Chapter 2: Geochemistry of Uranium
2.7 Dissolution /Precipitation / co-precipitation
Quanto aos indignados na Espanha e ao Occupy Wall Street, Alves (2012) enxerga que esses movimentos constituem densa e complexa diversidade social e exprimem a universalização da condição precária do proletariado – aliada à concentração de riqueza –característica das últimas três décadas de capitalismo neoliberal e intensificada com as crises financeiras. Conforme Alves, esses movimentos carregam uma profunda consciência moral e senso de justiça social. O uso das redes sociais, diz ele, ampliou a mobilização social e a área de intervenção territorial, produzindo sinergias sociais em rede.A luta contra o capital global que desterritorializa é a luta pela territorialização ampliada, difusa e descentrada (ALVES, 2012, p.33). Enquanto duram, os acampamentos transformam o cotidiano habituado a reproduzir as normas do capital em um espaço coletivo de reivindicação de direitos.
Porém, a crítica radical ao capitalismo que expôs as contradições impregnadas na ordem burguesa não foi além. Esvaziadas e reprimidas, as acampadas deixaram um legado.A cultura da autonomia foi fortalecida e revitalizada e, mesmo que não esteja mais em evidência, continua a ser construída subterraneamente. Castells avalia que as instituições democráticas foram desafiadas e a crença no capitalismo financeiro global foi abalada. A globalização dos de baixo – segundo Alves, em uma afirmação que lembra a máxima difundida pela AGP de que “a luta é global” – se contrapôs à globalização dos de cima. No Brasil, entretanto, a concretude da articulação dos de baixo foi questionada.
79 Um artigo42 publicado pelo Passa Palavra diferencia o contexto europeu e norte- americano do contexto brasileiro. Nos Estados Unidos e Europa, a centralização do capital e o endurecimento dos critérios econômicos forneceram o substrato real das movimentações no Norte, pois desencadearam a queda no padrão de vida que retirou uma grande massa de pessoas – entre trabalhadores, desempregados e estudantes - da passividade. Enquanto que, no Brasil, o cenário econômico favorável – com taxas de crescimento significativas – dificultou a criação do clima de indignação visto nos países onde o movimento teve início. Segundo a publicação, isso tornou os objetivos das acampadas no Brasil caricatas e dispersantes. A presença massiva de jovens estudantes universitários revelou a inexistência de uma construção coletiva anterior, distanciando a ocupação de um movimento popular. Como não houve “a construção de uma ponte com o mundo do trabalho, com as empresas, com as periferias, com as escolas e faculdades, ou seja, com o mundo das pessoas comuns”, as ocupações foram um “o maior movimento para o nada que se pode dizer que o movimento autônomo fez nos últimos anos”.
“Para se superar a onda de proclamações abstratas e dispersantes, é necessário fazer o caminho da politização, que consiste em inserir o problema específico no contexto geral, e não o inverso, como tem sido a tônica. Se queremos que o acampamento tenha uma boa consistência, uma longa duração e grandes consequências políticas, é imprescindível que o próprio acampamento seja resultado de lutas concretas, de assembleias e comissões democráticas realizadas previamente em locais de trabalho, em bairros, em escolas, ou seja, em locais onde o que é decisivo para a vida acontece” (PASSA PALAVRA, 2011).
O artigo também observa a fetichização do processo na ocupação organizada no centro de São Paulo, uma vez que grande parte do expediente de trabalho do movimento foi gasta com debates sobre a organização interna da acampada. As críticas do texto geraram discordâncias entre duas gerações de ativistas: os da AGP – dos quais muitos escrevem para o Passa Palavra - e os ocupantes de 2011, acusados por aqueles de terem dispersado um forte potencial de mobilização.Nos comentários, militantes do Ocupa Sampa e Ocupa Salvador discordaram das críticas e pediram a solidariedade dos veteranos. Caio Castor, que estava na ocupação do Anhangabaú, reconheceu que a expansão do movimento exige tempo e disponibilidade e questionou por que os militantes do Passa Palavra não ajudam os acampados a construir o trabalho de base. E
42“Entre símbolos e ações simbólicas: os indignados e as acampadas”, disponível em http://passapalavra.info/2011/11/48056.
80 conclui: “assumo nossas fraquezas, erros e contradições, mas também assumo a beleza de sermos eternos aprendizes”.
Em outro artigo43 publicado no mesmo site, fez-se uma comparação entre a geração Seattle e a geração dos acampantes. Assinado por Manolo, o texto questiona os limites do uso da internet pelos coletivos. Na época da AGP, ele conta, a plataforma do Centro de Mídia Independente era acessada quase exclusivamente por ativistas envolvidos com os protestos, ficando o site desconhecido do resto da população. Outro problema observado nesse período foi a crescente dependência da comunicação digital, gerando o fenômeno da “adhocraciageek”, ou seja, “de uma camada social detentora de conhecimento técnico em informática difusa por toda a “geração Seattle”. Assim, ele reporta-se aos acampados indagando sobre os problemas de uma excessiva utilização desse meio de comunicação.
A dependência de certa militância virtual que curte ou confirma participação nos acampamentos sem prestar-lhes qualquer outro apoio prático não arriscaria criar entre os acampantes expectativas de participação muito mais altas do que aquelas que são capazes de mobilizar?
Mesmo com as críticas, o Ocupa Sampa procurou estar próximo, seja na web ou nas ruas, de coletivos autônomos e anticapitalistas. A interrupção das acampadas e outras atividades presenciais não impediu a manutenção das páginas nas redes sociais Facebook e Twitter, através das quais são compartilhadas publicações de movimentoscomo o Passe Livre, aquele que organizou e convocou, em junho de 2013, protestos contra o aumento da passagem de ônibus. As chamadas jornadas de junholevaram centenas de milhares de pessoas às ruas da capital paulista e estimularam protestos em diversas cidades brasileiras.As manifestações tornaram ainda mais explícitasa crise de representatividade no Brasil – que tem na Internet um forte meio de expressão - e a fragmentação da classe trabalhadora –decorrente da fase informacional do capitalismo-, refletindo conflitos historicamente enraizados nas sociedades ocidentais e gerando novos embates. Por isso, será necessário compreender como as manifestações que alteraram o cotidiano de diversas cidades brasileiras, especialmente em São Paulo, fortaleceram a articulação entre os movimentos autônomos a partir de estratégias políticas e comunicativas.