A pesquisa social sobre masculinidade inicialmente centrava-se na discussão do conceito sociológico de papel social. Segundo Connell (2005), havia basicamente duas formas de abordagem do conceito de papel social na teoria de gênero: em uma delas, os papéis sociais eram vistos como específicos em determinadas situações (por exemplo, os papéis sociais dentro do casamento), e, em outra, ser homem e ser mulher significava desenvolver um conjunto geral de expectativas que estava acoplado ao sexo de cada um e, por consequência, ao papel social. Essa discussão operava com os pressupostos de que os papéis sociais eram bem definidos, que a socialização acontecia de forma harmoniosa e que os papéis sociais internalizados contribuíam para a estabilidade social, para a saúde mental e a performance das funções sociais necessárias. As pesquisas sobre papel social se transformaram em um tópico altamente político, na medida em que definiam um problema e sugeriam respostas para sua resolução (CONNELL, 2005). Para o citado autor, os pressupostos teóricos dos papéis sociais são muito extensos e vagos, visto que podem ser usados para descrever uma ocupação, um status político, um hobby, um estágio da vida e o gênero, além de assumir que tais prescrições são recíprocas e, frequentemente, não tematizam a iniquidade social e as relações de poder.
As pesquisas atuais sobre masculinidade não ficam limitadas à teoria de papel social por causa da evidência da diversidade e da transformação das masculinidades, que se tornaram visíveis a partir das pesquisas históricas e etnográficas. Segundo Connell (2005, p. 29),
a partir destes estudos fica claro que a definição de masculinidade está profundamente imbricada na história das instituições e na estrutura econômica. Masculinidade não é só uma ideia na cabeça ou uma identidade pessoal. Ela é também estendida ao mundo e combinada na organização das relações sociais.
Por esse ângulo, masculinidade é definida não como um objeto isolado, mas como algo ampliado e que demanda o entendimento da macroestrutura organizacional da sociedade e da identificação de como a masculinidade está localizada nela.
Para Connell (2005), de alguma forma as pesquisas falharam em uma produção coerente sobre a masculinidade. Isso se deve não a acidentes dos cientistas, mas muito mais à impossibilidade da tarefa, porque “masculinidade não é um objeto coerente sobre o qual uma ciência geral pode ser produzida, apesar de termos conhecimentos coerentes sobre os tópicos levantados nestes empreendimentos” (CONNELL, 2005, p. 67). Segundo esse autor, a construção do conceito de masculinidade só pode ser entendida em contraste com o conceito de feminilidade, porque estes são inerentemente relacionais.
Por se tratar de um conceito relativamente recente, as definições sobre masculinidade seguiram quatro estratégias diferentes, segundo Connell (2005): as definições essencialista, positivista, normativa e semiótica. Vale ressaltar que cada uma delas operava a partir de uma lógica preestabelecida e que, ao mesmo tempo em que definiam uma noção — a masculinidade —, também construíam esta mesma noção.
A definição essencialista procurava delimitar o “núcleo da masculinidade”, com o objetivo de capturar a “essência da masculinidade” e definir a “verdadeira masculinidade”. O problema da abordagem essencialista é que a escolha do que definir como essência é totalmente arbitrária. O pressuposto sobre a “base universal da masculinidade nos diz mais sobre o ethos do requerente do que de qualquer outra coisa” (CONNELL, 2005, p. 69).
A ciência social positivista trabalhava com uma definição simplificada sobre a masculinidade: o que os homens realmente são. A “lógica básica”, “discriminada estatisticamente” e os “padrões da masculinidade” são os pressupostos dessa abordagem. A primeira dificuldade advém da impossibilidade de se fazer uma descrição sem um ponto de partida e, por esse motivo, a aparência neutra de tais pressupostos guarda muitas impressões sobre os gêneros. A segunda dificuldade advém do uso de tipologias de senso comum sobre os gêneros, as quais podem gerar tipificações tidas como fixas, não incorporando a noção de
dinâmica e de processo, tão importantes para a análise de gênero. A terceira dificuldade é a tendência a regular o caráter dinâmico que o gênero deve ter a partir de construtos, tais como a mulher masculina, o homem feminino, atitudes masculinas, atitudes femininas, considerando as diferenças de gênero em bloco e, consequentemente, desprezando as formas que diferem homens entre eles mesmos e mulheres entre elas mesmas.
A definição normativa reconhece as diferenças e oferece um padrão: masculinidade é o que os homens devem ser. Segundo Connell (2005), muitos estudos foram desenvolvidos sobre a mídia e tratavam da norma social de comportamentos masculinos, por exemplo, de atores como James Dean, que marcou época com seu estilo rebelde. Essa perspectiva pode se aproximar um pouco da abordagem essencialista.
A abordagem semiótica define masculinidade “através de um sistema de diferença simbólica no qual os lugares femininos e masculinos são contrastados” (CONNELL, 2005, p. 70). Esta abordagem escapa da arbitrariedade do essencialismo, bem como dos paradoxos das definições positivista e normativa. O princípio de conexão e a ideia de que um símbolo23 só pode ser entendido em relação a um conjunto sistemático de símbolos faz com que, através dessa abordagem, a noção de masculinidade só possa ser tematizada em um sistema de relações de gênero. Mais do que definir masculinidade como um objeto (uma característica, um comportamento, uma norma), é preciso
focalizar no processo e relacionamento através do qual homens e mulheres conduzem suas vidas baseadas no gênero. Masculinidade [...] é simultaneamente um lugar nas relações de gênero, a prática através da qual homens e mulheres comprometem-se com este lugar no gênero e os efeitos destas práticas nas experiências corporificadas, na personalidade e na cultura (CONNELL, 2005, p. 71).