2. Metode
4.4 Dokumentarens evne til å skyve etiske grenser
31 A orfandade foi debatida, mesmo que de forma escassa, em diversos âmbitos, principalmente na área de Saúde Pública. Andrea Paula Ferrara realizou seu trabalho de mestrado em 2009 pela Universidade de São Paulo (USP), focando na orfandade em decorrência da Aids, buscando compreender o significado de ser órfão para jovens que perderam um ou ambos os pais e compreender os processos de estigmatização decorrentes dessa morte. Ela encontrou cinco significados associados a orfandade: "dificuldade de falar sobre a orfandade ligada à Aids; sentir falta do cuidado materno; o desafio de ser independente; não se sentir órfão e sentir tristeza em decorrência da morte" (FERRARA, 2009, p. 81).
A orfandade também foi abordada na Psicologia Social, como no artigo de Moratilla- Olvera e Taracena-Ruiz (2012), onde afirmam que entre os problemas inerentes às crianças e adolescentes órfãs está a carência de modelos adultos, com uma íntima relação afetiva, em que se espelhar. Eles deixam de ter esta influência para a construção de uma identidade que favoreça uma transição mais saudável para a vida adulta (p.843).
Esta abrupta transição se apresenta nas baixas condições de qualidade de vida que possuem, o que tende a fazer com que percam sua dignidade frente aos outros (MORATILLA- OLVERA; TARACENA-RUIZ, 2012, p.851). Dentre as dificuldades enfrentadas está manter- se na escola, ter acesso à diversão, serviços médicos e estarem inseridos em um contexto onde é constante o consumo de álcool, drogas e gravidez precoce (MORATILLA-OLVERA; TARACENA-RUIZ, 2012, p.851). Segundo as autoras, tudo isto faz com que seja mais difícil para estas pessoas tomarem decisões saudáveis para suas vidas. Elas trazem dados da Unicef sobre a quantidade de órfãos na América Latina, chegando a uma estimativa de que haja 10,7 milhões de meninos e meninas nestas condições. O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking, com 3,7 milhões.
Ser economicamente pobre e órfão faz desta criança ou adolescente duplamente vulnerável. Em geral têm menos acesso à educação e aos serviços de saúde e enfrentam mais elevados níveis de desatenção, abandono e abuso (MORATILLA-OLVERA e TARACENA- RUIZ, 2012).
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estima que das 47 mil crianças que vivem em abrigos no Brasil, apenas 12% são adotadas. Vários são os motivos para um índice tão baixo, como vínculo com a família de origem, idade fora dos padrões desejáveis pelos futuros pais que integram o Cadastro Nacional de Adoção e até casos de doenças, os tornam preteridos.
32 Meninos e meninas são empurrados para esta realidade por razões que vão desde a negligência dos pais, maus tratos, abuso sexual e etc. Outros, porque ficaram órfãos. Apesar de possuírem trajetórias distintas, essas crianças percorrem caminhos muito parecidos, perambulam por lares que também sofreram com respingos da tragédia familiar, como a casa de parentes e vizinhos, e não é raro que a falta de estrutura em recebê-los os coloque em acolhimento institucional.
Joaquim, assim como o irmão dois anos mais novo, tentou viver na casa de uma tia, que não teria tido condições financeiras e psicológicas para cuidar dos dois e os encaminhou para um abrigo. Cresceram em uma instituição que possuía um padrão de classe média, em contraste com o nível socioeconômico experimentado junto aos familiares.
Na entrevista biográfica, as passagens da narrativa de Joaquim que envolviam a aproximação com o final do acolhimento, aos 17 anos, transpareciam um dos momentos mais angustiantes de sua trajetória. São contornados por uma aflição frente ao fim do aconchego institucional e também pelo pesar de deixar para trás um conforto de alto padrão, conforme ele mesmo admite, o que exploraremos no capítulo 5.
É com base nestes relatos que traço uma conexão simbólica entre os 17 anos de idade de um abrigado e a velhice. Pierre Bourdieu (1983) coloca em questão os itens que são levados em conta para determinar a passagem do tempo na vida da pessoa. Dependendo do ponto de vista, do meio e da circunstância onde o indivíduo está inserido, a perspectiva se altera deixando-o mais novo ou mais velho do que a sua idade biológica permite qualificá-lo no mundo. Segundo Bourdieu, “a juventude e a velhice não são dadas mas construídas socialmente, na luta entre os jovens e os velhos. As relações entre idade social e a idade biológica são muito complexas” (1983, p. 152).
Aplico estes conceitos ao acolhimento institucional de crianças e adolescentes para apresentar o grau de crueldade que significa ter 17 anos e morar em um abrigo, instituições que recebem os sujeitos até completarem 18 anos. Se analisarmos a idade em si, fora do contexto da abrigagem, colocando-o em uma perspectiva burguesa, a leitura pode ser de um jovem iniciando a vida, buscando seus sonhos, escolhendo uma carreira. Mas se o olhar se inverte e ele é visto sob o ponto de vista das crianças que vivem no mesmo ambiente, trata-se de um velho, alguém que não poderá mais ocupar aquele espaço e que vai ter de deixar a proteção do abrigo para buscar os seus objetivos. Ou seja, há um prazo de validade prestes a se encerrar.
33 Cada campo tem as suas leis específicas de envelhecimento e, para sabermos como se recortam as gerações, precisamos conhecer as leis específicas de cada uma. Bourdieu defende que a idade é um dado biológico manipulável socialmente e que falar dos jovens como uma unidade social já constitui uma evidente manipulação.
Mas não são apenas os limites da idade que cercam estes jovens. Há outras linhas tênues que precisam ser enfrentadas. Como Joaquim descreve ao longo da entrevista: “quem não tem pai, nem mãe vai parar numa vila e, na vila, o que mais tem é uma funçãozinha. É difícil recusar”.
É claro que os abrigos não despejam os jovens que atingiram 18 anos nas ruas, como se fossem inquilinos com aluguel atrasado, mas há uma contagem regressiva velada ou nem tão velada assim dentro dos abrigos, que incute na mente desses meninos e meninas que a hora de sair está chegando.
Estes e outros aspectos ligados à orfandade por violência doméstica serão discutidos em profundidade no capítulo 5, dedicado à reconstrução do caso biográfico. Antes disso, nos próximos dois capítulos, detalharemos a abordagem de narrativas biográficas escolhida para a análise deste trabalho e também a sua fundamentação teórica.
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3 SOCIOLOGIA COMPREENSIVA: EXPLORANDO A INTERPRETAÇÃO DO