Como a problemática está inserida no contexto da Engenharia de Produção (EP), faz-se necessário delinear sua área de atuação, para compreender o raio de ação da pesquisa. A EP nasceu a partir das necessidades oriundas dos sistemas produtivos que exigiam uma nova forma de gestão da produção e do trabalho. Isto, a princípio, lhe rendeu uma estreita ligação com a administração e com as técnicas de outras engenharias. Contudo, a EP construiu sua própria identidade ao incorporar, além dos aspectos técnicos, a valorização do homem, como ser social e instrumento de produção (LIMA, 1994).
A inclusão da ‘dimensão social’ exige que a metodologia e os pressupostos aplicados a EP sejam diferentes dos aplicados na tradicional abordagem positivista, que, segundo Thiollent (1996, p. 7), “(...) demonstram grande preocupação com a quantificação de resultados empíricos, em detrimento da busca de compreensão e de interação entre pesquisadores e membros das situações investigadas”.
Segundo Susman & Evered (1978), os pressupostos positivistas são inadequados para gerar conhecimento a respeito da organização e, em especial, para desenvolver métodos que permitam solucionar os problemas existentes na mesma. Visto que:
• As organizações são sistemas de ações humanas nos quais os meios e os fins são regidos por valores;
• As observações empíricas e as reconstruções lógicas das atividades
organizacionais não são suficientes para a ciência das organizações, visto que estas são planejadas de acordo com a visão de futuro de seus integrantes e podem ser entendidas experimentalmente pelos pesquisadores organizacionais sem a necessidade de fundamentação empírica ou validação lógica;
• As organizações são únicas, não devendo haver a preocupação de generalização dos resultados de suas análises para outros casos.
Por isso, em se tratando de pesquisa organizacional, a epistemologia antipositivista – em especial a Pesquisa-Ação – pode corrigir algumas das deficiências da concepção tradicional de pesquisa na qual são valorizados critérios lógicos, formais e estatísticos. As diferenças entre ciência positivista e PA encontram-se detalhadas no Quadro 8.
Feitas tais considerações, parte-se para a elucidação da própria definição da metodologia de pesquisa adotada. De acordo com Thiollent (1996, p. 14):
“A Pesquisa-Ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo”.
Para Coughlan & Coghlan (2002), a PA é uma pesquisa em ação e não pesquisa sobre ação, ou seja, os integrantes da situação investigada, além de serem objeto de estudo, são também participantes da resolução de seus próprios problemas. Já RAPOPPORT (1970) revela que a PA tem como objetivo contribuir tanto para as questões práticas dos indivíduos inseridos em uma situação problemática, quanto para os objetivos da ciência social. Tem-se, então, produção e uso do conhecimento simultaneamente.
Além destas características, cabe ressaltar que a PA: i) é colaborativa, existindo uma interdependência entre pesquisador e membros da situação investigada; ii) incentiva o desenvolvimento das capacidades de um sistema facilitar, manter e regular o processo cíclico de diagnosticar, planejar a ação, atuar, avaliar os resultados e especificar o aprendizado; iii) requer uma estrutura ética entre pesquisador e membros da situação investigada; iv) pode incluir todos os tipos de ferramentas (qualitativas ou quantitativas) para a coleta de dados; v) demanda certas habilidades do pesquisador (atitudes éticas,
habilidade emocional, interpessoal e criativa, capacidade de negociação, motivação e comunicação) e a capacidade de saber identificar os valores e as normas dentro do contexto particular da organização investigada; vi) gera teoria a partir das ações; e, por último, vii) é agnóstica, ou seja, reconhece que os objetivos, os problemas e os métodos de pesquisa devam ser gerados a partir do processo investigado e que as conseqüências das ações escolhidas não podem ser totalmente conhecidas no momento da execução (SUSMAN & EVERED, 1978; COUGHLAN & COGHLAN, 2002; THIOLLENT, 1997).
Quadro 8 – Comparação da ciência positivista com a pesquisa-ação. Pontos de Comparação Ciência Positivista Pesquisa-Ação
Objetivo de Pesquisa Conhecimento universal, construção e teste de
teorias
Conhecimento em ação, construção e teste de teorias em ação
Base para Assumir a Existência
das Unidades Existem independentemente dos seres humanos
São artefatos humanos para propósitos também humanos
Papel das Unidades Estudadas Os membros do sistema cliente são objetos de
estudo
Os membros do sistema cliente são sujeito auto- reflexivos com os quais existe colaboração
Papel do Pesquisador Observador Ator, agente de mudança
Relação do Pesquisador com o
Ambiente Neutra ou separada Imerso no ambeinte
Linguagem para Descrever as
Unidades Denotativa, observacional Conotativa, matafórica
Pespectiva de Tempo Observação do Presente
Observação e interpretação do presente a partir do conhecimento do passado, concepção de um futuro mais desejável
Posição de Valor Métodos são neutros Desenvolvem os sistemas sociais e revelam o
potencial humano
Natureza da Validação dos Dados Independente do contexto, lógica, mensurável e
consistente com prognósticos e controles Dependente do contexto, empírica
Bases para Generalização Ampla, universal e livre de contexto Estreita, situacional e limitada pelo contexto
Fonte: Adaptado de Susman & Evered (1978) e Coughlan & Coghlan (2002)
Em virtude de constantes equívocos observados, faz-se necessário esclarecer que a PA também possui características que vão muito além da consultoria. Entre as principais diferenças, destaca-se que a PA:
• Busca contribuir para os avanços da ciência, enquanto a consultoria se detém na resolução de um problema prático;
• Requer um embasamento teórico para entender a problemática e formular proposições, enquanto a consultoria busca justificar a sua atuação através do empirismo;
• É interativa e cíclica, proporcionando um processo de aprendizado em equipe, enquanto a consultoria é, freqüentemente, linear e restrita, limitando o trabalho ao escopo do contrato firmado;
• Por fim, busca capacitar os membros da situação investigada a desenvolverem as mesmas atividades, futuramente, na ausência de participantes externos.
Nota-se também que existem certos contextos sociais nos quais a estratégia de Pesquisa-Ação torna-se mais apropriada. Esta deve ser usada quando:
• Espera-se gerar um conhecimento aplicável a uma situação particular e deseja-se desenvolver a capacidade dos membros da organização de resolver seus próprios problemas (SUSMAN & EVERED, 1978);
• Pretende-se explorar as situações e os problemas reais para os quais é difícil formular hipóteses prévias, relacionadas com um pequeno número de variáveis precisas, isoláveis e quantificáveis (THIOLLENT, 1996);
• Deseja-se descrever uma série de desdobramento das ações, ao longo do tempo, em um dado grupo, comunidade ou organização, e busca-se compreender, enquanto membro deste grupo, como e porquê suas ações podem mudar ou melhorar o funcionamento de alguns aspectos do sistema (COUGHLAN & COGHLAN, 2002).
Após a compreensão acerca da metodologia adotada, prossegue-se para o detalhamento das fases da Pesquisa-Ação no contexto investigado: uma empresa nascente de base tecnológica.