Autores como Baltes, Staudinger & Fleeson (1999) concordam que características estruturais como os traços e as dimensões da personalidade também relacionam-se com o bem- estar, uma vez que “contribuem na forma como nós tipicamente experienciamos e vemos o mundo e como nós tipicamente reagimos e nos comportamos” (p.306). Para eles, algumas dimensões estáveis da personalidade têm sido demonstradas como estando relacionadas com o Bem-Estar Subjetivo ou com a sua ausência: a extroversão e o senso de abertura para experiências têm evidenciado uma positiva relação com o bem-estar global; já o neuroticismo, por exemplo, tem revelado uma significativa relação negativa.
Diener (2000) é outro autor que integra a personalidade aos estudos sobre Bem-Estar Subjetivo: segundo ele, o nível de bem-estar ao qual as pessoas retornam após terem passado por eventos estressantes ou ameaçadores é influenciado pelos seus temperamentos: “(...) as predisposições de personalidade aparecem como sendo um dos fatores que mais fortemente influenciam os níveis de Bem-Estar Subjetivo a longo termo” (p.5).
Já Csikszentmihalyi (1999) denomina de autotélicas aquelas personalidades que se motivam por metas internas, ou seja, aqueles indivíduos que geralmente fazem as coisas por si mesmas, sem estarem direcionados para qualquer recompensa ou meta externa posterior. São pessoas que possuem uma elevada energia psíquica, estando atentas a tudo o que acontece ao seu redor e dedicando-se às atividades pelo que elas têm de interessante - e não esperando por qualquer tipo de feedback posterior. Pelo fato de se gratificarem unicamente com o prazer e com a satisfação proporcionados pelas próprias experiências em si, ou seja, por sentirem que tudo o que fazem é importante e valioso por si mesmo, as pessoas autotélicas seriam mais livres de manipulações e menos dependentes de recompensas externas – afinal, são coisas que não
interferem no seu nível de satisfação ou bem-estar. Embora nenhuma pessoa seja totalmente autotélica – pois algumas vezes precisamos fazer coisas de que não gostamos – para Csikszentmihalyi (1999) os indivíduos com esta característica enfrentam a vida sempre com muito entusiasmo e envolvimento, experimentando a sensação do fluir no trabalho, na vida familiar e até mesmo quando estão sozinhas ou sem nada para fazer.
Por outro lado, pesquisas recentes têm revelado que algumas variáveis socioestruturais tais como idade, gênero e status sócio-econômico aparecem em correlação negativa com o Bem-Estar Subjetivo (Baltes, Stautinger & Fleeson, 1999; Myers, 2000). No entanto, quando se passa a analisar o bem-estar no domínio da saúde, existem indicações de que adultos mais velhos (idade acima de 65 anos) avaliam sua saúde como sendo pior do que adultos na meia-idade – mesmo no caso daqueles que, objetivamente, estão no controle de sua saúde. Ainda assim, considera-se que existe uma relação negativamente moderada com a idade (Baltes, Stautinger & Fleeson, 1999; Myers, 2000).
Tal como a idade, o gênero dá poucas pistas em relação ao bem-estar global, e o achado predominante nas pesquisas é a ausência de diferenças importantes entre homens e mulheres. Apesar das mulheres informarem mais emoções negativas do que os homens, elas também expressam mais emoções positivas do que eles – num balanço geral, não existem diferenças de gênero significativas para o sentimento de bem-estar (Baltes, Stautinger & Fleeson, 1999; Myers, 2000; Seligman, 2004).
Mirowsky & Ross (1989) – autores que trabalham com o conceito de distress (estado afetivo desagradável e subjetivo, que se apresenta principalmente através dos sintomas da Depressão e da Ansiedade) – elegeram três ingredientes para o que eles nomeiam de Bem-Estar
Afetivo: 1º) ter um bom emprego; 2º) ter um relacionamento de apoio, baseado em lealdade e
bem-estar” (p.182). Para esses autores, ter um bom emprego tem impacto importante na redução do distress e, conseqüentemente, na promoção do bem-estar. Além disso, permite ao indivíduo expressar autonomia – dimensão relacionada à competência e às crenças de auto-eficácia e considerada também um preditor do Bem-Estar Psicológico (Baltes, & Silverberg, 1994; Warr, 1987).
Para Mirowsky & Ross (1989) é a educação, entretanto, a fonte, a origem de todo o bem-estar. Ao considerarem bem-estar como sendo uma “ativa, atenciosa e efetiva resolução de problemas” (p.182), seria a partir da educação que se desenvolveriam as habilidades para resolver problemas em todos os níveis, inclusive pessoais. Seligman (2004) concorda apenas em parte com os autores citados. Para ele, pessoas menos cultas também podem encontrar satisfação dentro de suas possibilidades.
