Pai Caio de Xangô.
Caio Egydio de Souza Aranha – Pai Caio de Xangô, nascido aos 25 de novembro de 1925, na cidade de São Paulo, na região da Lavapés atual bairro do Cambuci, foi o fundador do Terreiro Axé Ilê Obá, registrado como Congregação Espírita Beneficente Pai Jerônimo.
Caio Egydio foi criado por sua avó Cândida, na cidade de Campinas/SP, a família Egydio origina-se de Felício e Efigênia que, segundo Mãe Sylvia de Oxalá, eram filhos de africanos trazidos para Campinas, no começo do século XIX. Contudo que não chegaram a ser escravizados, visto que foram libertos pela família Egydio de Souza Aranha. Ela lembra que:
“Egydio de Souza Aranha.... esse nome é de quando eles vieram pra cá. ( Felício e Efigênia), a família Egydio de Souza Aranha, deu enxoval, deram profissão e aos poucos eles libertavam os escravos. Com isso minha família foi diferente, meus tataravós, tetravós lidavam com ouro que vinha de Araraquara. Minha bisavó em Campinas fazia as comidas de Washington Luis quando eles ficava em Campinas. Ee minha tiabisavó Joana, irmã da bisavó Candida, aprendeu ler e escrever pra rezar, morou em São Paulo perto de Higienópolis onde era mais barato, naquele temp. Frequentava a
Igreja ali na Higienópolis com a Angélica. Meu tiobisavô tinha casa por ali, meu pai nasceu lá na casa dele. Minha vó foi pra lá pra ganhar o filho, porque antigamente tinha esse hábito de ir na casa do mais velho pra esperar o nenê, juntavam as mais velhas pra ajudar dar a luz. Minha bisavó Cândida morava em Campinas, era conhecida como Nhá Canga, todo mundo conhecia ela por lá, ela fazia festas homéricas, no aniversário dela a família se reunia e ficava dançando por lá depois da missa lá na Regente Feijó em Campinas. Ela rezava missa pras borboletas e cuidava de pedras, isso já era orixalidade com certeza”.
A origem do sobrenome remete a história de Francisco Egydio de Souza Aranha e de seu filho Joaquim Egydio de Souza Aranha, o primeiro foi cafeicultor dono das fazendas Engenho Mato Dentro e Fazenda São Francisco, na cidade de Campinas e possuía um número expressivo de escravos. Já o segundo além de cafeicultor foi um grande proprietário urbano e rural, nascido em Campinas em 1821, foi deputado provincial e chegou a ser Presidente da Província de São Paulo em 1878-1879 e em 1881-1882, ficou conhecido como Marquês de Três Rios, título dado por Dom Pedro I em 1887. Hospedou no seu Solar do Largo da Catedral em Campinas, a Princesa Isabel e seus filhos em 1884, na visita desta última ao interior de São Paulo, onde observou a nova situação da mão-de-obra imigrante que estava ocorrendo nas fazendas de Campinas. Viveu em São Paulo na Rua do Carmo, onde faleceu em 1893. Fundou o Banco de Comércio e Indústria em São Paulo foi provedor e fundador da Santa Casa de Misericórdia e do antigo Hospital dos Variolosos.
A cidade de Campinas chegou a ter a maior população escrava da província, em razão da produção do café, mas na segunda metade do Séc. XIX, com as novas relações de trabalho que estavam se consolidando, foi possível que, parte da população negra obtivesse a liberdade.
Devido ao apadrinhamento por partes dos senhores, era costume que muitos negros escravizados, libertos e alforriados recebessem o nome da família como doação, essa constatação parece explicar a origem do nome Egydio de Souza Aranha, herdado por Pai Caio.
Do casal Felício e Efigênia, nasceu a avó Cândida, que segundo Mãe Sylvia era uma famosa doceira em Campinas/SP, conhecida do Presidente Washington Luís que, quando se hospedava na cidade era sua “doceira oficial”.
Cândida foi avó de Caio Egydio e, com o dinheiro que ganhava no ofício de doceira conseguiu um grande patrimônio, tendo sido uma das primeiras mulheres negras a ter um pequeno capital e possuir imóvel na cidade de Campinas/SP.
Caio Egydio de Souza Aranha teve suas primeiras manifestações espirituais desde o nascimento. Segundo Mãe Sylvia, Caio nasceu enrolado ao cordão umbilical, o que sugeria uma relação entre ele e o orixá Xangô, já que, conforme o mito, Xangô se enforcou e ressuscita pela mediação das iabás24. Deste modo, ao nascer ele teria sido salvo, por conta de sua relação com esse orixá.
Aos 07 anos de idade, as manifestações espirituais tornaram-se comuns, como a aparição de cores no quarto onde ele repousava, tal fato começou a gerar estranhamento por parte de seus familiares, que em sua maioria eram católicos praticantes e não compreendiam nem aceitavam tais acontecimentos.
Essas manifestações são lembradas por Mãe Sylvia de Oxalá, sua sobrinha:
“Ele era diferenciado. Na família diziam que ele materializava pedras e cores, naquele tempo Vovó Cândida nossa matriarca era a única que entendia, aliás, foi com ela que aprendi a cultivar a energia das pedras, o
resto da família muito católica achava estranho o que acontecia”.
