3 Theory
3.2 Microsatellite analysis
3.2.3 DNA extraction
Apresentamos, nesta seção, o marco teórico da formação do fisioterapeuta numa perspectiva comparada e como recurso metodológico para a discussão do ensino em Fisioterapia no âmbito nacional, internacional e global.
A história da constituição do campo da Educação Comparada (EC) não pode iludir o fato de tratar problemas específicos, mas transversais a todas as áreas de questionamento, que se colocam nas Ciências da Educação. Por isso, como já foi apresentado anteriormente, ela é inter e transdisciplinar (MADEIRA, 2010).
A EC é uma episteme explicativa/interpretativa que busca compreender e interpretar a forma como os sistemas nacionais de educação desenvolveram-se para ser o que são; não é uma ciência social associada à predição ou orientada à formulação de políticas, ou de aplicação prática (KAZAMIAS, 2012).
Segundo Nóvoa e Catani (2000), tais estudos exigem uma problematização do próprio exercício cognitivo: a comparação é um exercício crítico que permite criar categorias férteis na apreensão das peculiaridades dos processos de apropriação dos saberes e da invenção das práticas no campo educacional.
Com ela se permite compreender os processos culturais e educacionais exigindo um olhar transcultural em busca da interpretação dos fenômenos sociais. Ou seja, a EC utiliza abordagens pluridisciplinares para dar sentido aos processos educacionais, o que garante possibilidades para novos olhares e conhecimentos que extrapolam o seu caráter positivista. De acordo com Ferreira (2008), a Educação Comparada não pode deixar de ser um produto da história de uma sociedade. A comparação sempre marcou a evolução do pensamento humano e, por isso, sempre esteve presente na construção de saberes. No entanto, foi introduzida de maneira sistemática e especializada no intuito de reformar e otimizar os processos educacionais.
Nóvoa (2011), descreve a EC como fonte extraordinariamente importante de pesquisa e de conhecimento crítico reforçando um pensamento que inscreve as lógicas de comparação no tempo, concedendo-lhe uma historicidade própria e, por outro lado, a adoção de perspectivas metodológicas que não consagram modelos de análise, exclusivamente centrados na geografia nacional.
A globalização está reorganizando e transformando o conhecimento, o contexto político e econômico em que estamos vivendo, a dinâmica demográfica, munida principalmente das migrações e transições de populações gerando processos de
disseminação, intercâmbio e a necessidade da educação multicultural. Para isso, é importante estabelecermos a contribuição da Educação Comparada no estudo dos fenômenos culturais, históricos e educacionais, na compreensão das identidades sociais e culturais múltiplas, bem como dos sistemas educacionais.
A proposta da Educação Comparada, na construção das representações desse território multicultural, é apresentar a diversidade, resistências, impactos teóricos e práticos da educação, bem como os seus efeitos sobre a civilização.
Seu caráter pluridisciplinar fornece o aprofundamento dos conhecimentos referentes à educação, pois ela utiliza correlações, transferências de ideias, conferências, confrontos, princípios e políticas para tomada de decisões. Oferece um vasto campo de análise, no qual as teorias de educação, em suas relações com as circunstâncias da vida social, encontram apoio para julgamento de princípios existentes e, consequentemente, para revê-los, emendá-los e aprofundá-los.
O que se colhe pelos estudos comparativos é um conjunto de informações que conduzem a hipóteses e a construção de modelos, para melhor compreensão do processo educacional e condições de sua institucionalização. Esclarecem os elementos, não conduzindo, porém, a soluções obrigatórias em cada caso. O que fazem é dizer-nos que, em tal ou qual situação de conjunto, tomando-se tais ou quais decisões, os resultados serão estes ou aqueles, com maior probabilidade (LOURENÇO FILHO, 2004, p. 21).
A comparação é uma condição do conhecimento e sistematização do diferente entendendo o seu impacto na educação e sociedade, a partir da transformação, compreensão das diferenças e da sua necessidade de intercomunicação.
A EC é um instrumento de reflexão e crítica, pois se utiliza das vertentes históricas, sociológicas e psicológicas. Compreendendo que, nesse diálogo multidisciplinar, ela fornece uma descrição mais dinâmica do mundo. Seria como se seus propósitos metodológicos permitissem acompanhar a mobilidade global, em perfeita atualização dos seus fatos e fenômenos, pois ao comparar estamos analisando e avaliando processos civilizatórios que englobam as transformações da ciência, política, economia e cultura das nações.
Através do método comparativo, pode definir-se o tipo de educação que corresponde a cada sociedade e, ao mesmo tempo, é este método que permite decidir qual a prática educativa adequada à determinada realidade (MADEIRA, 2010).
Portanto, não se pretende com a EC, apenas diagnosticar situacionalmente estruturas educacionais, mas a sua habilidade para transformar, aprimorar e integralizar novos atores nos processos educacionais, pois o conhecimento em educação se movimenta de tal forma que esta necessita de novas fundamentações teóricas para entender seus efeitos
práticos, conforme salienta Jason Beech no capítulo do livro Educação Comparada: “Quem está passeando pelo jardim global?” Agências educacionais e internacionais e transferência educacional.
