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Part I. Research motivations and applied methods

2.3 Distribution of fibres in flowable FRC

Nas páginas da ficção científica, um personagem-astronauta sem-nome viajando em sua super espaçonave (deveria descrevê-la?), a uma velocidade maior que 299 792 458 m/s, passa por um "buraco de minhoca", que une um "buraco negro" a um "buraco branco”, para chegar mais rapidamente a outras galáxias. Passando por esse "buraco de minhoca", nosso personagem-astronauta termina em um mundo independente e pequeno que separa o universo de nossa região, ou seja, chega a um "Universo-bebê". O buraco negro por onde entrou é uma estrela que sofreu um colapso gravitacional e passou a tragar para si toda e qualquer massa que esteja nos seus limites, que são determinados pelo "horizonte de eventos", que é a membrana em torno desse buraco negro. Como até a luz que por ali passa, é tragada pelo buraco, o que explica sua escuridão, nossa espaçonave não pode deixar de imprimir uma velocidade acima da velocidade da luz. Há um enorme medo de se cair em um buraco negro pois, de lá, pode-se não conseguir sair nunca mais. No entanto, como tudo na natureza obedece a uma simetria temporal, existem os buracos brancos, por onde nossa espaçonave poderá escapar mas, mal sabe nosso herói, que não retornará jamais ao nosso universo. Nesse espaço intermediário que é o universo

bebê, se recriará. Sua única chance é que a espaçonave seja capaz de distorcer o espaço-tempo, diminuindo o espaço em que se encontra. Seria capaz de fazer uma viagem que duraria 100 anos em 1 e sua busca seria um retorno ao passado. Atravessando o buraco de minhoca e aparecendo a um bilhão de anos-luz de distância, numa passagem inacreditavelmente rápida pelo espaço, sua velocidade, compensada pelo tempo, faria com que nosso personagem-astronauta-sem-nome e sua espaçonave ressurgissem no passado.

Saindo das páginas da ficção científica, toda essa história, embora nada original, seria considerada absurda. Os motivos para isso são todos nossos conhecidos – se o que se afirma não for comprovado e explicado pela ciência, não existe como verdade e, como tal, me repetindo – não existe. Daí, minha história não passa de mais uma criação ficcional, com ou sem qualidade estética e literária. No entanto, o que aconteceria caso tudo isso tivesse uma explicação científica? Por mais que provocasse estranhamento, com certeza, nossa leitura e interesse seriam diferenciados. Sendo assim, constato que a física, hoje, discute, e nomeou, o “buraco-negro”, o “buraco de minhoca”, o “universo bebê” e o “horizonte de eventos”. Ainda não é possível comprovar a possibilidade da viagem de um “buraco” a outro, e aí minha história seria ficção científica, mas todos os outros conceitos estão sendo pesquisados, analisados e comprovados pela ciência contemporânea.

Stephen Hawking chegou a acreditar que existia a possibilidade da matéria, que entrasse nos buracos negros, fizesse viagens para universos paralelos, o que pode ser visto em diversas histórias de ficção científica. Mas, ao rever sua teoria, afirmou que a possibilidade de usar os buracos negros para viajar para outros universos não existe. No entanto, hoje se tem certeza de que, se a ficção é um enigma, muitos fatos também o são. Quanto aos buracos negros, ao horizonte de eventos, ao buraco de minhoca, a ficção desaparece e a ciência os define. Assim, seguirei aqui algumas das idéias de Hawking, sabedora de que muito de minhas palavras serão transcrições das definições do autor, o que só se justifica por estar consciente do fato de ser apenas fascinada e não especialista nesta área.

