Os participantes de festividades podem esquecê-lo, mas organizar uma festa implica preparação, programação, trabalho. A responsabilidade pelos preparativos das Festas Nicolinas incumbe por inteiro aos dez membros da Comissão, à exceção (notável) das Danças de São Nicolau, elaboradas e executadas pelos Velhos Nicolinos. O peso deste encargo é descrito amiúde como sendo formidável para rapazes entre os 14 e os 18 anos, «especialmente nos dias de hoje, em que não sabem nada da vida!». Um texto disponível em linha, da autoria de André Coelho Lima, um dos nicolinos mais convictos, ilustra bem o leque das dificuldades:
Pertencer a uma Comissão de Festas não é um passeio. É muito difícil. É difícil percorrer vários quilómetros todos os dias para realizar os «tradicionais peditórios» (e romper três pares de sapatos…). É difícil andar à chuva sem poder usar guarda-chuva, e carregar a capa que, molhada, pesa quilos. É difícil sentir de perto tantas dificuldades de tantas famílias a quem pedíamos que contribuíssem. É difícil chegar ao fim da tarde, já noite, completamente esgotado e só ter tempo para jantar a correr, porque às 21h30 já tinha de estar na cidade para as reuniões diárias. […] É difícil ter de impor respeito e mandar calar, sozinho, umas dezenas de caixas que estejam a tocar para além das 22h00. É difícil passar as festas todas sem, no fundo, nelas poder participar, porque a nós cabe organizar. (Coelho Lima 2012)
As descrições feitas pelos membros das Comissões mais recentes são em tudo semelhantes, sendo sempre realçadas as dificuldades em manter o traje impecável e também cumprir a regra que proíbe o uso do guarda-chuva… A evocação do contacto com famílias menos abastadas é igualmente recorrente: para alguns dos rapazes, os peditórios parecem ser, realmente, a primeira oportunidade de um contacto efetivo com as preocupações sociais associadas ao espirito nicolino.
Ao mesmo tempo, não faltam Velhos Nicolinos para matizar uma visão que pensam ser um pouco excessiva: «Bom, eles são bem acompanhados», «Há sempre um de nós por perto, caso seja preciso», «É trabalho, mas não vamos exagerar.» Além dessas avaliações divergentes, todos reconhecem, no entanto, que o controlo da multidão que acompanha o cortejo do Pinheiro ― cuja solenidade e imponência importa, idealmente, conservar em toda a sua dimensão ― pode assumir uma dimensão física e uma intensidade psicológica muito mais significativas para um adolescente de hoje do que para os estudantes de tempos passados, que por vezes podiam ter mais de vinte anos e não precisavam de enfrentar a mesma dificuldade, dado que o número de participantes era muito mais reduzido. E é geral a opinião de que, segundo escreve André Coelho Lima (2012), «sai-se da comissão uma pessoa diferente da que lá entrou. Mais amadurecida, mais responsável, mais preparada para o Mundo. A vivência da Comissão de Festas é essencialmente formativa.» Esse cariz formativo começa, como declarou o mesmo nicolino quando interrogado sobre o assunto, pela oportunidade de contactos entre membros de universos sociais diferentes: «temos os dois extremos da sociedade ali, a conviverem como irmãos.» Para Francisco Guise,
Se temos às costas as festas mais importantes de Guimarães, acho eu, é preciso ganharmos muita maturidade. Temos que pensar nas coisas, tem de haver dinheiro para pagar, tudo.
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O primeiro instrumento desta formação pessoal é a regra que impõe o uso de um traje cuja sobriedade de linhas e cor parece modificar as posturas corporais, conferindo-lhes mais gravidade. Desde a sua eleição até ao fim do ciclo festivo no início do mês de dezembro, mais de dois meses mais tarde, os membros da Comissão têm de usar sempre o tradicional traje académico, por vezes designado como traje nacional, de traço oitocentista: camisa branca, calça preta, gravata preta, colete preto, batina preta, capa preta e sapatos pretos. É com orgulho que entre os nicolinos é referido o facto de se tratar do único traje liceal reconhecido e aceite nas universidades de Coimbra e do Porto. Além do fraco enraizamento local de muitos estudantes universitários oriundos de outras regiões do país, a questão dos respetivos trajes terá sido uma das razões de monta que explica o fracasso das ideias de aproximação entre a tradição nicolina e as práticas, inspiradas nas tradições académicas de outras universidades, que entretanto surgiram e foram adotadas na Universidade do Minho, fundada em 1973 e que tem um campus em Guimarães. Segundo Luís Guise, muita gente desconhece
a diferença que há entre um nicolino em termos de traje e um moço da faculdade. Eles são ensinados desde logo a saber dobrar a capa convenientemente, usá-la direito, saber onde a pousam… enquanto que com os universitários há um desrespeito maior pelo traje, eles não têm essa forma de ver o traje.
