Os sistemas agro-florestais podem ser definidos como sendo a modalidade de uso integrado da terra para fins de produção florestal, agrícola e pecuária, (Dubois, 1996); (Santos, 2000). Os aspectos principais dos sistemas agro-florestais estão na presença deliberada de componentes florestais para fins de produção, protecção ou visando ambas as situações simultaneamente, (Passos e Couto, 1997).
São considerados opções agro-ecológicas do uso do solo e apresentam vantagens que, em geral, superam as desvantagens, no que se refere aos principais componentes da sustentabilidade, ou seja, o económico, o social e o ambiental, (Daniel et al., (1999a). Várias definições podem ser utilizadas para descrever e qualificar os SAF, contudo a mais difundida é a apresentada por Nair (1984), citada e modificada por Daniel et al. (1999a), em que "Sistemas agro-florestais são formas de uso da terra que envolvem deliberada retenção, introdução, ou mistura de árvores ou outras plantas lenhosas nos campos de produção agrícola/animal, visando obter benefícios resultantes das interacções económicas, ecológicas e sociais". Como resultado das interacções ecológicas e económicas entre os diferentes componentes, estes são sistemas estruturais e funcionalmente mais complexos do que as monoculturas, (Dantas, 1994). Desta forma, constituem-se em modalidade viável de uso do solo, segundo o princípio do rendimento sustentado, que permite aumentar a produção total ou de uma maneira escalonada, por meio da integração de florestas com culturas agrícolas e (ou) produção animal, aplicando práticas de maneio compatíveis com os padrões culturais da população local, (Macedo, 2000a). Segundo o mesmo autor, num SAF, pelo menos um dos componentes envolvidos é lenhoso e perene, podendo ser árvores, arbustos, palmeiras ou bambus.
Em comparação com os sistemas convencionais, o agro-florestal e/ou agro-silvícola tem como objectivo principal permitir maior diversidade e sustentabilidade.
Os SAF constituem uma opção interessante e viável para a oferta simultânea de madeira, alimentos e outros bens, podendo ser implantados ou utilizados em solos já ocupados com sistema de monocultura, seja agrícola ou florestal. Para o produtor ou empresário florestal, as principais vantagens serão a redução do custo de implantação e de manutenção inicial de seus povoamentos, mediante a receita produzida pela cultura intercalar, e, para os agricultores e produtores de animais, a garantia de condições ambientais mais adequadas para suas lavouras ou animais e um suprimento adicional de madeira, para uso próprio ou para comércio. Outrossim, a plantação de árvores em lavouras e pastagens constitui uma forma de reposição, embora pequena, da cobertura florestal destruída pelo avanço da fronteira agrícola. Desta forma, os SAF constituem-se numa alternativa interessante de uso do solo, embora sejam escassos
Revisão Bibliográfica os conhecimentos sobre a utilização actual e potencial, o que tem dificultado a sua difusão pela extensão rural e pelas cooperativas existentes, (Medrado, 2000).
Ressalta a necessidade de conciliar as questões económicas da moderna agricultura, com as questões sociais e ambientais. Os SAF constituem opção objetiva para melhorar e conservar os recursos produtivos, com aumento da oferta de madeira, alimentos e de outros bens e serviços, de forma sequencial ou simultânea na mesma unidade de área, (Montoya; Mazuchowski, 1994).
Não obstante ser uma prática antiga de uso do solo, o seu estudo como ciência é relativamente recente. No Brasil os estudos iniciais datam de 1980, (Montoya; Mazuchowski, 1994). De acordo com Lunz e Melo, (1998), a presença de uma componente arbórea, a diversidade de espécies e a grande produção de biomassa favorecem sua sustentabilidade pela reciclagem directa de nutrientes entre a vegetação e o solo. Esses autores salientam também que, se bem planeados, os SAF podem apresentar, entre outras, as vantagens de melhor utilização dos recursos naturais disponíveis (luz, água e nutrientes), menor incidência de pragas e doenças, maior diversificação da produção, diminuição dos riscos económicos, melhor distribuição temporal do uso da mão-de-obra familiar e maior estabilidade.
O sucesso dos SAF depende da escolha correta de seus componentes. Neste aspecto, em relação ao componente arbóreo, devem ser considerados os atributos silvo- culturais e a função de serviço desempenhada pelo mesmo, (Macedo et al., 2000a e 2000b):
Os níveis de competição promovidos com os demais componentes;
A possibilidade de usos múltiplos (lenha, carvão, madeira, frutos, entre outros);
A adaptação às condições edafoclimáticas específicas;
O ritmo de crescimento e a capacidade de rebentação;
A baixa exigência nutricional, baixa susceptibilidade a pragas e doenças;
Serem economicamente rentáveis;
Ausência de efeitos alelopáticos;
A possibilidade de produções diferenciadas, de forma a garantir absorção de mão-de-obra e receitas ao produtor nas várias épocas do ano.
Teoricamente desejam-se espécies arbóreas capazes de acumular e libertar nutrientes para as culturas a elas associadas, mediante a adição de quantidades significativas de matéria orgânica, a fixação de nitrogénio atmosférico, a acumulação de nutrientes com possibilidades de devolvê-los ao solo por meio de reciclagem e a amenização da temperatura do solo, (Dantas, 1994); (Macedo, 1992); (Daniel et al., 1999a).
Do ponto de vista ecológico, a coexistência de mais de uma espécie numa mesma área pode ser justificada em termos de ecologia de comunidades. Desde que as espécies
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envolvidas ocupem nichos diferentes, para que seja mínimo o nível de interferência, tais espécies podem coexistir, (Budwski, 1997).
Actualmente, os sistemas agro-florestais são vistos como alternativa promissora para propriedades rurais dos países em desenvolvimento. Pela integração da floresta e culturas agrícolas e com a pecuária, estes sistemas oferecem uma alternativa quanto aos problemas de baixa produtividade, de escassez de alimentos e da degradação ambiental generalizada, (Almeida at al., 1995); (Santos, 2000).
Budowski (1997) comenta que os sistemas agro-florestais diferem da silvicultura convencional, na medida em que podem apresentar múltiplas funções como: espécies forrageiras, espécies fixadoras de nitrogénio, espécies que possuem sistema radicular profundo para diminuir a competição com as culturas agrícolas nas camadas mais superficiais do solo, espécies cuja copa seja adequada para a protecção do solo, etc. Os sistemas de cultivos múltiplos ou policultivos, com culturas anuais e fruteiras ou agro-florestais e agro-silvopastoris, têm sido amplamente utilizados nas regiões tropicais, pelos pequenos produtores. A difusão desses sistemas tem como base as vantagens apresentadas em relação à monocultura, como sejam o de promover maior estabilidade da produção, melhorar a utilização da terra, melhorar a exploração de água e nutrientes, melhorar a utilização da força de trabalho, aumentar a eficiência no controle de infestantes, aumentar a protecção do solo contra erosão e disponibilizar mais de uma fonte alimentar e de rendimento. Nesse contexto, a mandioca ao apresentar variedades com hábito de crescimento erecto e vigor de folhagem médio, reúne características ideais para intercalar-se com outras culturas, principalmente as anuais. A plantação de culturas associadas nesses policultivos, numa mesma área, deve ser feita procurando distribuir o espaço da lavoura o mais convenientemente possível, buscando uma baixa competição entre plantas para factores de produção como luz, água e nutrientes. Essa distribuição das linhas de plantação dependerá das características agronómicas de cada uma das culturas envolvidas na consociações, especialmente o ciclo vegetativo, as épocas de cultivo distintas e o porte das plantas, (EMBRAPA, 2003).