Podemos perceber o quanto é necessário enxergar e compreender o outro na sociedade global e a utilização da EC, como campo intelectual, para entender a circulação de ideias sobre educação no mundo de hoje, e o modo como essa circulação afeta às práticas educacionais em diferentes contextos.
Entender o processo de compreensão dos fatos e fenômenos educacionais é um aspecto importante para conhecermos os posicionamentos, as relações entre as diferentes posturas, bem como a mobilidade e a transformação dos discursos, pois no momento em que essas ideias vão disseminando, estão sendo agregadas novas leituras dentro do espaço acadêmico global, onde os fluxos conceituais atravessam as redes sociais, acadêmicas e políticas.
Para entendermos isso basta, estudarmos o pensar teórico dos processos migratórios populacionais, seus movimentos espaciais e culturais na formação de identidades e subjetividades. Comparando a proposta metodológica da Educação Comparada com os processos de migração, podemos conceituar que ambos carregam nos seus propósitos a palavra “circulação”, o que torna cada indivíduo que migra e cada comparatista “sujeito histórico”.
Cada fato ou ideia é modificado, readaptado e transformado a partir das contribuições dos mobilizadores, portanto a EC assim como as migrações estão em constante movimentação. Segundo Cavalcante, Leitão e Araújo (2013), essa circulação de saberes, ideias e práticas sociais entre mundos emergem no contexto, através das interconexões globais, portanto o nacional, o internacional e o global influenciam o espaço educacional, este como local de prática cultural.
A Educação Comparada não se reflete apenas na apresentação de fatos ou fenômenos justaposicionados. As análises comparativas destacam o entendimento de que elas deverão se desenvolver, de maneira integralizada e transversal, caracterizando seu caráter múltiplo, complexo e funcionalista da realidade, não se restringindo na organização de fatos e observações. Os espaços para a EC devem ser problematizados porque há movimentação pelas experiências vivenciadas por grupos e/ou indivíduos.
Pensar nos estudos comparatistas e não compreender suas influências sobre a educação é extrair da sua proposta o caráter transnacionalista, dissolvendo todos os seus vínculos históricos, religiosos, políticos, culturais e sociais, onde o próprio Jullien enfatizou
a necessidade de novos olhares que permitissem, a partir da educação, uma nova leitura do mundo.
Segundo Lourenço Filho (2004), o que é lícito esperar da educação não diz respeito apenas aos aspectos propriamente técnicos, mas culturais em geral. Os estudos comparativos nos levam a relacionar conceitos e instrumentos de análise que se colhem em muitas e variadas fontes, dado o caráter interdisciplinar da matéria. Segundo Nóvoa (1998), a educação é uma atividade analítico-comparativa, por isso mesmo dependente da conceituação e do emprego de uma teoria da comparação, configurando-se, a um só tempo, em prática científico-social. Corroborando com Holanda (2011), a educação comparada auxilia na compreensão da educação, a partir dos fatores históricos, culturais, sociais, psicológicos e políticos que envolvem.
A investigação pedagógica, na qual a EC é pautada, busca elucidar os processos educacionais e suas relações com a cultura, política, economia, filosofia, história, psicologia, antropologia e sociologia para que possamos compreender aspectos da dinâmica social para a explicação de fenômenos. No que concerne ao objeto de estudo dessa investigação, a educação comparada desempenhará uma função de integração entre estas disciplinas para a compreensão dos processos de subjetivação do corpo na clínica do adoecimento e as representações dadas pela fisioterapia. Portanto, nesta pesquisa se questionam quais os significados atribuídos ao corpo na história da Fisioterapia. Para isso, deveremos confrontar esse corpo à luz dos diversos saberes. Neste caso o que a Educação Comparada se propõe fazer, à luz destas ciências, é aprofundar a análise destes processos, bem como as suas relações.
A EC tomará o objeto apresentado desta tese, como objeto especial de indagação, admitindo as forças sociais, educacionais, políticas, afetivas e culturais que o apreendem, suas relações de dependência compreendidas, através de sua estrutura e função. Portanto, compreender a genealogia do corpo e sua relação com a prática fisioterapêutica integrada dos recursos organicistas e humanistas é apelar para instrumentos de análise através das diversas fontes, entendendo que a categoria corpo se reporta a um mundo de símbolos e significações.
Nesse sentido, o desafio é retomar a constituição genealógica desse corpo vinculada a estudos interdisciplinares com abordagem ancorada na Educação, História e no Estruturalismo de Michel Foucault, e contracenar com o nascimento da Fisioterapia, no Mundo e no Brasil, pois conforme Marcondes (2005), as transformações dos sistemas de ensino são percebidas com maior profundidade, na medida em que se pesquisam, não apenas os contextos educacionais nacionais, mas também os internacionais e globais para relacioná- los, compará-los e analisá-los.
2.3 A genealogia da Fisioterapia numa perspectiva comparada: trânsito de ideias entre