Para Francisco Guise, representante da geração nicolina ulterior,
é o respeito ao traje, não usar relógio, usar o traje bem vestido, sem dobras na camisa, o cinto… e andarmos todos iguais. […] os sapatos têm de ter três furos, os cordões têm de passar três vezes, temos de andar sempre com cinto, a camisa tem de andar sempre nas calças (só se for às vezes que na nossa sede podemos andar mais à vontade...), mas em público o botão de cima tem de estar sempre apertado, a gravata também, a capa bem dobrada ou bem traçada... não pode haver sinais de desleixo, se somos representantes do que é um estudante temos de ir direitinhos. Eu nunca senti muito a obrigação, mas pode haver membros que se desleixem um bocado e em que o traje não se apega a eles da mesma maneira... ou às vezes esquecimento, pode acontecer.
O respeito deste código de indumentária é absoluto: a entrada no corpo coletivo da Comissão implica que os corpos dos seus membros abdiquem da sua individualidade que o uniforme vai apagar. A distinção austera da silhueta anacrónica de alguns rapazes muito intriga os turistas que porventura explorem as ruas do centro histórico no outono. Para os habitantes, aperceber um jovem envolto na sua capa preta para se proteger da chuva é um sinal da aproximação das festas dos estudantes. Nos números festivos que exigem uma atividade física mais intensa, como o Pinheiro, as Posses ou as Roubalheiras, os membros da Comissão usam o «traje de trabalho»: calças pretas, camisa branca, lenço tabaqueiro vermelho, gorro nicolino (também conhecido por «mitra») vermelho com uma borda verde na base. Os outros estudantes e os Velhos Nicolinos que acompanham os festejos vestem a mesma indumentária, a qual também é usada pelos últimos nas suas aparições públicas ― por exemplo, por ocasião das diversas iniciativas de divulgação que promovem. Em virtude do seu estatuto, o presidente e o vice-presidente da comissão só envergam o traje de trabalho em duas ocasiões: no Pinheiro e nas Posses. Vestir o traje de trabalho é em princípio reservado a quem goza do estatuto Nicolino, que as estudantes do ensino secundário do concelho podem agora reivindicar. No entanto, as crianças de ambos os sexos que participam no Pinheirinho, uma atração recente que antecede a abertura oficial das festividades, usam também este
57 traje ou pelo menos roupa que o evoca: esta iniciativa comporta, antes de mais, um cunho pedagógico e trata-se de proporcionar às crianças uma primeira experiência de pertença a uma comunidade. E, na atualidade, ninguém pode garantir que, no meio da multidão que invade a cidade na noite do Pinheiro, não haja alguma cabeça de futrica coberta por uma mitra usurpatória.
Vários ex-membros da Comissão evocam sempre com grande emoção o momento em que vestiram pela primeira vez o traje nicolino. A evocação que André Coelho Lima (2012) faz deste momento é eloquente:
Depois veio o traje. Coube-me herdar o traje que o meu Pai usara no tempo dele do Liceu. Que orgulho! Vestir o mesmo traje, a mesma batina, a mesma capa que o meu pai usara vinte anos antes, rasgada pelos seus amigos e pela minha Mãe. Arranjar camisas adequadas, aprender a dar o nó na gravata. Tudo era novo, tudo era diferente.
A consciência de dar continuidade a uma linhagem nicolina familial, como é patente neste caso, só pode acentuar a carga emotiva, mas todos evocam o mesmo comovente sentimento de «orgulho» perante a perspetiva de inscrever-se numa genealogia restrita e envergar o mesmo traje usado por muitas gerações passadas de estudantes, um estilo de vestuário bem diferente das usuais calças de ganga e T-shirts.
