Os dados gerais metodológicos serão analisados à luz das concepções teóricas de Piègay-Gros (1996), Bazerman (2006), Koch; Bentes e Cavalcante (2008), Koch e Elias (2014), Cavalcante (2011), Kleiman (1999) sobre o conceito e as tipificações de intertextualidade. Pautei-me, ainda,nos PCN (1998), quanto ao ensino de Língua Portuguesa.A pesquisa foi desenvolvida em dois momentos investigativos essenciais: a) discussão das concepções teóricas, na perspectiva da Linguística de Texto e b) análise do corpus.
Assim, proponho-me a mostrar a presença do fenômeno da intertextualidade nos livros didáticos de Língua Portuguesa, a partir do estudo dos textos de diversos gêneros presentes nas seções de leitura, através do desenvolvimento dos seguintes passos metodológicos: a) realizei um estudo geral, sobre como o tema intertextualidade foi trabalhado em cada material didático analisado, com ênfase nos exemplos recortados que serão apresentados nos capítulos de análise; b) identifiquei os tipos de intertextualidade presentes nos livros didáticos para a categorização e/ou recuperação dos textos-fonte, reconhecendo os intertextos presentes nas leituras, verbais e não verbais; e c) analisei os usos dos processos de intertextualidade presentes nos livros didáticos, de forma a perceber como os intertextos utilizados podem contribuir para uma compreensão maior dos sentidos do texto por parte dos discentes.
Dando continuidade, fiz uma análise geral de cada livro e, em seguida, investigamos os usos da intertextualidade nas seções de leitura, exemplificando, com textos e/ou atividades retiradas dos livros, sempre que se fez necessário para uma melhor compreensão da amostra. Como parâmetro de análise, pautei-me nas categorias de análise propostas por Piègay- Gros (2010), já descritas na Fundamentação Teórica: alusão, referência e citação, cujas tipificações abordam a forma com que a intertextualidade pode se manifestar, no caso por copresença, na qual é possível perceber facilmente a presença de trechos de outros textos em um determinado texto, seja de forma implícita, como a alusão, ou de forma explícita, como a citação e a referência, marcas semelhantes às da abordagem apontadas por Genette (2010), com que nos identificamos, também.
5 A INTERTEXTUALIDADE NOS LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENSINO MÉDIO
Ao longo da vida, o ser humano vai adquirindo uma bagagem de conhecimentos e habilidades resultantes de suas experiências advindas da convivência com outros seres humanos dentro de uma sociedade, na qual os indivíduos se educam em suas relações com o mundo, em um processo permanente de aprendizado. Esses conhecimentos precisarão ser retomados em diversos momentos da vida do indivíduo.
No que concerne ao ensino de Língua Materna, essa bagagem de conhecimentos prévios possui uma grande relevância no que diz respeito ao trabalho com a leitura através de textos dentro e fora da sala de aula. Percebemos, atualmente, que tanto os docentes como as orientações fornecidas pelos PCN para o ensino da língua materna têm dado uma maior atenção ao ensino de Língua Portuguesa, desviando o foco centrado na gramática normativa.
Portanto, o trabalho com os textos em sala de aula não deve ser utilizado apenas como pretexto para o ensino da gramática, direcionado apenas às regras gramaticais e aos conceitos estabelecidos pela gramática normativa. O professor precisa saber utilizar práticas que partem de uma concepção interacional de língua, de sujeito e de texto; e os discentes precisam ser estimulados a refletir sobre os sentidos dos textos, estabelecendo relações com textos e/ou situações vivenciadas anteriormente.
No que se trata do trabalho com a intertextualidade em sala de aula, o dever do docente é conscientizar o aluno sobre a necessidade de se identificar e/ou trabalhar com textos e intertextos, que são interessantes objetos de estudo e análise e atuam como fortes aliados às novas significações que podem surgir a partir da inclusão de um texto em outros. É importante ressaltar que todas as ocorrências desse fenômeno cumprem um propósito discursivo no texto, e é este propósito que leva o autor a recorrer à intertextualidade como recurso linguístico. Ademais, todas as questões ligadas ao fenômeno da intertextualidade, influenciam em dois fatores: no processo de produção e no processo de compreensão de textos, e podem apresentar determinadas consequências no momento do trabalho pedagógico com o texto (KOCH; TRAVAGLIA, 1989).
Corroborando com essas ideias, Koch e Elias (2014) afirmam que a leitura de um texto exige muito mais que o simples conhecimento linguístico compartilhado pelos interlocutores: o leitor é levado a mobiliar várias estratégias, tanto de ordem linguística como
de ordem cognitivo-discursiva, com o fim de levantar hipóteses, validar ou não as hipóteses formuladas preencher as lacunas que o texto apresenta, enfim, participar de forma ativa na construção dos sentidos do texto. Nesse processo, autor e leitor devem ser vistos como ‘estrategistas’ na interação pela linguagem.
Dentro desse contexto, afirmo que o texto e o intertexto são objetos essenciais para a construção de sentidos que nos trazem a importância do conhecimento de mundo e do conhecimento interacional. É imprescindível lembrar o que é o fenômeno da intertextualidade, tema bastante estudado pela Linguística Textual e já discutido nesta pesquisa, e a relevância do trabalho com esse processo nos livros didáticos de Língua Portuguesa. Conforme Pamplona (2012/on-line), assessora especialista de Língua Portuguesa da Editora Moderna:
O tópico intertextualidade dos livros didáticos, muitas vezes esquecidos pelos professores do ensino médio e fundamental, atua como um forte aliado às novas concepções de ensino segundo a linguística moderna, pois privilegia a interdisciplinaridade e a adaptações de conteúdos.
Em suma, a intertextualidade é geralmente trabalhada no processo de interpretação de textos e pode ser considerada como um fenômeno importante para a construção dos sentidos dos textos em distintos contextos. Nesse sentido, Barthes (1974, p. 46) afirma que:
O texto redistribui a língua. Uma das vias dessa reconstrução é a de permutar textos, fragmentos de textos, que existiram ou existem ao redor do texto considerado, e, por fim, dentro dele mesmo; todo texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variados, sob formas mais ou menos reconhecíveis.
Seguindo essa trilha, Sampaio (2013, p. 35) defende que "a presença constante de outros textos em determinado texto comprova a relevância da teoria da intertextualidade para a Educação, no ensino/aprendizagem de textos.". Nesse sentido, temos como objetivo geral analisar como a intertextualidade aparece nas atividades de leitura dos livros didáticos, classificando-a conforme as suas características.
Feitas essas considerações, passo para a explanação sobre as categorias de análise, considerando os aspectos mencionados em nossa fundamentação teórica. A partir do exposto, analisei de que forma a intertextualidade é reconhecida e trabalhada nas atividades das seções de leitura dos livros didáticos quando recorrem a textos, para exploração da leitura que manifestam o fenômeno.