As alunas apresentaram diferentes graus de deficiência auditiva e visual provenientes da síndrome da rubéola congênita, sem outros comprometimentos aparentes. Segundo relato da família, uma das alunas apresentava estreitamento da válvula pulmonar. As informações sobre às características de cada uma das alunas foram obtidas, a partir da: a) leitura e análise de documentos (relatórios educacionais, laudos de exame oftalmológico, audiológico e clínico); b) análise de tarefas realizadas na escola; c) análise de fotografias; d) história de vida; e) entrevista com os pais; f) entrevista com a professora; g) observação do comportamento visual, auditivo e lingüístico em diferentes contextos; h) observação da forma e conteúdo presente nas interações. As alunas não foram submetidas a testes padronizados.
Cada aluna será designada pelos números 9 e 7 acompanhados, respectivamente pelas letras I e G . Os números representam a idade cronológica das alunas durante o período de coleta de dados. Assim, a identificação das alunas será: 9I e 7G. O Quadro 3.3 apresenta uma síntese das características gerais das duas participantes.
Quadro 3.3 - Síntese das características gerais das alunas.
Participantes Critérios
9I 7G Idade (no início da intervenção) 9 anos e 4 meses 7 anos
Etiologia da deficiência rubéola Rubéola
Grau de perda auditiva 106 e 111dB 130dBdeSPL
Uso de AASI não Não
Deficiência visual baixa visão baixa visão
Correção visual (uso de óculos) não Não
Tipo de escola freqüentada pública, de ensino especial pública, de ensino especial
Tempo de escolarização 8 anos 3 anos
Estimulação precoce sim Sim
Dificuldade de linguagem sim Sim
Dificuldade motora não Não
Fontes: entrevista com pais, leitura relatórios educacionais e de laudos e exames clínicos.
No Quadro 3.3, o resultado do cálculo da média aritmética dos decibéis alcançados nas freqüências da fala (500, 1000 e 2000) representa o grau do comprometimento em orelha
direita e na esquerda, ou em ambas (AO). As alunas possuem surdez profunda, não fazem uso do AASI, e não usam recurso óptico. A aluna 9I tem atrofia de olho direito e apresenta glaucoma de ângulo fechado (difícil controle) em olho esquerdo, tendo sido submetida a quatro cirurgias de glaucoma (aos 4, 7, 8 e 9 anos), com prognóstico de perda total de visão. A aluna 7G foi submetida a quatro cirurgias de catarata (aos 9 meses, 4, 5 e 7 anos). As palavras sim e não foram utilizadas para indicar a presença ou ausência de estimulação precoce, dificuldades de linguagem e/ou motoras.
O Quadro 3.4 apresenta os dados obtidos em relação à funcionalidade visual das alunas observada no contexto escolar, durante as atividades de sala e extraclasse. Os critérios utilizados durante a observação foram baseados nos critérios divulgados pela Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação (BRASIL, 1995c); pela orientação do "Relatório de Consultoria da Organização Mundial de Saúde - Bangkok, 1992", publicado em 1994, e pelas informações presentes na literatura (BRENNAN et al. 1992). Desta forma quatro aspectos foram observados: a) comportamento visual para atividade de perto; b) orientação e mobilidade; c) atividades da vida diária; e, d) comunicação.
Quadro 3.4 - Síntese dos aspectos referentes à eficiência visual das alunas. Participantes Aspectos observados
9I 7G
Fixa-se nas atividades educacionais Sim não
Apresenta inquietação após trabalho visual Sim sim
Lê letras na lousa sem sair do lugar Não não
Utiliza amplamente a visão nas atividades em processo em processo Apresenta desatenção em atividade na lousa Sim sim Segura material de leitura muito perto do olho Sim sim Possui mobilidade independente em locais conhecidos Sim sim
Apresenta cautela ao andar, correr. Sim sim
Identifica pessoas, locais e situações, do seu meio familiar. Sim sim Apresenta independência nas atividades de vida diária Sim sim
Realiza busca e localização de objetos Sim sim
Possui percepção de profundidade não não
Utiliza informações adquiridas através da visão sim sim Fontes: entrevistas com pais e PR, observação do comportamento das alunas.