O "buraco-negro", nome que foi dado pelo físico americano John Wheeler, em 1969, é definido como um corpo celeste, ou seja, estrelas, de massa intensa, que um dia foram brilhantes, e que tem um campo gravitacional tão forte que dele nada

escapa, nem mesmo a luz (o que explicaria a escuridão), embora Hawking afirme que eles são incandescentes152. Definindo melhor com Hawking: o “buraco-negro” seria “uma estrela, com massa suficientemente e devidamente compacta, poderia ter um campo gravitacional tão forte que a luz não lhe pudesse escapar: qualquer luz emitida pela superfície da estrela seria puxada de volta por sua atração gravitacional, antes que conseguisse se afastar muito...Ainda que não fôssemos capazes de vê-las, porque sua luz não nos atingiria, poderíamos sofrer sua atração gravitacional” (1988, p. 120). O limite de um “buraco negro” é o “horizonte de eventos”, que age como uma membrana em torno do buraco negro. É esse o limite do qual não se consegue fugir. Desta forma, se um astronauta “real”, não mais o nosso personagem-astronauta ficcional, atingisse um horizonte de eventos, não conseguiria escapar do “buraco negro”.

Mas, neste caso, nosso astronauta-real se assemelharia ao nosso personagem- astronauta, o que me levaria a crer, mais uma vez, que existiria um pequeno ponto, nem que fosse um buraco negro, ou vários “buracos”, que se uniram em um único, o que provocou um “big bang”, que fez com que a arte e a ciência se tornassem independentes e provocou a percepção de que ambas não pertencem ao mesmo universo. Daí, poderíamos fazer um caminho inverso, não mais a ficção científica, que se concretiza na realidade física, mas a ficção que vai até a ciência para se construir como história narrada. Ítalo Calvino, no seu livro Todas as cosmicômicas, reúne diversas histórias que foram escritas separadas, mas se referem à crítica à ciência, ao homem e sociedade contemporâneos, à influência dessa ciência sobre o pensamento e a novas perspectiva do mundo.

Nosso personagem, Qfwfq, faz relatórios nos quais revela toda a história do universo desde antes do big bang, quando ele era o último dinossauro vivo sobre a terra, passando pelo tempo no qual, com outras personagens, estava reunido em um único ponto sem qualquer espaço físico, até a explosão que leva ao afastamento de diversas galáxias e, concomitantemente, à separação destas personagens. Caminha do início da história da terra até a sociedade mais do que moderna, com o 152Por tudo que li, me parece que os “buracos negros” não são, verdadeiramente, nem buracos, já que

são”vácuos escuros no espaço”, nem verdadeiramente negros ou escuros: “os buracos negros não são, realmente, negros apesar de tudo: eles incandescem como um corpo quente e, quanto menores eles são, mais incandescentes se tornam. Assim, paradoxalmente, os buracos negros de menor porte seriam os mais fáceis de serem detectados, muito mais do que os maiores!” (HAWKING. 1988, p. 142).

desenvolvimento urbano e os arranha-céus de Manhattan. Todas as histórias se iniciam com uma pequena introdução física, que é importante para a compreensão do enredo e constatação da possibilidade de criação direta de elementos da ciência em textos literários. As histórias de Qfwfq não se classificam como ficção científica porque não teorizam sobre a ciência, não alimentam uma perspectiva de futuro e não investigam novos desenvolvimentos tecnológicos, porém elas se baseiam não apenas na imaginação científica, mas naquilo que se considera como uma verdade científica e referem-se muitas vezes à mitologia ocidental. Além disso, nas histórias, existe um eixo de paixão, pois nosso herói Qfwfq, investigador de fenômenos elétricos, sofre, apaixonado, e sente ciúmes e é capaz de transformar fenômenos e fórmulas em seres vivos, como o fez com sua mulher, de Aurora Boreal para Rá. O nome de nosso personagem central, Qfwfq, não tem vogais, acaba por ser pronunciado como uma sigla. Chamando atenção para si, pelo nome, descobrimos que diversas outras personagens têm nomes que se assemelham a verdadeiras fórmulas matemáticas – a senhora Ph(i)Nk0 ou o senhor PbertPberd, o senhor De XuaeauX, a família Z’ zu.