«Tudo era novo, tudo era diferente» impõe-se como outra constante nas declarações, insistindo todas na transformação e descoberta pessoal em virtude da passagem pela Comissão. Independentemente da avaliação que se faça da dificuldade efetiva das tarefas nicolinas, a sua realização é encarada como um teste cuja superação se assemelha aos efeitos de um rito de passagem ― uma cerimónia, por vezes associada a certas provas, que anuncia à sociedade a mudança do estatuto simbólico atribuído a um indivíduo: batizado, baile de debutantes, casamento… De facto, além de envolver o uso de instrumentos musicais percussivos, um traço comum dos rituais de transição em todo o mundo (Needham 1987), várias características das Festas Nicolinas coincidem com a sequência tripartida definida na teoria geral dos ritos de passagem, cujas premissas foram delineadas pelo grande folclorista Arnold Van Gennep (1909) no início do século XX: as fases de separação, liminaridade (ou marginalidade) e incorporação ou integração que são impostas a um indivíduo servem para organizar importantes períodos de transição. Qualquer fase de mudança implica instabilidade e pode acarretar algum perigo para a ordem social, necessitando portanto de ser controlada
De facto, logo após a separação significada pela sua eleição, os rapazes da Comissão ingressam numa certa vivência diferenciada, pelo menos relativamente à sua vida quotidiana até então, um afastamento simbolizado pelo traje, entre outros signos. Assim, até à conclusão das Festas, os dez jovens deixam crescer o cabelo e a barba (quando a têm…). É conhecido o uso que muitas sociedades fazem da pilosidade para manifestar visualmente mudanças de estatuto dos seus membros. Modificações corporais como a tatuagem, as escarificações, a circuncisão, a excisão, etc., são irreversíveis e podem ser usadas de maneira obrigatória, como um cartão de identidade inscrito na pele, para significar, por exemplo, a entrada na idade adulta, um acontecimento irreversível. De mesma maneira, a pilosidade pode servir para comunicar
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informações sobre as representações das diferenças dos géneros, a identidade étnica, a aceitação de uma disciplina ou a rebelião… Além de poderem ser tingidos e modelados, pelos e cabelos têm a propriedade de voltar a crescer depois de cortados ou arrancados (em parte ou em totalidade). Oferecem, portanto, a possibilidade de expressar uma situação transitória em que a pessoa se encontra ― por exemplo, um luto (sobre a gestão social e cultural da pilosidade, ver o estudo notável de Christian Bomberger 2015). Ao contrário do que é o caso em muitos contextos culturais, em Portugal as modificações corporais são hoje em dia optativas e, excetuando certas profissões que promovem a uniformização da aparência dos seus membros (como nas forças armadas), os indivíduos desfrutam de uma grande liberdade, limitada mais pelos costumes do que pela lei ― por exemplo, de escolha do corte de cabelo. Embora nos últimos anos a volatilidade da moda tenha voltado a pôr uma barba profusa entre os adornos pilosos aceitáveis, ou até procurados, nos rostos dos homens jovens, o seu uso não é dominante entre os estudantes do ensino secundário e pode servir para denotar alguma originalidade ou diferença. O uso da barba por todos os membros da Comissão é mais um reforço da uniformização da sua aparência, mais um sinal da integração do indivíduo no coletivo. A exigência social de um corte curto no caso dos rapazes tem-se diluído imenso e um cabelo comprido ou um rabo de cavalo já não têm as mesmas antigas conotações de rebeldia. No entanto, uma cabeleira com mais de dois meses contrasta com o rigor do sóbrio traje académico. Mais ainda, o simples facto de não adequar o estilo da barba e do penteado da pessoa à sua indumentária aponta para uma situação de alguma desordem, na margem de uma