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Este trabalho voltou-se para a constituição do eu de crianças que apresentam dificuldades em aprender os conteúdos estabelecidos pela escola a partir de suas relações com o outro, baseado em uma perspectiva histórico-cultural, pautada nos teóricos Lev Vygotsky e Henri Wallon. Mediante uma investigação sobre as significações construídas por professores, pais e alunos sobre o sujeito que apresenta dificuldades de aprendizagem e suas inter-relações na constituição do eu e do outro, observamos que as crianças desta pesquisa foram se constituindo como repetentes, incompetentes e fracassadas pelo outro e por si mesmas por meio de suas relações sociais.
Estas relações acentuaram marcas na sua constituição, configurando em um sentimento de desvalorização de si, o que contribuiu e influenciou na sua formação como um todo. Ao vivenciar esse drama, Ana e Pedro foram assumindo papéis e posições que foram sendo estabelecidas na e pelas interações e isso foi se confirmando a cada ano escolar que se passou, a condição de cada um: a de aluno que não conseguia aprender. As suas histórias foram influenciadas, ao mesmo tempo, por elas mesmas e pelo outro a partir das e nas interações constituídas no contexto escola-família. Um drama que emergiu através das suas relações, das suas vivências, das suas experiências singularizadas e da própria história do sujeito como um todo. Nesse drama, a noção do (não) aprender também foi constituída por meio de uma trama tecida que contribuiu para a constituição do eu da criança em um processo
dialético. Percebemos, contudo, que as dificuldades de aprendizagem que os alunos apresentam são uma reação a uma condição que provoca um mal-estar e que na relação com o outro gerou as marcas que impactaram essas crianças. Condições essas que retratam histórias de sujeitos e uma realidade que acentua esse drama, mas que ao mesmo tempo, possibilitam aos sujeitos, estratégias ou recursos para amenizar essa situação.
Nesse sentido, as dificuldades de aprendizagem também devem ser pensadas como constituídas nas e pelas interações vivenciadas nos contextos em que a criança está inserida e, que são consolidadas na forma como ela se vê e se percebe ao longo de seu desenvolvimento. Assim, a formação da identidade precisa ser observada com uma visão integradora do desenvolvimento infantil, pois, como somos constituídos a partir do e pelo outro, trazemos em nós relações intersubjetivas, oriundas das significações trazidas por esse outro. Esse processo de formação segundo Wallon e Vygotsky caracteriza, portanto, o desenvolvimento como um processo descontínuo, marcado por crises e conflitos.
Notamos ainda que essas crianças, mesmo apresentando uma compreensão pautada na desvalorização de si mesma, apresentam estratégias que foram expressas por elas e, também, pelas mães e professoras, ao tentarem encontrar saídas para essa condição de não aprendente. Nesse processo, é visível que as mães e as professoras, mesmo com suas singularidades, enfrentando as dificuldades da própria formação como pessoa, tentam encontrar possíveis justificativas para amenizar o sofrimento das crianças e delas próprias.
Essas preocupações apresentadas pela família e pela escola apontam para pessoas que, pela sua maneira de ver, sentir, pensar e agir são e estão comprometidas com o desenvolvimento do filho/aluno, pois deram visibilidade ao desejo que tinham em não errarem, fato observado nos vários momentos de suas falas. E, partindo deste ponto de vista: o de buscar entender esse conflito que nós, professores, pedagogos, psicólogos escolares/educacionais dentre outros profissionais, precisamos estar atentos para
compreendermos melhor o processo da aprendizagem e das dificuldades que possam vir a surgir. E, principalmente, devemos buscar estratégias de intervenção que possam dar condição de autoria a essas crianças, aos pais e aos educadores, compreendendo o conflito como uma tentativa de superação.
Há, contudo, a necessidade de construirmos também parcerias sólidas entre família, escola e profissionais voltados para a educação no sentido de que, através de esforços conjuntos, possamos compreender a questão do (não) aprender como uma construção recíproca dessas relações que são tecidas no cotidiano escolar e, também, no familiar. Assim, ao pensarmos no significado do título deste trabalho, Dramas e tramas do (não) aprender, salientamos o fato de que ele aponta para um caminho de construção conjunta das dificuldades de aprendizagem e a superação delas também, para a formação da pessoa do aluno vista de forma completa, considerando as suas dimensões cognitiva, afetiva, expressiva e social.
Um drama que emerge de uma trama tecida pelas relações estabelecidas entre o eu e o outro que foi percebido a partir das significações apresentadas pelo sujeitos. No caso das professoras, mesmo tendo um movimento diferente sobre a forma de ver essa pessoa: o aluno, elas demonstraram que não há uma compreensão da criança na sua concretude, mas a sensibilidade na compreensão e expressão dessa dificuldade foi um dado importante que impulsiona para a necessidade de resgatar o olhar do educador para a criança na sua singularidade, de olhar para a constituição dramática daquelas que não aprendem. Enfim, olhar para a sua individualidade, como pessoa inteira.
Podemos considerar que este é um grande problema na formação dos educadores: dificuldade em ver a criança como sujeito na sua integralidade, mais ainda, que na relação com o conhecimento que se tem de uma pessoa que está se formando, se constituindo como uma pessoa autônoma e diferenciada. Essas questões nos remetem a pensar na melhoria da
qualidade do trabalho educacional oferecido às crianças. Isso incide, ainda, no desenvolvimento da criança e na qualificação das professoras como profissionais que atuam diretamente na constituição da identidade infantil bem como na formação de pais, no sentido de levá-los à compreensão do quanto a relação família-filho é constitutiva na forma como a criança se percebe e se manifesta em suas relações sociais.
Quanto à necessidade da continuidade de investimentos governamentais na formação de professores e dos profissionais da educação, é uma questão que, ainda, se apresenta como uma lacuna muito inquietante e nos preocupa a cada dia durante o nosso exercício profissional. Tentar compreender os dramas e as tramas do (não) aprender e as inter-relações entre escola, família e aluno que apresenta dificuldades de aprendizagem exigiram que o pesquisador se desnudasse de todas as suas crenças e concepções em relação ao processo educacional.
Nesta investigação, percebemos e conhecemos sujeitos diferentes, mas com uma condição em comum: crianças que apresentam dificuldades em aprender os conteúdos estabelecidos pela escola, mães que tentam entender a situação dos filhos, e professoras que, mesmo diante de tantas limitações e desconhecimentos teóricos, buscam viabilizar a essas crianças uma condição de autoria. Visualizamos, também, sujeitos que tentam a seu modo, não deixar que a tese do fracasso do sistema educacional torne-se suprema diante dessa condição dramática.
Essas considerações, portanto, representam uma necessidade de mostrar que, muitas vezes, as dificuldades enfrentadas no cotidiano escolar são estabelecidas por situações conflituosas que marcam a nossa formação como pessoa. Assim como percebemos que as Anas, os Pedros, as Marianas, as Joanas, as Marias e as Martas compõem a história da condição da educação, devemos compreender que o drama vivenciado por eles é um conflito. Mas, acima de tudo não devemos perceber esse conflito como problemático e, sim, como um
recurso ativador do processo de constituição do sujeito. Precisamos mergulhar para que possamos apreender os vários elementos envolvidos e, assim, termos uma visão ampla da trama estabelecida entre os sujeitos.