... ‘O.’, quer dizer que TU LEVASTES dados do ALiMA? Hum... ai seria de onde? Só de Imperatriz? São quatro, né? Hum rum, não é que eu tô pensando. Eh!! Qual é o TEU telefone? Oitenta e oito trinta, sessenta vinte e um. Ei ‘O.’, de qualquer forma, a professora vai entrar em contato CONTIGO. Se é do ALiMA, então a história muda, entendeu? Mas ai, ela vai conversar CONTIGO de qualquer forma. Tá bom, tá certo. Tchau!!
amiga de Ana: F8 (mulher, 31 anos, ensino superior) amigo de Ana: F9 (homem, 30 anos, ensino superior)
É oportuno, ainda, dizer que “conversas ao telefone” se configuram excepcionalmente como boas oportunidades para estudar o espectro da variação estilística em meio a entrevista (cf. LABOV, 2008, p. 155). Adaptando essa proposta de Labov a nossa amostra que relembramos, é constituída de interações livres, vemos que o ambiente físico do trabalho, nesse caso, a faculdade, foi determinante para a escolha por um tratamento mais formal. Convém ressaltar que a forma senhora foi também registrada no ambiente de trabalho para marcar a relação assimétrica (inferior/superior) entre aluno e professor.
O fato de nossa amostra não estar equitativamente equilibrada entre os ambientes, não nos permite conclusões específicas acerca do efeito locus físico. No entanto, considerando o tu sem concordância como o extremo da informalidade na esfera T, podemos supor que essa variante é a mais esperada em ambientes menos formais. Do outro lado, as
formas tu com concordância e você estariam na esfera V sendo, portanto, mais suscetíveis de ocorrer em ambientes mais formais.
A análise por indivíduo nos permite, ainda, considerar que o fator tipo de relação assim como o componente “tópico discursivo” atuam junto ao locus físico na mudança estilística do falante.Veremos, no item 4.3.1, o momento em que o colaborador alvo João, mesmo em ambiente informal, faz uso do você para tratar uma amiga, tratamento também recorrente em ambientes mais formais, conforme indicado na tabela 24.