inteira normalidade. É verdade que, até ao fim das festividades, os rapazes da Comissão integram um grupo cujas atividades de preparação das Festas, em grande parte realizadas durante o período noturno, implicam um certo distanciamento em relação à vida social habitual, nomeadamente ao nível familiar. Além da uniformização da sua aparência, a criação de um espírito de corpo entre esses alunos ― oriundos de estabelecimentos e de anos diferentes ― passa muito pela comensalidade: um primeiro jantar segue-se à eleição, e muito mais refeições em comum se sucederão. No período pós-escolar, só têm disponibilidade para socializar entre si, regressando tarde a casa ou passando noitadas fora, testando a sua resistência ao cansaço e ao sono, iniciando-se no consumo de álcool ― ou reforçando capacidades já adquiridas nessa matéria… A hierarquia interna da Comissão deve ser respeitada em absoluto e os incumprimentos de índole disciplinar ou dos objetivos dos peditórios motivam punições de vários tipos, que podem ser mais ou menos humorísticas, mas também passíveis de incluir uma certa dimensão física, conotações sexuais, ingestão de bebidas alcoólicas. O juramento assinado pelos novos membros da Comissão alude precisamente a este tipo de condutas, apelando para que sejam evitadas, e o assunto das «praxes» é muito delicado no seio do universo nicolino e no ambiente social circundante. Aliás, nem todos aceitam o termo, preferindo, por exemplo, falar em «testes», «provas» ou «castigos». Segundo Francisco Guise,
é tudo à base da bebida, não há nada de violência ou essas coisas, mas nem é bem castigos, é mais uma condição. Por exemplo, tens de saber os toques agora: ou aprendes ou tens aqui este copo para beber; e aí posso aprender a tocar e não beber, ou beber e não aprender. E esses castigos são para esse tipo de coisas.
59 Outros participantes optam no entanto por insistir sobretudo na lembrança viva do seu estado posterior após certas praxes. Independentemente da verdadeira natureza destas práticas, ninguém nega a sua existência, mesmo sem a admitir abertamente, ou por vezes procurando amenizar os rumores que circulam na cidade a esse respeito: «Há muita gente que não faz ideia do que fala.» A Comissão funciona num regime hierárquico estritamente implementado e a vontade deliberada de deixar o seu funcionamento interno envolto num certo mistério aos olhos alheios confere ao ato de entrada nesse grupo muito restrito uma certa qualidade iniciática.
A necessária aceitação da autoridade e a manifestação de respeito perante quem a detém é outro traço que os Velhos Nicolinos designam como essencial na passagem pela Comissão, cuja dimensão integradora enquanto rito de passagem também pode ser encontrada no apadrinhamento pelos antigos membros e no ingresso nessa comunidade restrita. A intensidade da experiência é invariavelmente referida por quem a viveu, salientando sobretudo, para além da sua qualidade de «aprendizagem pela vida», o facto de ser o molde de laços de amizades absolutamente indefetíveis:
No final fiz boas amizades com pessoas que não conhecia. Amizades que guardo até hoje.
Começou aqui a melhor experiência da minha vida. Melhor porque irrepetível, melhor porque só absorvível na plenitude se vivida nestas idades, melhor por ser tão intensa, e ao mesmo tempo tão rápida. (Coelho Lima 2012)
Essas semanas intensas e que se desenrolam num ritmo rápido encerram com o Baile da Saudade, que, em tudo similar a um jantar e gala de finalistas (embora acontecendo no fim do primeiro trimestre), pode ser entendido como assinalando a reintegração dos rapazes da Comissão na ordem normal. No dia seguinte usarão a sua roupa habitual, e só voltarão a vestir o traje quando tiverem de cumprir as suas obrigações oficiais, até ao fim do seu mandato anual, comparecendo em certas cerimónias específicas, como na eventualidade do funeral de um Velho Nicolino.
