4. Analyse og resultater
4.2 Målvalidering
4.2.2 Divergent validitet
Analisar o processo de espacialização da Comissão Pastoral da Terra no Ceará propicia compreender alguns elementos inerentes ao seu modo de inserção nas lutas sociais e conflitos no campo ao longo desses quarenta anos de caminhada. Sua ação não se deu num espaço vazio de relações e forças sociais, onde impregnou suas ideologias e práticas. Ao contrário, se deu no movimento contínuo de transformações dessas relações e forças, ao dividir espaços de luta com outras organizações e instituições mediadoras com ela envolvidas, permitindo-lhes lidar com as transformações socioespaciais que ocorreram no Estado.
Sua origem situa-se nas ações desenvolvidas pelas Comunidades Eclesiais de Base que atuaram no campo, congregando para a luta e para o debate uma parte da população, a qual, até então, não tinha a oportunidade de compreender a realidade a que estavam submetidos. Dessas comunidades, organizadas e distribuídas em vários espaços do Estado, herdou a experiência do trabalho mediante a pedagogia libertadora, paulofreiriana, baseada no método jocista (ver-julgar-agir). Até hoje, essa pedagogia possibilita aos atingidos e atingidas do campo exporem seus pontos de vista, e com base em uma construção coletiva, proporem meios alternativos de lidar com as problemáticas surgidas no campo no decorrer da história.
Outro elemento definidor no caráter e prática da CPT-CE são os ensinamentos de Dom Fragoso, cuja presença viva, mesmo depois de sua morte terrena, na Diocese de Crateús explica por que a referida diocese é a mais envolvida e dinâmica nas atividades da CPT-CE, especializando-se de maneira diferenciada. Apesar da sua origem ser marcada pela presença de trabalhadores e trabalhadoras do campo, organizados em CEBs em todas as dioceses, a atuação destas e a espacialização das suas práticas são diretamente proporcionais à mediação interna efetivada (ou não) pelos bispos diocesanos. Embora se reconheça que a realização das ações cabe aos trabalhadores e trabalhadoras, segundo revelou a dinâmica de participação e atuação das
dioceses na CPT, o maior entrave à sua espacialização se deve ao caráter conservador da Igreja Católica e de parte dos fiéis, que ainda superestimam a presença de bispos e padres nas ações, para que se sintam motivados a participar. Além disso, no contexto do Ceará, poucas áreas tiveram a assessoria da CPT, pois seu número limitado de agentes não possibilita o atendimento das demandas de todos os espaços de conflito no Estado.
Quando se trata da história da CPT-CE, conforme se verifica, os agentes entrevistados tendem a rememorar os acontecimentos mais pregressos da Pastoral no Ceará. Veem nesse momento histórico um maior envolvimento dos grupos e equipes pois, segundo percebem, este foi, certamente, o período mais difícil da história da CPT, devido ao alto grau de violência que caracterizou o campo, onde os trabalhadores rurais camponeses, a quem dedica sua ação, eram vítimas da fome, da pobreza, das agressões, expulsões e toda forma de violência perpetrada pelos proprietários fundiários.
Se o conflito com os trabalhadores rurais (rendeiros e posseiros) demarcava seu campo de atuação nas décadas de 1970 e 1980, hoje, distintas bandeiras de luta e, com elas, um número maior de categorias que protagonizam o campo, ampliaram as demandas camponesas revelando seus limites como Pastoral.
Uma mudança nas lutas acompanhadas e apoiadas pela CPT-CE incorporou a dimensão ambiental, a partir do fim dos anos de 1990 e, assim, a CPT tem centrado suas ações no desenvolvimento de práticas ambientalistas, seja orientando trabalhadores para o uso e desenvolvimento de tecnologias apropriadas ao semiárido, seja denunciando o descaso do governo diante dos reflexos espaciais dos grandes empreendimentos que se utilizam de práticas ambientais poluidoras e insustentáveis (caso dos agrotóxicos, mineradoras, etc.).