Uma das histórias, “Tudo num ponto”, seria uma leitura interessante para estabelecermos uma outra relação com os inacreditáveis “buracos negros”. Calvino demonstra que a ciência é capaz de explicar mais do que o mundo, é capaz de explicar o universo, mas que é preciso a imaginação para que tudo seja entendido e faça sentido. Não acredito que sejamos capazes de “visualizar” um buraco negro e seu horizonte de eventos, um buraco de minhoca ou um universo bebê sem consultarmos nossa capacidade de produção de imagens ditas ficcionais. Aliás, é mesmo interessante reparar que os nomes dados a todos esses eventos já têm uma construção metafórica. Dessa forma, é preciso ter imaginação para que a ciência faça sentido e evolua mas, ao mesmo tempo, ou, por outro lado, a ciência deve ser a base de tudo aquilo que almeje algum tipo de encadeamento coerente.

Na narrativa, discute-se a questão do tempo e do espaço antes do início da expansão do universo, com o big-bang. Nosso personagem Qfwfq, e todos os outros desta história, estavam ocupando o espaço de um único ponto. Não era possível determinar quantos eram, pois seria preciso um mínimo de espaço para que pudessem ser contados, o que não era absolutamente possível.

Compreende-se que todos estivéssemos ali, disse o velho Qfwfq, e onde mais poderíamos estar? Ninguém sabia ainda que pudesse haver o espaço. O tempo, idem; que queriam que fizéssemos do tempo, estando ali espremidos como sardinha em lata? Disse “sardinha em lata” apenas para usar uma imagem literária; na verdade, não havia espaço nem mesmo para se estar espremido. Cada ponto de cada um de nós coincidia com cada ponto de cada um dos outros em um único ponto, aquele onde todos estávamos. (2007, p. 47)

A referência ao big-bang e à expansão do universo está explícita no texto, pois o “ponto” que continha todas as personagens vai se expandir “numa auréola de distâncias de anos-luz e séculos-luz e milhares de milênios-luz, e éramos projetados para os quatro cantos do universo” (2007, p. 51), e haverá uma modificação no conceito de tempo e espaço “e à gravitação universal, e ao universo gravitante, tornando possíveis milhares e milhares de sóis, de planetas, de campos de trigo e de sras. Ph(i)NKO” ( 2007, p. 51) mas, ao mesmo tempo, o autor remete à idéia dos buracos negros, seus horizontes de eventos, no princípio desta expansão ou destruição do ponto.

Com esses que enumerei já éramos bastantes para estarmos em superlotação; juntem-se a isso tudo quanto devíamos ter ali guardado: todo o material que depois iria servir para formar o universo, desmontado e concentrado de modo que não se podia distinguir o que em seguida iria fazer parte da astronomia (como a nebulosa Andrômeda) daquilo que era destinado à geografia ( por exemplo, os Vosgues) ou à química (como certos isótopos de berílio).(2007, p.48)

Tudo o que iria fazer parte do universo estava em um único ponto que se expandiu. É interessante perceber como um escritor, em uma narrativa curta, é capaz de transformar conceitos e estudos da física em um elemento estético e literário. Muitos escritores modernos tentaram exprimir literariamente conceitos da ciência, assim como muitos cientistas ousaram se tornar cientistas-escritores ou cientistas- artistas. As histórias da ciência e da literatura sempre estiveram perto uma da outra. Carl Sagan, cientista e astrônomo, considerado como um dos maiores divulgadores da ciência, criou a personagem Eleanor Arroway, no seu livro Contato, que

atravessa o centro da galáxia por um “buraco de minhoca”. O cientista escreveu um livro de ficção científica baseando-se na ciência e, como sua história envolve os conceitos de gravitação, quarta dimensão e viagem através do tempo, acabou por provocar um campo da física que envolveu físicos renomados e mundialmente conhecidos, nessa discussão.