A literatura especializada aponta que a deficiência visual, em geral, afeta quatro áreas funcionais do desenvolvimento: orientação e mobilidade, comunicação, atividades de vida diária, e, comportamento visual para atividade de perto por um tempo prolongado. Estes aspectos se aplicam às participantes 9I e 7G na medida em que elas apresentavam, no momento da avaliação, dificuldades em visualizar o quadro-giz a mais de 1,5m, sem sair do lugar; realizavam acomodação e adaptação visual para identificar objetos de modo incomum (muito perto do globo ocular); mostravam-se desatentas e desmotivadas durante a realização das atividades. Além disto, necessitavam de recursos não ópticos (exemplificando: uso de lápis no.1 ou 6B, ao invés do tradicional no.2), canetas hidrográficas de ponta porosa na cor preta, apoio para leitura e escrita, controle da iluminação, material com impressão ampliada, quadro-giz na cor preta. Estes recursos viabilizavam melhores condições de aprendizagem para as alunas. Os dados gerados a partir da observação da visão funcional das alunas levaram a concluir que elas correspondiam aos critérios previamente selecionados.
O Quadro 3.5 apresenta os dados referentes à discriminação sonora das alunas. Neste item, selecionou-se critérios que pudessem informar se a audição residual é útil e permite a aquisição da fala de maneira comum, bem como se permite ouvir a fala de outras pessoas. Tentou-se verificar, também, se o sentido da audição é funcional ou não, para as atividades comuns da vida, conforme Boothroyd (1982 apud MICHAEL e PAUL, 1991).
Quadro 3.5 - Síntese das informações sobre a funcionalidade auditiva das alunas. Participantes Aspectos observados
9I 7G
Possui conhecimento do mundo sonoro sim sim
Percebe a diferença entre som/silêncio sim sim
Repete sons solicitados não não
Emite palavras monossílabas com significado não não Compreende palavras familiares: papai, mamãe. não não Compreende conceitos e expressões usadas. não não Comunica-se verbalmente com outras pessoas não não
Mantém diálogo apenas verbal não não
Compreende o conteúdo semântico de palavras não não
Reage à fala em tom normal não não
A análise destes dados aponta que as alunas não apresentavam capacidade auditiva funcional para ouvir e interagir com seu meio através da audição. Desta forma, não respondiam ao chamado verbal de outras pessoas, bem como não conseguiam emitir palavras que pudessem ser compreendidas. As alunas apresentavam emissão de sons contextualizados, porém não possuíam capacidade para ouvir sons do ambiente. Talvez o fato de não fazerem uso do AASI pode ter interferido no desenvolvimento da audição funcional.
A modalidade de comunicação utilizada pelas alunas no ambiente escolar poderá ser observada no Quadro 3.6. Avaliou-se a utilização do sistema Braille apenas na aluna 9I, uma vez que ela é a única que precisa deste recurso de aprendizagem e comunicação.
O Quadro 3.6 - Síntese dos dados indicativos dos recursos de comunicação das alunas. Participantes
Aspectos observados
9I 7G
Compreende informações em Libras não não
Utiliza sinais da Libras ao expressar-se não não
Utiliza gestos naturais sim não
Utiliza gestos indicativos sim sim
Utiliza o alfabeto manual dos surdos sim não
Compreende a fala não não
Utiliza a fala para expressar-se não não
Utiliza desenho para expressar-se não não
Conhece algumas letras do sistema Braille sim não
Conhece algumas letras do sistema Braille digital sim não
Reconhece palavras ensinadas na escola sim não
Consegue escrever palavras já ensinadas em processo não Consegue escrever utilizando máquina Braille em processo não Consegue ler letras do sistema Braille em processo não Fontes: entrevista com pais e PR, observação, análise da produção escrita e pictográfica.
As duas alunas apresentavam dificuldade em compreender as informações veiculadas no ambiente escolar, sendo que a aluna 7G não prestava atenção às informações passadas pela PR ou pela P, direcionando o olhar para o lado oposto ao dos profissionais. Apresentavam defasagem para atender solicitações, seguir orientações, manter um diálogo e antecipar
situações. A aluna 7G fazia uso, predominantemente, dos seguintes recursos de comunicação expressiva: birra, choro, gritos, pontapés, emissão verbal e possuía o hábito de conduzir pessoas pelo braço para alcançar o objeto de seu desejo. A aluna 9I apresentava um repertório restrito de sinais, conseguia emitir a seqüência "bom dia" de forma não muito inteligível, realizava emissão de sons aleatórios, geralmente a seqüência “bibibi”, acompanhado de gestos indicativos de apontar em várias direções, bem como possuía o hábito de conduzir as pessoas e apontar o que desejava alcançar. Obedecia a ordens simples verbalizadas, quando acompanhadas de gestos indicativos ou de sinais; interrompia uma atividade quando lhe diziam por sinal "não". Ambas as alunas não responderam a perguntas simples realizadas em sinais, gesto e fala, por exemplo: O que é isto? Quantos têm? Que dia é hoje?