Se o trabalho desenvolvido pela CPT-CE parece ter arrefecido nos últimos tempos, isso não se dá exclusivamente pelas dificuldades enfrentadas em relação ao financiamento de suas atividades, ao contrário, as maiores motivações são de natureza externa. Pelo menos dois fatores favorecem esse aparente arrefecimento ao longo do tempo: o primeiro, associado à nova lógica
empreendida pela inserção de capital no campo, com a incorporação de aparato tecnológico e desenvolvimento produtivo que desencadeou um aumento do êxodo rural, levando a reversão da população rural-urbana. Se na década de 1970 grande parte da população residia no campo, hoje, a maior parte reside nas cidades. Isto fez emergir novas necessidades nas quais outros mediadores envolvidos com as questões urbanas interferem. E, o segundo, diz respeito à implementação de políticas compensatórias que, se por um lado foram reflexos da luta dos trabalhadores e tiveram papel fundamental no acesso à políticas públicas, financiamento da produção, inserção do pequeno agricultor no mercado, por outro, ainda não garantiram mudanças efetivas na organização e autonomia dos trabalhadores. Em algumas situações, também servem para conter as mobilizações destes na exigência de atendimento de seus direitos e melhorias nas condições de produção e vida, tendo em vista, que alguns se acomodaram a partir dos ganhos que obtiveram com a luta.
Nesses lugares, a CPT continua exercendo seu papel de natureza profética e de serviço, apoiando os trabalhadores nas lutas pela garantia dos seus direitos, luta por seus territórios, no uso e desenvolvimento de estratégias de convivência com o semiárido, no apoio e resistência aos grandes empreendimentos e no combate a práticas insustentáveis.
Atrelada a esses elementos, a CPT hoje sente limites em relação ao número de agentes pastorais na condução e efetivação de suas atividades. Mostra sua necessidade de empenhar-se nos trabalhos de formação com a juventude para que os quadros de agentes se renovem e seja possível dar continuidade às próprias ações.
A espacialização da CPT no Ceará, se por um lado mostra sua força de mobilização e articulação dos agentes pastorais com os camponeses, por outro, mostra seus limites em função de suas ações, a maioria localizadas, em consequência da falta de apoio do clero local e dos bispos, das restrições financeiras e do número reduzido de agentes disponíveis para desenvolvimento das atividades. Contraditoriamente, esses limites também fortalecem o que vem a ser sua maior força, a certeza de continuidade das ações por meio desses agentes pastorais que resistem às intempéries e continuam a desenvolver essa missão que é sua opção preferencial pelos pobres.
Sendo sua marca o processo de penetração e articulação das lutas, outra força que torna o trabalho desenvolvido pela CPT relevante é o apoio e a parceria de determinadas organizações sociais que também se envolvem com as lutas no campo. Esse é um elemento capaz de dar maior visibilidade às ações implementadas e congregar um maior número de agentes. Nesse aspecto, a Diocese de Crateús desponta em número de parceiros na realização das suas atividades.
Apesar das transformações, muitas são as continuidades verificadas no dia-a-dia da CPT-CE. Das permanências observadas nessa caminhada de quarenta anos, as mais latentes são a sua essência de ser serviço profético e de atuar com o caráter de sujeição do trabalhador do campo. Quanto à primeira, refere-se ao seu caráter mobilizador e articulador, que não busca protagonismo das ações, mas empodera os sujeitos para serem protagonistas. Isso se revela no apoio disponibilizado à luta dos trabalhadores rurais camponeses e às comunidades tradicionais (quilombolas e indígenas, pescadores, ribeirinhos, etc.) por meio de formações, debates, celebrações, romarias, reuniões e encontros, levantamento de demandas, busca de soluções e denúncias especializando dessa forma sua ação. Quanto à segunda, o caráter de sujeição a que muitos trabalhadores ainda estão submetidos, manifesta-se no trabalho realizado, por exemplo, com os trabalhadores encontrados em situações análogas à de escravos, em empresas até bastante modernas, a evidenciar toda a contradição do sistema capitalista, que ainda se utiliza de formas arcaicas nas relações de produção.
Além dessas duas, a grande permanência da CPT é a busca, conjunta, por um modelo de reforma agrária capaz de congregar todas essas necessidades do campo em um modelo que não exproprie, degrade ou inviabilize a permanência do homem no campo. Esse continua sendo um dos grandes desafios dessa Pastoral.
Assim, diante dessas considerações, e com base nas diversas memórias, anseios e desejos partilhados no processo de pesquisa, essa tese finaliza parodiando o poema de Thiago de Melo:
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