No entanto, ambos os autores concordam num aspecto: a importância dos relacionamentos próximos de boa qualidade afetiva – também denominados de suporte social - como bons preditores de Bem-Estar Subjetivo. Ou seja, emocionalmente, é bom ter alguém para você cuidar e ter quem cuide de você. Mirowsky & Ross (1989) chamam isto de “elementar necessidade humana” e, segundo eles, relacionamentos de apoio reduzem o distress quaisquer que sejam as condições e eventos da vida. Essa redução do distress provocada pelo suporte social deve-se ao fato de que este permite ao indivíduo perceber um aumento no seu grau de controle pessoal sobre o ambiente (Goldstein, 1995).
Aquilo que Mirowsky & Ross (1989) chamam de “elementar necessidade humana”, Myers (2000) denomina de “necessidade de pertencimento”. Segundo ele, essa necessidade profunda que o homem tem de estar em grupo é herança de uma época em que nossos ancestrais precisavam andar em bandos para enfrentar os inimigos, garantir a alimentação e cuidar da prole. “Por causa dessa nossa necessidade de relacionamentos próximos (...) nós prometemos telefonar,
escrever, vir às reuniões; procurando por aceitação e pertencimento, nós gastamos milhões em roupas, cosméticos, dieta, academia...” (p.9) – ou seja, tudo é feito na tentativa de preservar, a todo custo, os relacionamentos. “Uma montanha de dados revela que a maioria das pessoas são mais felizes quando estão juntas do que quando estão sozinhas” (Myers, 2000, p.10).
Também para Csikszentmihalyi (1992), estar ou não na companhia de outras pessoas e o modo como conduzimos nossos relacionamentos faz uma grande diferença para a qualidade das experiências de vida e para o sentimento de bem-estar. Segundo ele, as pesquisas na área das ciências sociais têm demonstrado que as pessoas sentem-se melhor com os amigos e a família, ou apenas na companhia de outros, do que sozinhas. E conclui: “não há dúvida de que somos programados para buscar a companhia de nossos semelhantes (...) todos se sentem mais vivos quando rodeados por outras pessoas” (p.236). Para este autor, aprender a se relacionar bem com os outros eleva substancialmente a qualidade de vida; e quando se consegue enxergar as pessoas como sendo valiosas pelo que elas são em si – e não apenas porque elas são importantes para a realização de nossos interesses – elas podem se constituir então na mais completa fonte de satisfação para alguém.
Para muitos pesquisadores (Mirowsky & Ross, 1989; Carstensen, 1995; Myers, 2000; Seligman, 2004), o casamento (ou uniões estáveis), enquanto importante fonte de suporte social, também está associado significativamente ao Bem-Estar Subjetivo. Segundo Myers (2000), repetidas pesquisas na Europa e na América do Norte têm produzido um resultado consistente: comparadas com aquelas que nunca casaram e, especialmente, comparadas com aquelas que se separaram ou se divorciaram, as pessoas casadas revelam serem mais satisfeitas com a vida.
Seligman (2004) também acredita que o casamento está intimamente ligado ao sentimento de satisfação com a vida, pelo fato das pessoas casadas se sentirem mais amparadas.
Ele apresenta resultados de uma pesquisa nos Estados Unidos que ouviu 35 mil pessoas nos últimos trinta anos. Dessas, 40% das casadas se disseram muito satisfeitas com a sua condição, contra 24% das solteiras, viúvas e separadas. Considera-se que o casamento, quando marcado pela intimidade e pelo companheirismo, favorece os sentimentos positivos de segurança, afeto e auto-estima.
Na realidade, os relacionamentos próximos e satisfatórios, além de influenciarem no bem-estar, também interferem nas condições de saúde – e isto tem sido confirmado de forma consistente pelos epidemiologistas que vêm acompanhando milhares de casos clínicos ao longo dos anos. Sabidamente, em situações de quebra de vínculos sociais, tais como viuvez, divórcio ou demissão de emprego, as defesas imunológicas da pessoa se enfraquecem e as taxas de enfermidades e de morte se elevam. Em casos de doenças graves ou ameaçadoras da vida, como câncer, por exemplo, as pessoas que experimentam maior nível de suporte social têm índices mais elevados de sobrevivência. Comparadas com aquelas que têm poucos laços sociais, as pessoas apoiadas por relacionamentos próximos e satisfatórios com o cônjuge, com amigos, familiares, companheiros da igreja, do trabalho ou de outros grupos de suporte, são menos vulneráveis a prejuízos na saúde e à morte prematura (Csikszentmihalyi, 1992; Myers, 2000).