No romance, Sagan alia a literatura ao conhecimento científico e às pesquisas científicas mais avançadas e constrói um romance que, embora possa “viajar” no ficcional quando se refere ao possível contato dos seres humanos com extraterrestres, nos apresenta a ciência associada à ficção. Os sinais emitidos a partir da estrela Vega são mensagens codificadas que se relacionam com os avanços mais modernos da astronomia e da física e ficamos, com seu livro, mais uma vez na fronteira entre a ciência e a ficção, a física e a metafísica com a percepção de que é possível que um remeta ao outro. Há uma Máquina, construída com alta tecnologia e custo – trilhões de dólares –, que é um dodecaedro capaz de viajar mais rapidamente do que a luz dentro de buracos negros e visitar o centro da galáxia. Mesmo que isso não seja comprovado no próprio romance, é interessante que o autor coloque sua personagem central, Ellie, uma mulher voltada para a ciência, encontrando no espaço, no “céu”, o pai, por quem nutria grande admiração, respeito e saudade, e que já estava morto. Isso faz com que sua história de viagem seja considerada como uma fraude. Acho que há, aqui, a valorização de um cientista-artista ao desconhecido da alma e, paralelamente, a necessidade constante que tem a ciência de apresentar provas, comprovações. Se estas não existem, não há verdade ou “nova” verdade.

Carl Sagan é um escritor de textos científicos que se tornou popular pela linguagem mais simples, desmistificando o discurso científico e, difundindo o conhecimento e desvendando o espaço, foi capaz de também produzir um romance de ficção científica, mostrando sempre que tanto a ciência quanto a tecnologia podem contribuir para o bem-estar do ser humano. Na voz de suas personagens, no romance

Contato, é capaz de afirmar que os cientistas “questionam tudo, ou tentam

questionar. Estão sempre querendo verificar se uma coisa é o que chamam de ‘verdadeira’. E ‘verdadeiro’ significa apenas dados empíricos, sensoriais, coisas que vocês podem ver e tocar. Não existe lugar para a inspiração ou a revelação” (1997, p.

159) para em seguida, na voz de Ellie, contradizer e explicar que há um motivo para o “ceticismo” científico, pois o mundo é “complicado” e “sutil”.

A primeira idéia que passa pela cabeça de uma pessoa não será necessariamente a correta. Além disso, as pessoas são capazes de iludir a si mesmas. Até mesmo os cientistas (...) Assim, a maneira que se tem para evitar os erros, consiste em ser cético. Põem-se as idéias à prova. Elas são verificadas através de normas rigorosas ... Mas quando se permite o entrechoque de opiniões divergentes, quando qualquer cético pode realizar sua própria experiência afim de comprovar a verdade ou a falsidade de alguma idéia, então a verdade tende a aparecer. Esta é, em síntese, toda a história da ciência. Não é um caminho perfeito, mas é o único que parece funcionar. ( 1997, p. 160).

Os buracos negros, no estudo de Hawking, aparecem na ficção de Ítalo Calvino, um romancista que escreve a boa literatura e constrói textos a partir do conhecimento científico e, um cientista que busca na ficção literária uma maneira de discutir a própria ciência. A busca pelos “extraterrestres”, a viagem pelo “buraco de minhoca”, a viagem ao passado e ao futuro, com certeza devem ser muito mais interessantes. Por enquanto, ou melhor, enquanto a ciência não comprovar o que hoje ainda é apenas discussão e possibilidade nas páginas dos livros de ficção científica. Talvez, quem sabe, por isso, Carl Sagan tenha ido para lá, e talvez, também, quem sabe, Ítalo Calvino tenha feito o caminho inverso. Saído das páginas da ficção, dos recursos da imaginação para as possibilidades de tecnologia e ciência numa percepção mais atual do nosso mundo que, sem dúvida, ainda tem muito de “ficcional”.

Buracos de vermes. No jargão revelador da física teórica, o universo era a maçã e alguém havia construído em seu interior inúmeras passagens entrecruzadas. Para um bacilo que vivesse na superfície da maçã, aquilo era um milagre. No entanto, um ser colocado fora da maçã poderia sentir-se menos impressionado. Dessa perspectiva, os Construtores do Túnel seriam apenas um estorvo. Mas se os Construtores são vermes, pensou Ellie, quem somos nós? (SAGAN, 1997, p. 410).