Em consequência do aumento das manifestações, aos 12 anos de idade Caio, teria entrado em transe. As circunstâncias nas quais esse transe se produziu, iriam confirmar as suspeitas sobre a relação entre Caio e o orixá Xangô. Foi durante uma reza, quando um trovão entrou no quarto, possuindo-o. Também a idade é representativa no conjunto das revelações ligadas à essa teofania25, uma vez que o número 12 é a posição do jogo de búzios que se refere ao orixá Xangô, também representado pelo trovão. Logo, o cenário dessa teofania se compunha então dos seguintes elementos: o transe, o trovão, o número 12, a combinação desses elementos nessa circunstância confirmam que o orixá Xangô havia escolhido Caio como seu protegido, nascia ali Caio de Xangô, que futuramente seria conhecido por Pai Caio de Xangô – Obá Inan26, nome que está inscrito até hoje na parte de cima da porta que separa o espaço público das festas, do espaço privado no terreiro Axé Ilê Obá.
Em função desses acontecimentos, sua família resolve entregar Caio à Irmandade dos Remédios em 1938, quando ele tinha 13 anos. A intensão era que ele se tornasse seminarista e futuramente padre. Por essa época a família Egydio já estabelecia
24 Iabás: Orixás associadas ao poder feminino, são elas: Oxum, Iansã, Obá, Euá, Iemanjá e Nanã. 25 Teonafia: Manifestação de Deus em algum lugar, coisa ou pessoa. Expressão teológica.
26 Obá Inan, nome recebido por conta de sua iniciação. Os iniciados no candomblé recebem um nome,
chamado “orunkó”, numa cerimônia própria. Esse nome remete à qualidades ou atributos do orixá na qual o pessoa é iniciado e, aqui Oba Inan em tradução livre significa o rei do fogo, numa alusão à Xangô reverenciado como rei e inan, numa alusão ao trovão, fenômeno da natureza que o singulariza.
relações com essa Irmandade. Alguns membros da família já participavam dessa irmandade na cidade de São Paulo.
Dois anos se passaram e, as manifestações não cessavam. Cientes de que não era possível permanecer com ele no interior da Irmandade, ele é entregue a duas tias Dona Ana e Dona Joana, ambas residiam no bairro da Bela Vista. Elas decidem levá-lo a cidade de Salvador, com a finalidade de encontrar soluções para as manifestações que se tornavam mais intensas.
Foi no período próximo a Segunda Guerra Mundial, que de barco dirigiram-se a Baia de Todos os Santos. Tal lembrança é retomada por Mãe Sylvia:
Quando elas resolvem levá-lo para a Bahia é o início da guerra. Elas sempre diziam que quando embarcaram em Santos, viam a movimentação de pessoas no porto e tiros de canhão em alto mar, anunciando a guerra. Com isso que a gente sabe mais ou menos, o tempo que ele foi pra lá, ele era bem jovem tinha uns 15 anos quando deixaram ele por lá.
A viagem de barco até Salvador durou meses e elas resolveram deixar Caio Egydio, nas imediações da Cidade Baixa em Salvador, local onde a presença de religiosidades negras era intensa.
Em 1940, com 14 anos de idade, foi deixado na cidade de Salvador para os cuidados espirituais. No mesmo ano, seguindo as determinações de Tia Massi da Casa Branca, é entregue aos cuidados de Otacília de Ogum e de Equede Jilú de Obaluaê, - Januária Maria da Conceição. Ambas da Casa Branca do Engenho Velho. Pai Caio teria sido iniciado para o orixá Xangô, através dessas mulheres, segundo conta a tradição oral da casa.
A Casa Branca do Engenho Velho ou Ile Ya Nassô Oká, se trata do terreiro de candomblé nação queto, que é considerado o mais antigo da cidade de Salvador e, terreiro “origem” do Terreiro do Gantois e do Ilê Axé Opo Afonjá. Naquele período não se realizavam iniciações de homens, pois era proibido, porém em alguns casos dada a urgência e a necessidade, procedia-se as iniciações em ambientes fora do terreiro ou em alguns casos em terreiros paralelos que muitas dessas ‘tias” possuíam. Assim é o caso de Pai Agenor Miranda, que foi iniciado por volta de 1908, na Ladeira da Praça no Pelourinho por Mãe Aninha do Axé Opô Afonjá e, de Pai Bobó de Iansã, iniciado em 1933, no Terreiro de Oxumare.
Equede Jilú de Obaluaê e Tia Otacília de Ogum realizavam iniciações de homens na região Central de Salvador, com a ajuda de um grupo de mulheres e de
alguns homens vinculados à Casa Branca. Era Tia Massi, ialorixá da Casa Branca à época, quem determinava o orixá e orientava as iniciações.
Apesar da proibição, tal prática era comum também em outros terreiros. Assim, no ano de 1941, Caio Egydio é iniciado para o orixá Xangô e recebe o nome de Obá Inan, o Rei do Fogo. Reside em Salvador até 1949, onde segundo conta a tradição oral do Axé Ilê Obá, teria recebido os direitos, por conta de sua senioridade iniciática, das mãos da ialorixá Menininha do Gantois. E, retorna à cidade de São Paulo para dar início a suas atividades religiosas.
Não aceito pela família em razão das manifestações espirituais, Pai Caio de Xangô, começa a ter que sustentar-se. Então em 1950 torna-se dono de um açougue na região da Lapa, inicia também sua carreira artística na Boate Feitiço na Avenida São João, como cantor popular.
Na Boate Feitiço, Pai Caio se destacou por seu talento artístico, apresentava-se toda a semana cantando sambas, músicas populares e operetas. Lá na Feitiço, as interações com a classe média paulistana vão se consolidando e também o contato com alguns artistas. Tais contatos possibilitaram a ele tornar-se conhecido no meio artístico para além do talento. Nesse tempo, já começa a atender clientes para trabalhos espirituais.
Ainda na boate Feitiço, Pai Caio tornara-se empresário e divulgador de alguns artistas, o que possibilitou amplos contatos, como por exemplo com Dercy Gonçalves.