Todavia, é necessário precisar que a interpretação da passagem pela Comissão enquanto rito de passagem deve reger-se por determinados limites. A sua eficácia simbólica é limitada à comunidade nicolina, fora da qual o facto de ter sido membro da Comissão não significa nada de particular para o resto da sociedade vimaranense. E, algo estranhamente, um mesmo rapaz tem a possibilidade de se submeter ao mesmo rito em anos consecutivos, o que não acarreta nenhum efeito prático acrescido e em nada altera o seu estatuto. Tornar-se membro da Comissão só é possível para dez rapazes entre várias centenas de potenciais candidatos. No entanto, quando chegam ao fim do seu percurso, e embora se tenham submetido a todas as exigências rituais que a participação na Comissão impõe, os eleitos não serão considerados diferentes da restante comunidade nicolina. Guardarão mais lembranças, algumas delas mais intensas, e poderão tornar-se sócios da ACFN, mas tal não fará deles mais nicolinos do que os seus colegas (e, hoje em dia, igualmente as suas colegas) que simplesmente participaram nas Festas sem pertencerem à Comissão e sem partilharem a sua organização. É como se a valoração simbólica dos esforços que uma pequena parte do conjunto dos estudantes desenvolve para a preparação das festividades se estendesse ao seu todo,
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por via de um efeito de tipo metonímico ou por procuração. O que conta verdadeiramente é que sejam os estudantes, considerados na sua totalidade, a realizar as Festas e a mostrar que continuam, todos, tão capazes de o fazer como os seus predecessores de anos ou décadas atrás. Os esforços da Comissão valem para todos. Portanto, de duas, uma: ou o que aparenta ser um rito marcando uma passagem, uma transformação de alguns indivíduos, tem na realidade outra função, ou então o rito não tem qualquer eficácia ― e, por conseguinte, não é rito algum, pelo menos no sentido pleno do termo.
Uma leitura crítica da obra de Van Gennep, desenvolvida pelo sociólogo Pierre Bourdieu (1982), pode ser aqui útil. Este autor considera que Van Gennep identificou e nomeou utilmente um tipo de ritos, mas que, ao insistir em demasia nos seus efeitos temporais (a tal passagem), negligencia o necessário questionamento da função e da significação social da linha, do limite, que motivam a existência do rito em questão. Segundo Bourdieu, um dos efeitos essenciais do rito não é separar quem a ele é submetido de quem ainda não o foi, mas sim separar quem a ele é submetido de quem nunca poderá sê-lo. Assim, o rito institui, oficializa uma diferença entre os indivíduos a quem diz (ou pode dizer) respeito e aqueles a quem não diz respeito. Tratando de maneiras diferentes grupos diferentes de indivíduos, o rito de instituição (expressão que Bourdieu prefere a «rito de passagem») consagra a diferença, torna de facto uma simples diferença numa distinção legítima, numa instituição: ritos sexualmente diferenciados, como é o mais frequente, legitimam a diferença entre os sexos.
No caso das Festas Nicolinas, foram criadas e sustentadas ao longo de séculos por rapazes que se sabiam destinados a integrarem a elite social local, e possivelmente nacional, todos eles vivendo num meio em que a dominação masculina era naturalizada e inteiramente impensada. A essencial indignidade dos futricas era-lhes notificada fisicamente, com um banho forçado no chafariz. E, até à década de 1980, as festividades remeteram as raparigas, nas Maçãzinhas, exclusivamente para um papel de potenciais seduzidas (que, é certo, podem recusar uma relação, mas nunca podem tomar a sua iniciativa, numa demonstração de maior autonomia). Ainda são vivas as memórias de atitudes que roçavam a violência quando as mulheres começaram a tentar participar no Pinheiro. Será que se tratava realmente de uma posição destinada apenas a reiterar quem pode organizar a festa? Não estarão aqui em jogo outros limites, muito mais fundamentais? É admissível que uma fronteira social possa evoluir. O contexto social modificou-se e os futricas já invadiram a noite do Pinheiro. As mulheres também, no âmbito do mesmo movimento; em contrapartida, a eventualidade de uma participação feminina na Comissão ou a perspetiva de uma recomposição do número das Maçãzinhas, questionando a representação que produz das relações entre os géneros, suscitam objeções veementes ou uma completa incredulidade, parecendo indiciar uma espécie de linha vermelha intransponível. Num universo nicolino cujas fronteiras externas se diluíram, uma Comissão exclusivamente masculina permite a continuidade de uma referência estável, justificada formalmente pela tradição e que, dizendo respeito às diferenças de género, reitera uma alteridade que é um traço organizador fundamental do funcionamento social. Além disso, a Comissão é um assunto de homens, estando em jogo capacidades, atitudes e maneiras de ser masculinas, às quais os jovens devem