Originalmente a Escola Municipal Professora Emília Ramos não foi concebida para atender à Educação de Jovens e Adultos.
Na época em que a Escola estava se organizando para dar início ao seu funcionamento, foi realizada uma visita à favela do DETRAN, para matricular os alunos da Educação Infantil e ali, foi detectado um número muito grande de adultos analfabetos, o que também era constatado entre os funcionários da própria Escola. Tais evidências e a reivindicação, de salas de aula para jovens e adultos motivaram
a comunidade escolar, já em 1988, para a necessidade de uma ação educativa para o turno noturno, para atender a essa clientela.
Assim aconteceu... No mês de abril de 1989, o ensino noturno da escola se iniciava com um grupo de professores que não tinha nenhuma experiência nessa área. À frente da coordenação, estavam quatro pessoas; uma diretora, uma vice- diretora e duas coordenadoras pedagógicas e todas elas trabalhavam nos três turnos e também, não tinham experiência nessa modalidade de ensino.
Os estudos do grupo, que começava a trabalhar com o ensino noturno, foram inicialmente voltados para a questão da alfabetização e buscavam respaldo na psicogênese da língua escrita, destacando-se as discussões do como se aprende, a reflexão da necessidade da escrita espontânea, das escritas sem modelo e a questão da funcionalidade da leitura e da escrita. Essas eram as preocupações iniciais e foram os pilares da formação, segundo entrevista de P1.
Para iniciar o ensino infantil, o grupo do turno diurno passou oito meses estudando. Já o grupo do ensino da EJA fazia estes estudos paralelamente à prática docente, uma vez que havia momentos de parada para estudos, pois o ensino noturno foi pensado quando a Escola já estava funcionando plenamente.
Os estudos para nós era o ponto fundamental do nosso trabalho. A necessidade era tão grande de conhecer, e quem estava à frente do grupo tinha uma posição firme quanto a isso. Nós sentávamos para estudar, e estudar colocando o que a gente vinha encontrando na nossa sala de aula. Eram muitas descobertas para nós professores como também para as pessoas que estavam no apoio pedagógico (Entrevista P1).
Nesse processo de formação de professores a Escola, desde o seu início, teve a preocupação de trazer para a pauta dos estudos o que havia de novo em pesquisa no campo da educação. Assim sendo, em 1989 com apenas quatro anos de edição em língua portuguesa do livro Reflexões sobre alfabetização, o grupo já o estudava com muita veemência.
Inicialmente, a preocupação dos estudos tinha como foco as questões relacionadas à alfabetização - como foi visto nos depoimentos, mas à medida que essas questões encontravam respostas, muitas outras surgiam. No ensino noturno, começaram a perceber que precisavam aprofundar as questões que tivessem como foco a modalidade e os sujeitos desse ensino: a EJA.
A gente começava a sentir a necessidade de estudo, de ler, de estudar, coisas que falassem mais de Educação de jovens e Adultos. A gente sentia que timha alguma coisa relacionada a uma epistemologia mesmo do conhecimento, a gênese do conhecimento no “jovens e adultos”. Quais as suas características? E que conteúdos eram mais adequados para esse grupo? Como organiza- los de forma melhor? E essas inquietações iam provocando desânimo pelo fato de nos causar desequilíbrio mesmo; mas daqui a pouco a gente se levantava e buscava respostas. As nossas dificuldades eram em termos de formação. As dificuldades eram superadas com apoio do grupo, do estudo das discussões (P-1).
O grupo começou a perceber que tudo o que se fazia tinha como parâmetro a Educação Infantil e, com a prática passaram a entender que havia diferenças entre as crianças e os jovens/adultos.
A partir de 1990 os nossos estudos começaram a ter outro foco, apesar de ainda centrado na questão da psicogênese da língua
escrita. Agora começávamos a perceber que existiam especificidades quanto ao jovem e o adulto que estava sendo alfabetizado. Uma das primeiras questões que começamos a discutir era se a gênese do conhecimento, da escrita do adulto seguia a mesma gênese do que acontecia com as crianças (P-1).
Segundo P1, os estudos tendo a EJA como foco, se intensificaram a partir de 1997, e Paulo Freire era a grande referência. Percebiam que a EJA tinha características diferenciadas do Ensino Regular, já em 1990, nos estudos que faziam procuravam relacionar com as questões da EJA. Outros autores também foram referência para o trabalho:
Ferreiro e Teberosky nas questões relacionadas à escrita, Foucambert e Smith no campo da leitura, Nilton Duarte na matemática, Freinet na organização do trabalho pedagógico com ênfase nas festas de aniversário, o texto livre e reescrita, Sérgio Haddad nas questões específicas da EJA, e começamos também a estudar textos relacionados à Andragogia (P-1).
Infere-se, portanto, que são 15 anos de construção de uma proposta para atender a Jovens e Adultos. Todo esse processo de construção foi pautado por estudos teóricos e troca de experiência com os pares, através dos quais o professor reflete sua ação docente e faz muitas descobertas. Desse modo “[...] a gente começou a compreender que as mudanças que iam acontecer na nossa prática, quem proporcionava era justamente a apropriação de novos conteúdos vindos dos estudos que aconteciam” (P-1).
À medida em que esses estudos foram sendo aprofundados a Proposta da EJA foi sendo construída pelo grupo, apoiada pela conexão teoria/prática. P1 evidencia:
A gente começou em cima dos nossos referenciais, quebrando muitos referenciais, reconstruindo esses referenciais, mas a gente conseguiu depois ir tomando um rumo diferente, dando uma cara realmente diferente à Educação de Jovens e Adultos.
Desde a sua fundação, a Escola tem a prática de registrar suas ações, de modo que os princípios norteadores do trabalho pedagógico - pensados desde a fundação da escola, em 1988, sejam do conhecimento, tanto de quem já faz parte do grupo como de quem chega.
No momento atual, a Escola está em processo de reestruturação de sua Proposta Pedagógica e sobre esse processo falaremos em outro capítulo. Mas, não poderíamos deixar de discutir aqui alguns pontos da Proposta Pedagógica da Escola, pois ela norteia todo o trabalho, tanto o desenvolvido com o aluno como também o trabalho da formação docente.
3.3 – O PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA APONTANDO